A vilã mais apavorante de Três Graças é a traficante Samira: ela rouba a bebê de Joélly, depois de chamar a adolescente de “meu anjo” (Foto: Fábio Rocha/Globo)
A redação da revista Malu elegeu os erros e acertos da trama; acompanhe as boas sacadas e também os equívocos
Três Graças estreou em 20 de outubro do ano passado com uma sinopse promissora: três mulheres humildes da mesma família lutam para conseguir um lugar ao sol em meio a um cotidiano de carências e desafios. Assinada por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, a novela jogou holofote sobre temas importantes: a realidade da mãe solo, a corrupção nas elites, o tráfico de bebês, a sede de justiça social.
Depois de quatro meses de exibição, já é possível fazer um balanço de Três Graças, que assumiu a difícil missão de substituir Vale Tudo, um ícone da dramaturgia nacional, com audiência expressiva e repercussão barulhenta nas redes sociais. A redação de Malu registrou suas impressões sobre a novela atual, apontando os principais erros e acertos. Você concorda?
5 erros de Três Graças
1 – Fundação não tem sócio nem ações
Salvador Ferette (Murilo Benício), o vilão da trama, vive se vangloriando da fortuna conquistada e do alto valor das ações da fundação que leva o nome dele. Mas, na vida real, uma fundação não tem ações, já que não é uma empresa e não foi feita, portanto, para lucrar. Por isso, também não tem sócios. Assim, Arminda (Grazi Massafera) seria uma instituidora, e não sócia do seu amante. Licença poética dos autores?
2 – Remédio falso é argumento frágil
Um dos vetores da novela é o seguinte argumento: Ferette e Arminda enriqueceram, porque os remédios distribuídos pela fundação são falsos. Essa maracutaia rola há anos: os pilantras pegam as verbas públicas, compram medicamentos verdadeiros e os revendem no mercado paralelo, embolsando a grana. Para substituir as drogas, fabricam pílulas de farinha. Mas é improvável que uma comunidade inteira consuma remédios fajutos há um tempão sem sequer uma desconfiança, um confronto, uma contraprova. A imprensa, o Ministério Público e uma ONG já teriam denunciado a existência de caroço nesse angu.
3 – A família do porteiro
Criada para ser o alívio cômico da trama, a família do porteiro Rivaldo (Augusto Madeira) não funcionou. Na verdade, nada emplacou: nem as situações pretensamente engraçadas, nem as picuinhas entre os próprios familiares, nem as relações acidentadas com a parte rica da trama. No fim das contas, coube à madame da Aclimação eliminar Célio (Otavio Muller), o que provocou também a saída de Chica (Rejane Faria), mulher dele, da novela.
4 – Vilão não bota medo
Ferette não é um vilão convencional. Talvez, porque não provoque medo em quase ninguém. O magnata tem um jeitão abobalhado e, muitas vezes, parece mais à vontade com o tom de comédia do que com o de suspense. Pode ter sido uma escolha da direção? Um viés que o ator preferiu destacar? O fato é que, apesar de não ser protagonista da trama, Samira (Fernanda Vasconcellos) tem uma energia bem mais pesada e assustadora do que a de Ferette.
5 – Ritmo irregular
Três Graças tem picos de ação, isso é fato. No entanto, também tem sequências infinitas de marasmo. Ou seja, a novela derrapa na irregularidade de ritmo. Os últimos acontecimentos, envolvendo a bebê roubada de Joélly (Alana Cabral), estão bem mais agitados, mas há um mês a novela seguia num compasso morno, paralisando o entusiasmo do público. Será que a descoberta da casa de farinha e a fome de vingança de Rogério (Du Moscovis) vão esquentar os próximos capítulos? Tomara que sim!
5 acertos de Três Graças
1 – A mocinha que não é mocinha
De mocinha, a protagonista Gerluce (Sophie Charlotte) não tem nada. Ela sabe o que quer, enfrenta os poderosos e foi capaz de articular o roubo de uma obra de arte para fazer justiça social na comunidade onde vive, mesmo namorando um policial civil. Ao contrário das donzelas de antigamente, Gerluce não espera que os homens tomem a iniciativa nem deseja ser salva por eles. O empoderamento feminino é uma marca forte na trama dos Silva, e a expressão mais relevante da família Das Graças. Vale ressaltar que foi a destemida e inspiradora Lígia (Dira Paes) quem começou a puxar esse fio.
2 – Lorena e Juquinha
Não há quem não torça pelas meninas apaixonantes e apaixonadas, Lorena (Allanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky). Elas são parceiras, cúmplices e colocam a ética em primeiro lugar, combatendo a corrupção e os preconceitos dos quais também já foram vítimas. Provam que o amor verdadeiro pode superar qualquer obstáculo, inclusive os ataques insidiosos de Ferette. Os autores acertaram em cheio na concepção do casal, que também gera identificação junto ao público LGBTQIAPN+.
3 – A verdadeira face do horror
Samira tem um jeito manso de falar e usa palavras doces para acalmar suas presas. No entanto, por trás daqueles olhos gelados, ela sintetiza a verdadeira face do horror: luta até o fim pelos próprios interesses; acha que traficar recém-nascidos é um trabalho como outro qualquer; e não se compadece de ninguém. É capaz de chamar Joélly de “meu anjo” e roubar a bebê da adolescente em seguida sem sequer hesitar. O detalhe sórdido: na mocidade, Samira vendeu o próprio filho, Raul (Paulo Mendes), e acabou de negociar a neta, uma vez que será revelado que ela é a mãe biológica do namorado de Joélly. Resumindo: ótima performance de Fernanda Vasconcellos.
4 – Belo e Viviane: nostalgia gostosa
Foi uma sacada de mestre: juntar, na ficção, um casal que permanece no imaginário popular desde o fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Sim, porque, há pouco mais de duas décadas, a concepção de romance era moldada, em grande parte, por Belo e Viviane Araujo – ele um pagodeiro em ascensão com questões judiciais; ela, a musa absoluta do Carnaval e companheira implacável do amado. Em Três Graças, os atores interpretam Misael e Consuelo, um ex-casal que ainda experimenta as emoções quentes dos velhos tempos. Unir os atores agradou aos nostálgicos, agitou a curiosidade do telespectador e deu mais visibilidade para Três Graças, sobretudo nas redes sociais.
5 – De caricata a engraçada
Arminda não é exatamente uma Odete Roitman (Debora Bloch). Em Vale Tudo, a novela antecessora, a vilã pintou e bordou com frases lapidares e um comportamento sinistro, capaz de grandes e perversas armações. A madame da Aclimação não tem essa personalidade racional e metódica: ela age, na maioria das vezes, pelas próprias emoções, e é mais engraçada do que ardilosa. Grazi achou o tom para a personagem, que começou caricata, mas alcançou um equilíbrio. É claro que Arminda merece mofar na Papuda? Sim, mas, até lá, vale a pena dar risada das maluquices dela.
Com: Hérica Rodrigues