Globo Manoella Mello
Relembre os personagens criados por Walcyr Carrasco que trouxeram à tona debates imprescindíveis sobre violência contra a mulher
O caso de Dora (Mariana Ximenes) e André (Henrique Barreira) está por um triz de ser descoberto. Quando isso acontecer, tudo indica que Ademir (Dan Stulbach) vai reagir da pior maneira possível. Ao flagrar a esposa e o sobrinho aos beijos na sala de casa, o advogado criminalista vai agredir a mulher com um tapa no rosto, deixando cair por terra a imagem de homem correto que ele tanto tenta manter.
Mas, vale lembrar, esse não é o primeiro personagem agressivo criado por Walcyr Carrasco e há uma motivação para isso. Ao trazer essa problemática para as telas, o autor levanta um debate social importante sobre um problema que afeta milhares de famílias brasileiras. Assim, ao chocar os telespectadores, abre-se espaço também para que as vítimas reconheçam a violência e procurem ajuda, ou ao menos se abram com alguém.
MALU reuniu outras personalidades que Walcyr criou para as telenovelas que ligaram o alerta para a agressividade. Confira:
Gael, de O Outro Lado do Paraíso (2017)
Gael (Sérgio Guizé) era o retrato do ciclo da violência doméstica e ia muito além de um simples vilão que planejava o mal friamente. Ao longo dos capítulos, pudemos ver sua agressividade explosiva, patológica e herança direta de uma criação abusiva por parte da mãe, Sophia (Marieta Severo). O comportamento de Gael seguia o roteiro de abuso que conhecemos bem, começa com uma explosão de ciúme doentio, na sequência, passa para episódios de agressão física/sexual violenta e, logo depois, um arrependimento genuíno e desesperado, com promessas de que aquilo “nunca mais vai se repetir”. Ele jurava de pé junto que realmente amava Clara (Bianca Bin), mas ficava claro que o seu conceito de amor era pautado no controle e na destruição da identidade da parceira. No fim da trama, ele tentou uma redenção – que teve controvérsias – mas que trouxe à tela a discussão sobre a desconstrução da masculinidade.
Oséas, de Morde & Assopra (2011)
Oséas Batista era um banqueiro que usava a violência como ferramenta de controle sobre a esposa, Lavínia (Nívea Stelmann), quem ele agredia com frequência e com uma frieza assustadora, justificando que estava “educando” a esposa ou corrigindo seus modos para que ela se adequasse à alta sociedade. A agressão física travestida de zelo e amor, como podíamos ver em Oséas, é uma fantasia cruel resultado do patriarcado, infelizmente ainda muito presente no cotidiano. A violência dele incluía tratar a esposa como um troféu que ele precisava moldar à força. A virada na história só aconteceu pelo choque de realidade, pela perda e pela descoberta de que Lavínia acabou se envolvendo com o próprio filho dele, Fernando (Rodrigo Hilbert). Diante do sofrimento e da solidão, o banqueiro passou por um processo de humanização e arrependimento (muito) tardio.
Andrade, de Terra e Paixão (2023)
Com Andrade (Ângelo Antônio), Walcyr personificou a violência doméstica atrelada ao alcoolismo e à dependência psicológica. Diferente de Gael, que tinha dinheiro e poder nas mãos, ele era um homem frustrado e covarde, que descontava na esposa, Lucinda (Débora Falabella), seu próprio sentimento de insignificância. Andrade usava a manipulação emocional e o papel de vítima para manter a esposa presa ao relacionamento, e as agressões físicas aconteciam geralmente sob o efeito de álcool. A substância funcionava como uma válvula de escape para sua masculinidade ferida, já que Lucinda era a provedora e maior força da casa. O personagem serviu para trazer ao debate como o agressor drena a energia da vítima até que ela encontre forças para denunciar. Andrade passou obrigatoriamente pelo tratamento do alcoolismo e pela perda definitiva da esposa, para assim chegar a um lugar de redenção.