Confused young girl laying on sofa at living room in front of laptop
Que as redes sociais abriram um leque de possibilidades para buscar informação, não dá pra negar. O ambiente virtual é um espaço onde profissionais, pesquisadores e estudiosos sobre determinados temas podem utilizar como meio de compartilhar conhecimentos, descobertas, e até criar um espaço para discussão – e tudo isso é muito positivo quando pensamos em democratizar sabedoria. Mas será que essa liberdade de voz realmente tem gerado bons resultados? Muitas vezes, não.
Onde o problema da ignorância começa
Apesar da informação chegar fácil, há também o outro lado da moeda, em que muitas pessoas aproveitam essa liberdade de forma equivocada e até prejudicial. Quem nunca rolou o feed e se deparou com algum conteúdo sobre saúde, política, ou até questões de comportamento, vindo de alguém sem nenhuma propriedade para falar sobre o assunto? Ou pior, alguém com autoridade, mas passando informações incorretas? É sobre isso que vamos falar aqui.
Movimento de descredibilização que gera ignorância
O sociólogo, filósofo e escritor Luiz Felipe Gonçalves diz que devemos levar em conta que até certo tempo atrás – antes do advento e crescimento desenfreado da internet e suas tecnologias – quem detinha o monopólio da informação e de criação de paradigmas eram instituições oficiais. “Com a fragmentação dos canais de comunicação, a sociedade vem perdendo as referências desses paradigmas, e por isso buscam seus valores de outras formas (em outros meios)”, comenta o profissional.
Em outras palavras, significa que, para que isso tenha ocorrido (e continue), as instituições de autoridade em um assunto específico passaram a ser desacreditadas, principalmente por meio de teorias da conspiração. “Na pandemia da COVID-19, por exemplo, vimos ataques à credibilidade das instituições de saúde, desde a OMS, até à própria ciência”, pontua Luiz.
“Ao minar as fontes de referência, cria-se um vácuo para que novas referências sejam imputadas. E como as fontes hoje são fragmentadas e de nicho, criam-se quantas verdades são desejadas.”
A fonte do problema
Para Luiz Gonçalves, as redes sociais têm um papel central na problemática da ignorância por três principais motivos:
-Primeiro, dissemina o enfraquecimento de instituições de autoridade científica;
-Segundo, oferece os meios para que informações alternativas sejam publicadas;
-Terceiro, repete para o público insistentemente as informações desejadas – e não necessariamente as verdadeiras – por meio dos algoritmos.
“Além disso, os algoritmos promovem uma polarização: não só o leigo, paradoxalmente, formula uma opinião sobre uma verdade científica, mas também cria hostilidade contra quem pensa diferente”, acrescenta o sociólogo.
É ‘fácil’ falar qualquer coisa, em qualquer lugar
Luiz Felipe Carvalho, formado em neurociências pela Logos University International, traz uma visão complementar sobre o assunto, e concorda que a tecnologia foi o grande fator que impulsionou esse processo. “A facilidade em se ter um palanque virtual para falar com milhares, às vezes até milhões de pessoas, permite suprir a necessidade – já desregulada – de dopamina de uma forma muito negativa”, destaca.
Ele também alerta para os riscos cognitivos e a longo prazo que esse comportamento pode causar. “A repetição de discursos rasos contribui para a disseminação de informações incorretas, o que prejudica a tomada de decisões bem fundamentadas e a compreensão adequada de determinados temas, além de limitar a percepção da pessoa sobre temas importantes.”
Os aproveitadores estão on-line
Para Luiz Carvalho, muitas pessoas que disseminam essas pseudoinformações fazem isso de forma quase que… inocente. Não há maldade, a princípio, nessa atitude. “Elas acreditam que estão ajudando outras pessoas, e se sentem impelidas a compartilhar justamente por elementos usados no conteúdo, como gatilhos mentais estratégicos”, aponta o neurocientista.
Por isso é preciso tomar muito cuidado com o conteúdo consumido, pois a internet está cheia de gente que só quer se aproveitar da desinformação ou ignorância alheia, e utilizam sua imagem e voz para mentir, alienar e até aplicar golpes (emocionais ou financeiros). “Muitos praticam manipulação deliberada e como, na maioria das vezes não há ganho direto, o grande objetivo é chamar a atenção.”
É confortável permanecer na ignorância
O sociólogo Luiz Gonçalves também atribui essa onde de desinformação a um outro viés, o de que as ‘verdades’, ao contrário do que podemos pensar, têm muito mais apelo à emoção do que à razão. “As pessoas preferem estar certas do que erradas”, pontua. Além disso, a base para que as pessoas formem uma opinião costuma ser mais pautada na própria experiência, do que na análise de várias outras, como seria feito em um trabalho científico mais rigoroso.
Como exemplo, Luiz cita um pensamento muito compartilhado no meio do senso comum: “a avó da minha vizinha fumou a vida inteira, e nunca teve nenhum problema de saúde”. De acordo com ele, essa tendência é uma porta aberta a vieses de confirmação. “Ser contrariado por uma verdade científica pode pressionar por uma mudança de hábitos, de ideologias, de igreja, etc. Dessa forma, buscamos informações que confirmem os conceitos ou hábitos que já temos”, explica.
O Efeito Dunning-Krueger: já ouviu falar?
Para elucidar um pouco mais esse cenário, Luiz Gonçalves contou a história do estudo feito por dois cientistas: David Dunning e Justin Krueger. Foram feitos dois testes para dois grupos diferentes, sendo um para especialistas e outro para não-especialistas sobre um determinado assunto.
Um teste era sobre o quanto a pessoa achava que sabia sobre a matéria, e o outro era um teste de proficiência sobre a matéria. “Obviamente os especialistas foram muito melhor que os leigos na proficiência, e, surpreendentemente, pior no quanto achavam que sabiam sobre o assunto”, pontua o sociólogo.
“A conclusão do Efeito Dunning-Krueger é: quanto menos se sabe sobre algo, mais se acha que se sabe, e vice-versa.”