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Especialistas explicam por que produtos multifuncionais não cumprem o mesmo papel da fotoproteção tradicional
A presença do fator de proteção solar (FPS) em itens como bases, hidratantes e primers ganhou espaço nas prateleiras e na rotina de beleza. Porém, na prática esses produtos não cumprem exatamente o mesmo papel que um protetor solar tradicional. Essa distinção impacta diretamente o nível de proteção da pele.
No Brasil, o câncer de pele é o tipo mais comum e responde por cerca de 30% de todos os tumores malignos, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Quando identificado precocemente, as chances de cura são superiores a 90%, o que reforça a importância da fotoproteção como um cuidado contínuo na rotina. De acordo com a dermatologista Jéssica Starek, que atua na ALS Beauty & Personal Care, o principal laboratório de estudos clínicos de segurança e eficácia para produtos de beleza e cuidados pessoais do país, produtos multifuncionais com FPS podem funcionar como aliados, especialmente na correria do dia a dia. Dentro de uma estratégia mais ampla de proteção da pele, devemos considerar esses produtos como complemento, e não como substitutos.
“A principal diferença está na proposta de uso. O protetor solar é desenvolvido para proteger a pele da radiação ultravioleta. Enquanto os cosméticos com FPS oferecem esse benefício de forma complementar”, aponta a dermatologista.
Avaliando a proteção
A especialista explica que os protetores solares seguem critérios específicos para comprovar segurança e eficácia antes de chegarem ao mercado. Entre eles está o FPS, que indica a proteção contra os raios UVB (associados às queimaduras solares), e a avaliação da proteção contra os raios UVA (ligados ao envelhecimento precoce da pele), mensurada por métodos específicos, como o PPD.
Na prática, isso significa que um bom protetor solar precisa garantir uma proteção equilibrada contra diferentes tipos de radiação, não apenas evitar a vermelhidão imediata, mas também ajudar a prevenir danos cumulativos, menos visíveis no curto prazo.
Os testes que sustentam essas informações envolvem estudos clínicos com voluntários e análises instrumentais em laboratório. Na ALS, por exemplo, essa avaliação combina diferentes frentes, que vão desde a simulação controlada da radiação solar até medições precisas da resposta da pele aos produtos. A estrutura permite analisar não só o nível de proteção, mas também fatores como uniformidade da aplicação e resistência à água em condições próximas ao uso real. Os resultados definem benefícios explícitos no rótulo dos produtos, como nível de proteção e resistência à água, por exemplo.
Como funciona
“A avaliação da fotoproteção vai além de medir um número isolado. O que buscamos no laboratório é entender como o produto se comporta na prática, considerando desde a forma como ele é aplicado até a sua resistência ao longo do tempo. Esse olhar mais completo ajuda a traduzir os resultados técnicos em informações claras e confiáveis para o consumidor”, explica Juliana Moraes, gerente do laboratório de fotoproteção da ALS.
Já os cosméticos com FPS seguem uma lógica mais flexível. Como a fotoproteção não é sua função principal, os critérios de avaliação são menos rigorosos, o que se reflete na forma como esses produtos devem ser utilizados. Por regulamentação, esses produtos devem trazer no rótulo a indicação de que não são protetores solares. Isso ocorre porque não passam pelos mesmos critérios de avaliação de eficácia e resistência, como à água e ao suor, exigidos para os filtros solares.
Reaplicação importa
“Existe uma limitação importante nos itens multifuncionais: a quantidade aplicada costuma ser menor do que a necessária para atingir o FPS indicado na embalagem e, além disso, dificilmente as pessoas reaplicam o produto ao longo do dia”, observa a médica, destacando que esses fatores reduzem a efetividade da proteção.
Outro ponto que costuma gerar dúvida é o próprio número do FPS. Embora seja um dos principais indicadores para o consumidor, a dermatologista da ALS explica que ele não cresce de forma proporcional à proteção oferecida: “a partir do FPS 30, o ganho de proteção é incremental, mas continua relevante. Isso porque, no uso cotidiano, muitas pessoas aplicam uma quantidade menor do que a recomendada e não fazem a reaplicação ao longo do dia. Nesses casos, optar por FPS mais altos pode ajudar a compensar essas variáveis. Ainda assim, a aplicação correta e a reaplicação continuam sendo fatores essenciais para garantir a eficácia da proteção. Mesmo em ambientes urbanos e fora de situações de lazer ao ar livre, a exposição à radiação ultravioleta é constante, o que reforça a importância de manter o uso do protetor solar como etapa central da rotina de cuidados”, finaliza Jéssica Starek.