Especialistas reforçam que a terapia subcutânea pode reduzir a permanência do paciente no hospital em mais de 60% (Foto: Magnific)
Alternativa ao tratamento intravenoso, a subcutânea é mais rápida e mais cômoda para o paciente
Quem já passou por um tratamento oncológico conhece a rotina: horas sentado em uma cadeira, com uma agulha no braço, esperando o soro acabar. Esse ainda é o cenário mais comum, mas está mudando. Alguns medicamentos antes administrados por via intravenosa, aquela que exige acesso venoso e infusão, já podem ser aplicados por injeção subcutânea. Trata-se de uma injeção feita sob a pele, semelhante a uma vacina, que costuma durar alguns minutos. Estudos indicam que essa via pode reduzir em até 68% o tempo que o paciente passa no hospital para receber o tratamento.
Mas o que isso significa na prática? E essa forma de aplicar o medicamento é segura e eficaz? A oncologista Carla Dias, do Hospital Sírio-Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, esclarece as dúvidas mais comuns sobre o assunto:
Só serve para doenças pouco complexas?
Não. Hoje, há terapias subcutâneas aprovadas para doenças oncológicas de alta complexidade, como linfomas, mieloma múltiplo (câncer de células da medula óssea) e câncer de mama HER2-positivo (tipo agressivo de câncer de mama). A via de administração não define a complexidade da doença tratada, e sim do tratamento.
Aplicação subcutânea é menos eficaz que a intravenosa?
Não é. A eficácia de um medicamento depende da sua ação no organismo na quantidade certa, e não do tempo que leva para entrar no corpo. As formulações subcutâneas são desenvolvidas para garantir que o medicamento seja absorvido de forma adequada, de acordo com a médica Carla Dias. Estudos clínicos comparativos mostram resultados equivalentes em termos de resposta e de segurança ao tratamento, incluindo resposta tumoral, ou seja, a forma como o câncer reage ao tratamento.
A aplicação é sempre feita na barriga?
Não. Os locais de aplicação subcutânea variam conforme o medicamento e o protocolo. As regiões do corpo mais utilizadas incluem o abdômen, a coxa e a região posterior do braço. Inclusive, recomenda-se o rodízio de locais para evitar reações locais e garantir melhor absorção do medicamento.
Qualquer pessoa pode aplicar o medicamento subcutâneo?
De forma alguma. A administração de terapias oncológicas subcutâneas exige profissional de saúde treinado, enfermeiro ou médico, com conhecimento do protocolo, dos sinais de reação e dos critérios de segurança. Mesmo que a técnica de aplicação seja mais simples do que a intravenosa, os medicamentos utilizados são de alta complexidade. Desse modo, a supervisão profissional não é opcional, e sim parte da segurança do tratamento.
A terapia subcutânea otimiza o trabalho dos enfermeiros?
Sim. A oncologista cita que o tempo de administração de uma terapia subcutânea é significativamente menor do que o de uma infusão intravenosa, que pode durar horas. Isso libera a equipe de enfermagem para outros cuidados. Também reduz a ocupação de poltronas e leitos de infusão, e contribui para um fluxo mais eficiente nas unidades de oncologia.
Essa terapia é mais cômoda para o paciente?
Sim, é mais cômoda. Ele fica menos tempo sentado e não há necessidade de acesso venoso, o que é particularmente relevante para pacientes com veias de difícil acesso após múltiplos ciclos de quimioterapia, segundo a especialista Carla Dias. Além disso, o paciente passa menos tempo na unidade de saúde. Isso gera um impacto direto na sua qualidade de vida, uma vez que ele consegue retomar mais rapidamente rotina, trabalho e vida familiar. “Para mim, como oncologista, comodidade não é um detalhe, é parte do cuidado”, destaca a médica.