Pantone
Para a estrategista de imagem Janaina Souza, a “cor do ano” revela mais sobre o nosso tempo do que sobre tendências
Todo fim de ano, o anúncio da chamada “cor do ano” movimenta vitrines, coleções e redes sociais. À primeira vista, pode parecer apenas uma estratégia da indústria para estimular o consumo. Mas, para a consultora de imagem Janaina Souza, esse movimento carrega um significado muito mais profundo. “A cor não é só estética. Ela é uma linguagem social, política íntima e um termômetro emocional do tempo em que vivemos”, afirma.
Segundo Janaina, vestir uma cor é um gesto que atua simultaneamente em dois planos: o do corpo e o da cultura. “É nesse entrelaçamento que a cor ganha sentido. Ela comunica quem somos, mas também responde ao contexto social em que estamos inseridos”, explica.
Cor como intimidade: vestir para existir
Ao longo da história, corpos marginalizados precisaram negociar presença por meio da imagem e a cor teve papel central nesse processo. “Mulheres negras, por exemplo, usaram a vestimenta como estratégia de afirmação quando lhes era negada voz, território e autoria, tornando-se um manifesto silencioso”, lembra Janaina.
Na leitura contemporânea, falar da cor do ano como possibilidade, e não imposição, é reconhecer essa herança. Ao compreender que vestir é um ato de soberania, entende-se que a tonalidade escolhida não uniformiza ninguém, ela abre caminhos. Para a consultora, colocar um tom na pele é afirmar: ‘Eu decido como me apresento ao mundo’ e essa decisão é política, afetiva e estética ao mesmo tempo.
Dentro desse olhar, a consultoria de imagem deixa de ser um manual de regras, ela passa a ser uma mediação de desejo que traduz quem a pessoa é, o que quer comunicar e como deseja se sentir.
Cor como cultura: o social traduzido em paleta
Se no plano individual a cor ajuda o corpo a existir, no coletivo ela ajuda a cultura a se reorganizar. Para ela, a escolha de uma cor do ano está longe de ser aleatória, uma vez que nasce da leitura de comportamento, das tensões sociais, da saturação coletiva e das necessidades emocionais daquele momento histórico.
Ao analisar a sinalização cromática para 2026, a estrategista percebe uma virada significativa. “Não estamos falando de uma cor barulhenta e espetacular, mas de uma tonalidade mais profunda e ancorada. Isso não aponta para silenciamento, e sim para presença”, analisa.
Segundo ela, há um cansaço generalizado da superexposição estética e da performatividade constante, em que buscamos presença, não espetáculo. A paleta que emerge reflete desejos de pausa, enraizamento, quietude e propósito.
O ponto de encontro entre narrativa pessoal e coletiva
É no cruzamento entre corpo e cultura que, para Janaina, a cor encontra sua verdadeira potência. “No corpo, ela afirma identidade. Na cultura, traduz comportamento. Entre os dois, cria uma ponte”, define.
A consultoria de imagem contemporânea, segundo ela, opera justamente nesse território híbrido, mediando subjetividades e contextos sociais. Algumas perguntas se tornam centrais: como essa cor responde às urgências do tempo? Que histórias de corpos reais ela contempla? Que memórias ativa e que visibilidades renegocia?
A partir disso, surge uma constatação: A cor do ano não dita, ela revela.
Para onde vamos a partir daqui?
Para Janaina Souza, a relação com a cor está passando por uma transformação estética e geracional. “Quando vestir deixa de ser performance e passa a ser presença, o olhar sobre a cor também muda”, diz.
Ela deixa de ser apenas tendência para se tornar:
- estudo;
- política visual;
- instrumento de alinhamento entre quem somos e o que o mundo pede.
“Talvez estejamos vivendo uma virada: menos ruído, mais substância; menos impacto, mais intenção; menos imagem como espetáculo e mais imagem como cuidado”, reflete.
E conclui: “A cor de 2026 não chega para uniformizar. Ela convida, cada um à sua maneira, a se habitar melhor. Porque nenhuma paleta é mais forte do que um corpo que sabe por que se veste.”