A importância da amizade para a saúde mental na vida adulta

Já ouviu dizer que felicidade compartilhada é felicidade multiplicada? Pois é, no universo das relações humanas, poucas coisas são tão poderosas quanto ter alguém que genuinamente comemora as suas vitórias, vibra com as suas conquistas e sente orgulho de todos os seus passos, mesmo que a jornada da outra pessoa esteja em outro ritmo. Essa é a essência de uma amizade verdadeira. Afinal, mais do que estar presente nos momentos difíceis, amizade é sobre estar ali para celebrar, sem inveja ou competição, quando o outro floresce.
A psicóloga Monica Machado, fundadora da Clínica Ame.C, pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental, explica que as amizades na vida adulta têm um papel emocional tão importante quanto o da família. “Através delas, construímos histórias, laços e sentimentos que se desenvolvem ao longo da vida, nos permitindo conhecer cada vez mais nossos amigos. Elas funcionam como uma rede de apoio nos momentos em que não estamos bem. Mas também como um espaço de afeto quando tudo está indo bem”, diz.

Os desafios da amizade moderna

Porém, sabemos que manter vínculos genuínos não é tarefa tão simples nos dias atuais. A rotina acelerada, a mudança de interesses e até o excesso de conexões superficiais criadas nas redes e aplicativos podem fazer com que as amizades se percam pelo caminho e acabem ficando em segundo plano. “É comum que pessoas conheçam muitos amigos por meio de aplicativos. Mas, à medida que o relacionamento se desenvolve, algumas acabam selecionando quais amigos convidar para eventos específicos. Muitas vezes, os interesses se perdem antes que o vínculo se torne duradouro”, explica Monica.
Sendo assim, para ser possível cultivar relações profundas, a psicóloga reforça a importância de nutrir a amizade como se nutre a relação com a família ou até o relacionamento romântico. Isso não significa misturar as coisas. Mas sim aprender a dar valor aos encontros (que podem ser poucos, considerando os contextos individuais), às datas especiais e ao simples gesto de estar presente no dia a dia, mesmo que de forma remota. “Manter uma amizade é tão significativo quanto cuidar da relação com nossa família. A valorização dos encontros e das datas especiais fortalece o vínculo tanto no cotidiano quanto nos momentos de solidão.”

Nem tudo são flores, e é aí que tá o segredo

Mas é importante ter em mente que nem tudo será sempre harmonia. Afinal, conflitos podem surgir como em qualquer relação humana, e lidar com eles de forma saudável é um teste de maturidade relacional. “Uma amizade verdadeira não depende da concordância em todas as opiniões. O fundamental é saber distinguir entre uma troca saudável de ideias e comportamentos que possam gerar conflitos, buscando sempre o entendimento mútuo”, afirma a especialista. “Respeitar as diferenças é um traço de amizade sólida”, completa.
Quando falamos em vida adulta, é preciso ter em mente que fazer novos amigos vai exigir abertura emocional e disposição para criar espaço para outras pessoas entrarem na sua vida. Isso pode acontecer no ambiente de trabalho, em um novo bairro ou até mesmo ao se mudar para um lugar com cultura completamente diferente do que estava habituado, como comenta Monica. “Muitas amizades surgem da empatia, outras pela convivência. Diferenças culturais podem despertar curiosidade e conversas profundas. Mas, para ter e cultivar amizades, é preciso estar disposto a permitir que o outro faça parte da sua vida”, diz.

“É impossível evoluir sozinho”

Muito além do conforto emocional, a psicóloga reforça que os amigos são verdadeiros catalisadores de crescimento pessoal e até mesmo profissional. São nas rodas de amigos onde uma simples troca de ideias, discussões e experiências vividas em conjunto nos ajudam a expandir nossos horizontes de pensamentos e ações para nos tornarmos pessoas melhores. “Dificilmente conseguiremos evoluir sozinhos. É importante se reunir com amigos pelo menos uma vez por semana para estimular a mente e absorver mais sabedoria através das conversas”, aconselha Monica.
Por outro lado, ela enfatiza que é essencial saber reconhecer quando uma amizade deixa de ser uma relação saudável. “Amizades, assim como relacionamentos amorosos, podem se tornar prejudiciais. Se não houver atenção e interesse mútuo, é hora de refletir sobre o papel dessa amizade e se ela realmente contribui para o seu bem-estar”, orienta a profissional.

Amizade fora das telas

Por fim, é preciso estar atento à nossa realidade. Em um mundo onde tantas interações são filtradas por telas e algoritmos, encontrar — e especialmente manter — alguém que se alegra com a sua felicidade é quase um ato de resistência. Amizade verdadeira é sobre cultivar laços que não competem entre si, mas se celebram juntos; que não se cobram, mas se apoiam. E que não apenas estão presentes quando você está derramando lágrimas, mas que brilham junto também quando você sorri. Porque, no fim, a amizade verdadeira é aquela que entende que a sua vitória também é, de alguma forma, dela.


Ana Carvalho

Repórter de revista e portal na Editora Alto Astral. Bacharela em jornalismo e pós-graduada em Comunicação e Mídia pela Universidade...