Falar muito e comunicar pouco: por que é tão difícil ser entendido

Em um cenário dominado por mensagens rápidas, redes sociais e excesso de informação, uma sensação tem se tornado comum: a de falar muito e, ainda assim, não ser compreendido. Para o especialista em neurocomunicação Jotta Junior, esse é um dos grandes paradoxos da atualidade — nunca tivemos tantas ferramentas, mas nunca foi tão difícil gerar entendimento real.

“Vivemos um paradoxo: aumentou o volume de mensagens, mas não a intenção, a clareza e a profundidade”, afirma. Segundo ele, o problema começa antes mesmo da fala. “As pessoas não param para pensar por que estão se comunicando, o que querem provocar e para quem estão falando. Quando a intenção não está clara, a mensagem sai difusa — e o que é difuso não é compreendido.”

Além disso, o especialista destaca que a comunicação atual é marcada por velocidade e superficialidade. “Hoje, a comunicação é muito mais reativa do que construída. Produzimos muito conteúdo, mas comunicamos pouco.”

Falar muito impacta mais que o profissional

Essa dificuldade não impacta apenas o ambiente profissional — ela se estende também aos relacionamentos pessoais. “A comunicação é a base de tudo. Na carreira, vemos ideias boas que não avançam, projetos que falham por desalinhamento e profissionais que perdem espaço para quem se comunica melhor. Já na vida pessoal, isso aparece em frustrações, conflitos desnecessários e distanciamento emocional.”

No dia a dia, os sinais são claros. “Frases como ‘não foi isso que eu quis dizer’ ou ‘não foi assim que eu entendi’ mostram que o problema não é falta de conteúdo, mas de estrutura, intenção e conexão.”

Com o avanço das redes sociais e dos aplicativos de mensagem, o cenário se intensificou. Para Jotta, a comunicação se tornou mais rápida, porém mais fragmentada. “Estamos nos comunicando mais, mas não necessariamente melhor. Em muitos casos, pior. Temos mais mensagens, mas menos contexto; mais exposição, mas menos conexão.”

Como ser mais assertivo

Diante disso, ele reforça que o maior desafio atual não é falar — é fazer a mensagem chegar com sentido. “Falar é emitir palavras. Comunicar é gerar entendimento, conexão e movimento.”

Apesar do cenário desafiador, existem caminhos simples para melhorar a comunicação. Um deles começa com duas perguntas fundamentais: “O que eu quero com essa comunicação?” e “O que eu quero transformar no outro?”

“Clareza não é falar mais. É direcionar a transformação que você quer provocar”, explica. Segundo ele, essa transformação pode ser uma ação, uma decisão, uma reflexão ou até uma mudança de percepção.

Outro ponto importante é saber lidar com interpretações diferentes — algo inevitável em qualquer interação. “Cada pessoa interpreta a partir do seu repertório, contexto e estado emocional. O caminho não é corrigir o outro, mas reconstruir o entendimento.”

Na prática, isso significa validar a interpretação e ajustar a mensagem com clareza. “Uma frase simples pode mudar tudo: ‘Entendi como você interpretou. O que eu quis dizer foi…’. Isso reduz resistência e abre espaço para conexão.”

Para Jotta Junior, comunicar bem não é sobre perfeição, mas sobre ajuste contínuo. “Comunicação eficaz é aquela que se adapta até gerar entendimento real. Esse é o verdadeiro impacto.”