Foto de AllGo - An App For Plus Size People na Unsplash
Comitê multidisciplinar internacional elaborou as 52 recomendações para pacientes em uso de medicamentos GLP-1
A revolução promovida pelos medicamentos à base de GLP-1 (como Ozempic e Wegovy) transformou o tratamento da obesidade em todo o mundo. Pela primeira vez, milhões de pessoas passaram a experimentar perdas de peso expressivas e sustentadas sem a necessidade de intervenções mais invasivas.
Mas, à medida que os resultados se popularizam, especialistas chamam atenção para uma nova preocupação: emagrecer não é mais o único objetivo. O desafio agora é garantir a qualidade dessa perda de peso, preservando músculos, funcionalidade, saúde metabólica e resultados duradouros.
A mudança de perspectiva é tão significativa que um painel multidisciplinar internacional — formado por médicos, pesquisadores clínicos e nutricionistas — reuniu evidências científicas recentes para elaborar 52 recomendações nutricionais e de estilo de vida voltadas especificamente para pacientes em uso de terapias baseadas em GLP-1. O documento, publicado na revista científica Obesity Pillars, reforça que o sucesso do tratamento depende muito mais do que apenas da medicação.
Segundo a Dra. Fernanda Mattos, nutricionista do Instituto Metabólica, pesquisadora, docente universitária e coordenadora do ambulatório de nutrição do Hospital de Clínicas, no Rio de Janeiro, os novos medicamentos representam um avanço extraordinário no combate à obesidade. Entretanto, exigem acompanhamento especializado para que os resultados sejam realmente saudáveis.
“Estamos saindo de uma era focada exclusivamente no ponteiro da balança para entrar na era da qualidade da perda de peso. O paciente não deve apenas perder quilos; ele precisa preservar massa muscular, manter sua funcionalidade, prevenir deficiências nutricionais e construir hábitos que permitam sustentar os resultados no longo prazo. É exatamente por isso que um grupo internacional de especialistas considerou necessário consolidar 52 recomendações específicas para pessoas que utilizam essas terapias”, explica.
Como evitar a perda de massa muscular durante o emagrecimento com GLP-1
A preocupação dos médicos e nutricionistas não é apenas teórica. Estudos recentes apontam que parte da perda de peso observada durante o tratamento pode envolver a redução de massa livre de gordura (massa magra). Isso torna ainda mais importante o monitoramento nutricional adequado, o consumo suficiente de proteínas e a prática regular de exercícios físicos, especialmente os de resistência muscular (como a musculação).
“A medicação reduz a fome e facilita a adesão ao tratamento, mas ela não substitui a nutrição, a atividade física, nem o acompanhamento profissional. O tratamento funciona muito melhor quando inserido dentro de uma estratégia multidisciplinar”, afirma Fernanda.
Além dos desafios relacionados à composição corporal, os especialistas destacam outra característica frequentemente negligenciada: a obesidade é uma doença crônica e recidivante. Assim como ocorre com a hipertensão ou o diabetes, a interrupção do tratamento sem orientação pode favorecer o retorno do quadro.
O perigo do efeito sanfona: por que pacientes abandonam o tratamento da obesidade
Dados internacionais de vida real mostram que uma parcela significativa dos pacientes interrompe o uso dos medicamentos de curta ou longa ação no primeiro ano de tratamento, seja por questões financeiras, dificuldade de acesso ou indisponibilidade dos produtos no mercado.
Nesses casos, parte importante do peso perdido pode ser recuperada ao longo do tempo. Esse efeito rebote acontece principalmente quando não houve mudanças consistentes no estilo de vida e na reeducação alimentar durante o período de tratamento.
Mudança de hábitos: a “janela de oportunidade” no uso de remédios para emagrecer
Especialistas descrevem o período de uso de medicamentos como uma espécie de “janela de oportunidade comportamental”. Com a redução dos impulsos biológicos relacionados à fome e da compulsão alimentar, muitos pacientes conseguem aderir, pela primeira vez, a hábitos que antes pareciam impossíveis de sustentar.
Essa reorganização do comportamento alimentar pode trazer benefícios importantes para qualquer modalidade de tratamento da obesidade. É nesse contexto que a cirurgia bariátrica e metabólica também ganha relevância dentro de uma abordagem integrada e individualizada.
Longe de representar uma alternativa concorrente aos medicamentos, a cirurgia pode fazer parte da mesma jornada terapêutica. Ela é indicada especialmente para pacientes com obesidade mais avançada — que não conseguem obter os resultados esperados apenas com remédios — ou com doenças metabólicas graves associadas.
De acordo com o Dr. Luiz Gustavo de Oliveira, cirurgião do Instituto Metabólica, especializado em cirurgia bariátrica e metabólica e coordenador do serviço de bariátrica no Hospital de Ipanema, a preparação prévia proporcionada pelos medicamentos pode, inclusive, favorecer os resultados cirúrgicos.
“Em muitos pacientes, a perda de peso obtida antes da cirurgia contribui para melhorar parâmetros clínicos importantes, reduzir riscos operatórios e criar condições mais favoráveis para a recuperação. Além disso, esse período pode ajudar o paciente a desenvolver hábitos alimentares e comportamentais que serão fundamentais após o procedimento”, explica o médico.
Tratamento personalizado: quando associar medicamentos e cirurgia bariátrica
O especialista ressalta que a cirurgia metabólica continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para o tratamento da obesidade e das alterações metabólicas associadas, oferecendo resultados consistentes e duradouros para pacientes adequadamente selecionados.
“Hoje não falamos mais em uma disputa entre medicamentos e cirurgia. Falamos em medicina personalizada. Existem pacientes que se beneficiarão de tratamento medicamentoso prolongado, outros que terão indicação cirúrgica e muitos que poderão utilizar as duas estratégias de forma complementar. O objetivo final é sempre o mesmo: controlar uma doença crônica, melhorar a saúde metabólica e devolver qualidade de vida ao paciente”, afirma o cirurgião.
Para a Dra. Fernanda e o Dr. Luiz Gustavo, a principal mensagem deixada pelas novas evidências científicas é clara. O futuro do tratamento da obesidade não será medido apenas pela quantidade de peso perdida. Mas, também, pela capacidade de preservar a saúde, a força muscular, a funcionalidade e os resultados sustentáveis ao longo dos anos.