Presente no trigo e no centeio, o glúten deve ser banido por quem apresenta doença celíaca, mas diagnóstico só pode ser feito por um médico (Foto: FreePik)
Retirar o glúten sem necessidade pode provocar deficiência nutricional, alerta especialista
Virou moda: eliminar o glúten da alimentação por conta própria vem se popularizando como uma estratégia para conquistar uma dieta mais saudável. Mas você sabia que essa prática tende a trazer mais riscos do que benefícios? Isso porque, quando adotada sem orientação médica, a exclusão do glúten pode resultar na dificuldade de diagnóstico de doenças relevantes, entre outras consequências.
“O principal problema é o autodiagnóstico. Muitas pessoas decidem retirar o glúten ao perceberem sintomas, mas isso pode mascarar sinais clínicos e comprometer a investigação adequada”, afirma o médico Áureo Delgado, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.
Quando o glúten é um problema
Delgado explica que o glúten, proteína presente em cereais como trigo e centeio, deve ser cortado da dieta somente em condições específicas. Pessoas que apresentam doença celíaca (condição autoimune que se caracteriza pela inflamação do intestino após o consumo de glúten), alergia ao trigo e sensibilidade ao trigo não celíaca (quadro que não provoca lesão intestinal, mas com sintomas associados ao consumo) não devem incluir o glúten na alimentação.
Por que é prejudicial excluir
Porém, o diagnóstico dessas condições só pode ser feito por um médico, que solicitará exames específicos. Assim, sem a investigação prévia conduzida por um especialista, não se recomenda a eliminação do glúten das refeições. Isso porque, sem o consumo dessa proteína, os exames podem apresentar resultados falsamente negativos ou inconclusivos.
“Retirar o glúten antes da avaliação pode atrasar o diagnóstico por meses ou anos, além de exigir a reintrodução dessa proteína para refazer os exames, o que pode ser desconfortável para o paciente”, alerta o médico.
Além de dificultar o diagnóstico, a exclusão alimentar sem orientação médica tende a levar a deficiências nutricionais (especialmente de fibras, ferro e vitaminas do complexo B), maior custo alimentar e submissão a dietas restritivas desnecessárias.
Mais sobre a doença celíaca
A doença celíaca afeta cerca de 1% da população mundial, segundo a World Gastroenterology Organisation (federação que reúne especialistas em todo o mundo), mas ainda é subdiagnosticada no Brasil. Isso acontece por causa da baixa suspeição clínica, ou seja, muitos médicos nem sempre desconfiam dessa condição quando os pacientes relatam sintomas. Outro agravante é a diversidade de sintomas, o que pode tornar o diagnóstico menos preciso.
Preste atenção!
Pessoas que sofrem de doença celíaca podem apresentar os seguintes sintomas (atenção: esses sintomas variam e nem sempre são apenas intestinais):
- Diarreia crônica ou constipação;
- Distensão abdominal e gases;
- Dor abdominal;
- Perda de peso ou anemia;
- Fadiga;
- Dor de cabeça;
- Alterações de humor.
No entanto, esses sintomas não indicam, necessariamente, que a pessoa apresenta doença celíaca. “Nem todo desconforto após comer pão ou massa é causado pelo glúten. Outras condições, como síndrome do intestino irritável e intolerâncias alimentares, podem estar envolvidos”, explica o especialista. Daí, a necessidade de buscar orientação médica antes de banir o glúten das refeições.
Edição: Fernanda Villas Bôas