O silêncio dos homens e o impacto da masculinidade tóxica
Uma cultura excessivamente masculinista e o silêncio dos homens têm trazido diversos prejuízos, inclusive a eles mesmos
Estatisticamente, um homem tem cerca de quatro vezes mais chances de morrer por suicídio do que uma mulher. É o que diz os dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Um dos motivos apontados por especialistas é que, além de os homens utilizarem métodos mais letais nas tentativas, eles têm menos chances de pedir socorro em momentos de colapso emocional. Ser mulher em um mundo em que, há pouco mais de um século, elas não tinham direito ao voto é quase impossível. Mas ser homem também não tem sido fácil.
E os ruídos são muitos. Coaches que pregam uma suposta “verdadeira masculinidade”, vendendo cursos caríssimos que, em boa parte das vezes, estão cheios de pseudociência e ódio às mulheres. Teorias conspiratórias sem fundamento, que definem mulheres como interesseiras por natureza, viralizam sem parar entre meninos adolescentes. Há, inclusive, influenciadores irresponsáveis aproveitando-se da conivência das plataformas com conteúdos polêmicos para produzir cada vez mais esse tipo de discurso. E, mesmo diante de tanto ruído, paradoxalmente, os homens estão em silêncio — e isso faz parte do problema.
Entre o ruído e o silêncio dos homens…
Certa vez, o ativista Martin Luther King disse: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, frase que se aplica a muitas coisas, inclusive à crise da masculinidade. “A cultura do silêncio masculino se manifesta de formas cotidianas: meninos instruídos a ‘engolir o choro’, homens que enfrentam perdas sem poder falar sobre elas, colegas que trocam piadas para evitar conversas íntimas…”, lista Ana Tomazelli, psicanalista e presidente do Ipefem (Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino).
Para a especialista, a origem desse silêncio remonta a construções socioculturais muito antigas, reforçadas por discursos patriarcais que associam vulnerabilidade à fraqueza e fraqueza à feminilidade. “Na tradição judaico-cristã, há uma longa associação entre masculinidade e contenção emocional. O Antigo Testamento, exalta a figura de Jó, por exemplo por sua resiliência diante da dor, sem jamais ‘maldizer a Deus’. A ideia de que o homem justo suporta sem questionar segue amplamente reforçada ao longo dos séculos”, exemplifica.
Embora esses textos possam ter interpretações mais sensíveis, historicamente foram usados para justificar a ideia de que homens não devem expressar emoções abertamente, especialmente no Ocidente.
A masculinidade em agonia
Se não conversamos sobre masculinidade, alguém conversa. E a crise é tão grande que já há especialistas em gênero que acreditam que os meninos de hoje são mais machistas do que seus avós e pais, algo que seria impensável há poucos anos, em um cenário impulsionado principalmente pelas redes sociais.
Em um teste assustador realizado pelo jornal The New York Times, uma conta no TikTok criada com informações de um menino de 14 anos demorou cerca de meia hora para receber conteúdo sexista. “Esses movimentos e ações que buscam ‘retomar o controle’ dos homens acabam reforçando exatamente aquilo que supostamente pretendem combater: o poder hierárquico e o domínio”, reflete Esther Carrenho, psicóloga clínica, teóloga e facilitadora de grupos de crescimento emocional e de casais.
Para Ana Tomazelli, a chamada “crise da masculinidade” não se trata de uma crise do ‘existir’ do homem, mas da forma como fomos ensinados a sê-lo. “A necessidade de performar força o tempo todo torna-se insustentável quando os homens se deparam com a própria vulnerabilidade, algo que a pandemia, as transformações no mundo do trabalho e os novos arranjos afetivos evidenciaram com força.”
DESTAQUE: “Os meninos que crescem assim podem apresentar uma cisão entre sentir e pensar. Consequentemente, podem desenvolver doenças físicas e desequilíbrios emocionais, como depressão, ansiedade e explosões de raiva.” Esther Carrenho
A repressão como modelo
Segundo Esther, a origem mais comum da repressão emocional está nos primeiros anos de vida. “Desde o nascimento, o bebê já manifesta emoções primárias, como raiva, tristeza e medo. No entanto, o ambiente familiar pode bloquear ou reprimir essas emoções, especialmente nos primeiros anos, quando a criança está mais vulnerável às mensagens que recebe.”
No caso dos meninos, a repressão emocional acaba amplamente incentivada. “O chamado ‘modelo ideal’ de masculinidade, centrado em autossuficiência, dureza emocional, heterossexualidade compulsória e dominação, é sustentado por uma lógica de exclusão: ele serve a poucos e machuca muitos. A masculinidade tóxica se nutre da performance: ela exige um esforço constante de reafirmação, como se o homem estivesse sempre à beira de ‘deixar de ser homem o suficiente’”, pontua Ana.
E agora?
Bem, precisaremos mudar o mundo. Por mais que seja uma conclusão difícil, ela é não só urgente como bem menos impossível do que parece. “O que está ruindo não diz respeito ao masculino em si, mas o pedestal frágil em que ele foi colocado. A boa notícia é que essa crise pode ser fértil: ela abre brechas para a criação de novas formas de ser homem, mais livres, mais plurais, mais saudáveis para todos”, afirma Ana.
Esther complementa: “Com o avanço das mulheres na vida profissional e na política, os homens reconhecem que existem diferenças. Mas não há inferioridade em nenhum dos lados. Diferenças não tornam ninguém menos valioso. E a mudança começa nos próprios homens, aceitando fazer uma autoanálise sincera sobre si, seus valores e, principalmente, o porquê de acreditarem neles”.
Na prática
Para ambas as especialistas, precisamos começar cedo. “A raiva, o medo, a tristeza e a alegria fazem parte da experiência humana, independentemente da identidade de gênero. Reconhecer e acolher essas emoções é essencial para o desenvolvimento saudável e para a construção de uma masculinidade mais livre e autêntica. Em seguida, podemos elaborar e implementar políticas sociais, educacionais e práticas psicológicas que promovam a reeducação e a desconstrução dos padrões arraigados de masculinidade tóxica”, recomenda Esther.
Entre algumas sugestões de como a sociedade deve reagir, as especialistas sugerem:
- Educação emocional nas escolas;
- Formação de professores, para lidar com afetividade de forma inclusiva e crítica;
- Campanhas públicas que valorizem o cuidado e a escuta ativa como práticas masculinas;
- Políticas públicas, como as de incentivo a licença-paternidade estendida. “Elas não são apenas sobre bebês, são sobre homens participando do cuidado e, com isso, se autorizando a sentir”, finaliza Ana.