Oscar: ausência feminina em Melhor Montagem chama atenção Fernanda Schein - Divulgação

Em nove décadas de premiação, apenas 3 mulheres venceram a categoria. Cineasta consagrada entre os editores em L.A., Fernanda Schein aponta que acesso aos grandes projetos segue desigual

Entre campanhas intensas e previsões para Melhor Filme, um detalhe passa quase despercebido na corrida para o Oscar 2026, que acontece em 15 de março: todos os indicados à categoria de Melhor Montagem são homens. Para a montadora e cineasta brasileira Fernanda Schein, o dado não é isolado e faz parte de um padrão que atravessa a história da premiação.

Concorrem este ano F1: O Filme, com montagem de Stephen Mirrione; Marty Supreme, editado por Ronald Bronstein e Josh Safdie; Uma Batalha Após a Outra, de Andy Jurgensen; Valor Sentimental, com Olivier Bugge Coutté; e Pecadores, montado por Michael P. Shawver.

Ao comentar a categoria, Fernanda relembrou um momento viralizado do Globo de Ouro de 2018. “Natalie Portman quando vai apresentar a categoria de Melhor Direção, anuncia os indicados e fala: ‘aqui estão todos os cinco homens indicados à Melhor Direção’. O apresentador ao lado dela dá uma risada de surpresa. Corta para o Guillermo del Toro, que está com a expressão constrangida. O ponto é que ela expôs a verdade sobre uma categoria, mas que afeta a quase todas as outras”.

Naquele ano, Mulher-Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, e Lady Bird, de Greta Gerwig, ficaram fora da disputa por Direção. “Eles optaram por colocar cinco homens na categoria.” Fernanda faz a conexão direta com 2026. “É exatamente dessa forma que eu vou começar falando que em 2026 nós temos cinco homens indicados à categoria de Melhor Montagem.”

Um histórico desigual

A categoria existe desde 1934. Em mais de nove décadas de Oscar, apenas oito mulheres foram indicadas a Melhor Montagem. Três venceram. Anne V. Coates levou a estatueta em 1963 por Lawrence da Arábia. Thelma Schoonmaker venceu três vezes por suas colaborações com Martin Scorsese. Margaret Sixel ganhou em 2016 por Mad Max: Estrada da Fúria. Desde então, nenhuma mulher voltou a conquistar o prêmio.

“A maioria dos filmes desse ano provavelmente foi editada por homens. Até por isso não deve ter mulheres na categoria, porque deve ter tido poucas mulheres comparado à quantidade de homens que editaram filmes esse ano, como em todos os anos.”

“A parte da montagem é muito, muito legal, e igualmente subestimada”

Para Fernanda, a questão não é apenas estatística, mas também cultural. “Todo mundo gosta de escrever, de dirigir, de estar no set. Mas quando chega a hora de montar os projetos, muita gente fala ‘ai meu Deus, que saco, agora tem que montar’. Só que a parte da montagem é muito, muito, muito legal. É uma das partes mais legais de fazer cinema, e é totalmente subestimada.”

Ela cita o livro Mulheres Montadoras – Unseen Artists of American Cinema, que resgata a atuação de editoras que trabalharam por décadas com pouca visibilidade. “Se a gente não continuar lutando por visibilidade, não é de graça que eles vão nos dar.”

Fernanda também faz um apelo direto aos colegas da área. “Se você nunca teve uma assistente mulher, contrate uma. Dê uma oportunidade para uma mulher desenvolver a habilidade da montagem. Pergunta se ela quer montar uma cena, porque eu tenho certeza que ela quer.”

As apostas da cineasta

Na análise técnica, Fernanda aponta Valor Sentimental como seu favorito pessoal. “Uma montagem elegantíssima, extremamente sentimental e que passa despercebida porque não é óbvia na tela.”

Ainda assim, acredita que a disputa esteja mais concentrada entre F1 e Uma Batalha Após a Outra. “É muito comum o filme que ganha Melhor Filme levar o prêmio de montagem. Eu acho que ‘Uma Batalha Após a Outra’ vai levar. Também não ficaria surpresa se ‘F1’ ganhasse.”

E reforça o ponto que motivou o comentário. “Todos os indicados à Melhor Montagem este ano foram montadores homens. Uma pena. Eu espero que, no futuro, a Academia coloque mais mulheres na categoria e que a indústria permita que mais mulheres entrem nessa área.”

Enquanto o Oscar 2026 se aproxima, a categoria de Montagem não deve ocupar o centro das discussões. Mas, para quem trabalha na sala onde o cinema ganha forma, o recorte de 2026 diz bastante sobre quem ainda encontra mais espaço para contar histórias.