Especialista explica como a exposição contínua a padrões estéticos idealizados nas redes sociais pode aumentar a ansiedade, a insatisfação corporal e comprometer a autoestima
Em meio à valorização da performance física nas redes sociais, conteúdos sobre exercícios, alimentação saudável e transformação corporal ganham destaque nos algoritmos digitais. Embora incentivem hábitos positivos, especialistas alertam que a exposição frequente ao universo fitness e ao corpo perfeito pode prejudicar a saúde mental.
Qual o problema em ver conteúdos sobre “corpos perfeitos”?
Para a psicóloga Marilene Kehdi, o problema surge quando a busca por bem-estar passa a ser mediada pela comparação constante com padrões estéticos inalcançáveis. “É importante diferenciar inspiração de pressão. Muitas vezes, o que aparece nas redes sociais não representa a realidade, mas uma versão cuidadosamente selecionada e editada dela. Quando a pessoa passa a medir seu valor a partir dessas referências, pode desenvolver sentimentos de inadequação, ansiedade e baixa autoestima”, afirma.
A preocupação é respaldada por pesquisas recentes. Um estudo internacional publicado na revista científica Health Communication analisou mais de seis mil participantes em diferentes países e identificou que a exposição a conteúdos conhecidos como fitspiration (publicações voltadas à promoção de corpos considerados ideais) está associada ao aumento da insatisfação corporal, da autocrítica e da percepção negativa da própria aparência, especialmente entre jovens adultos.
Quando a busca pelo corpo perfeito deixa de ser saudável
Segundo Marilene, um dos principais riscos está na naturalização da comparação. Ao consumir diariamente imagens de corpos extremamente definidos, rotinas rígidas de treino e estilos de vida aparentemente perfeitos, muitas pessoas passam a acreditar que esses resultados são facilmente alcançáveis ou representam o padrão esperado. “A comparação constante cria uma sensação de que sempre falta alguma coisa. O indivíduo deixa de reconhecer sua própria trajetória e passa a enxergar apenas aquilo que acredita não possuir”, explica.
Os impactos podem se manifestar de diversas formas: ansiedade relacionada à aparência física, frustração recorrente, queda da autoestima, isolamento social, sentimento de fracasso e uma relação cada vez mais conflituosa com a alimentação.
A especialista destaca que, em alguns casos, a busca por resultados rápidos pode levar a comportamentos prejudiciais, como dietas excessivamente restritivas, culpa após as refeições, compulsão alimentar e práticas inadequadas de exercício físico.
O mito do corpo perfeito e os padrões inalcançáveis
Outro aspecto que merece atenção é o uso massivo de filtros, recursos de edição de imagem e estratégias de produção de conteúdo que reforçam uma estética de perfeição permanente.
“As redes sociais mostram recortes da realidade. Existe iluminação, enquadramento, edição e seleção do que será publicado. O problema acontece quando as pessoas esquecem disso e passam a comparar sua vida real com uma versão idealizada da vida dos outros”, observa Marilene.
Esse processo pode contribuir para o fortalecimento de distorções na percepção da própria imagem e favorecer o surgimento ou agravamento de quadros relacionados à ansiedade, à autoestima e à insatisfação corporal.
Saúde mental também exige consumo consciente
Para a psicóloga, desenvolver uma relação mais saudável com as redes sociais é um passo importante para preservar o equilíbrio emocional. Isso inclui diversificar as referências consumidas, seguir perfis que valorizem saúde de forma ampla e realista e observar como determinados conteúdos afetam o próprio estado emocional. “O objetivo não deve ser alcançar um padrão de perfeição, mas construir uma relação equilibrada com o próprio corpo. Saúde não é sinônimo de aparência. Ela envolve bem-estar físico, emocional e psicológico”, ressalta.
A especialista reforça que o autoconhecimento e a autoaceitação são ferramentas fundamentais para reduzir o impacto das comparações digitais. “Seu valor não está condicionado à sua aparência nem à validação recebida nas redes sociais. Cuidar da saúde mental também significa aprender a olhar para si mesmo com mais gentileza e menos cobrança.”