7 dicas mindfulness para se desligar das telas Foto de Aaron Burden na Unsplash

Psiquiatra explica como o excesso de estímulos digitais mantém o cérebro em estado de alerta constante . Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness pode ajudar a reduzir a sobrecarga mental

A sensação de cansaço mental persistente, dificuldade de concentração e incapacidade de relaxar mesmo em momentos de descanso tem se tornado cada vez mais comum. O uso intenso de telas, redes sociais e notificações constantes cria um ambiente de hiperestimulação que mantém o cérebro em estado de alerta contínuo. Nesse contexto, cresce o interesse por estratégias que ajudem a reorganizar a atenção e reduzir a reatividade emocional, como a Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT), abordagem estruturada e baseada em evidências utilizada como ferramenta complementar na psiquiatria moderna.

A psiquiatra Juliane de Paula explica que não devemos interpretar a prática como uma forma de “esvaziar a mente”, mas como um treino estruturado de atenção que modifica a forma como o cérebro reage aos pensamentos e estímulos do dia a dia.

“A Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness é uma abordagem estruturada, baseada em evidências científicas, que utiliza o mindfulness como ferramenta terapêutica. Geralmente, ela é desenvolvida ao longo de oito semanas, período em que o paciente aprende diferentes habilidades para lidar com pensamentos e emoções de forma mais consciente. Mas o treinamento não termina aí. A prática continua ao longo da vida e tende a produzir benefícios progressivos à medida que se torna parte da rotina.”

Entenda que não é “desligar a mente”, mas mudar sua relação com ela

O principal erro ao buscar mindfulness é acreditar que o objetivo é parar os pensamentos. Na prática clínica, isso não acontece. O foco está em mudar a relação do paciente com o que pensa e sente, reduzindo o impacto automático das emoções.

“Quando o paciente desenvolve essa habilidade de observação interna, ele deixa de reagir automaticamente a cada pensamento ou sensação. Isso cria um intervalo entre estímulo e resposta, reduz a impulsividade, melhora o controle emocional e ajuda a diminuir a intensidade dos sintomas ansiosos ao longo do tempo”, explica Juliane de Paula.

Saia do piloto automático da vida digital

A rotina conectada faz com que muitas pessoas vivam no modo automático, reagindo a notificações, estímulos e demandas sem perceber o impacto disso na própria mente. O mindfulness atua justamente na quebra desse padrão.

“Na prática clínica, observamos que muitas pessoas permanecem em constante estado de alerta, como se o cérebro estivesse sempre preparado para responder a algo urgente. O mindfulness ajuda a interromper esse ciclo de hiperativação, trazendo o paciente de volta para o momento presente e reduzindo esse estado de vigilância constante tão comum na vida moderna”, afirma a psiquiatra.

Use pausas conscientes para reorganizar o sistema mental

Pequenas pausas ao longo do dia, feitas com atenção plena, podem funcionar como verdadeiros reajustes do sistema nervoso, ajudando a reduzir o acúmulo de estresse e fadiga mental.

“Essas pausas não precisam ser longas, mas precisam ser intencionais. O paciente aprende a perceber o próprio corpo, a respiração e o fluxo de pensamentos sem julgamento. Esse treino reduz a sobrecarga cognitiva e melhora a capacidade de foco e regulação emocional ao longo do dia”, orienta Juliane de Paula.

Reduza o ciclo de pensamentos repetitivos

A ruminação mental, muito frequente em pessoas com depressão, ansiedade e outros transtornos emocionais, pode ser intensificada pelo excesso de estímulos e preocupações. O mindfulness ajuda a enfraquecer esse padrão ao aumentar a consciência sobre os pensamentos.

“Quando falamos em intervenções baseadas em evidências, estamos falando de técnicas estudadas cientificamente e que demonstram benefícios na redução de sintomas relacionados principalmente à depressão, além da ansiedade, ruminação e estresse. O mindfulness ajuda o paciente a perceber que pensamentos não são necessariamente fatos, transformando a forma como ele se relaciona com a própria mente”, explica a psiquiatra.

Aprenda a observar emoções sem reação imediata

Em vez de reagir automaticamente a emoções intensas, o mindfulness treina o paciente a reconhecer e nomear o que sente, criando mais estabilidade emocional.

“O paciente começa a perceber que emoções são estados passageiros e não precisam necessariamente gerar uma ação imediata. Esse espaço entre sentir e reagir é um dos principais fatores de proteção emocional desenvolvidos dentro da Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness”, reforça Juliane de Paula.

Use como complemento terapêutico, não como substituição

O mindfulness não substitui psicoterapia nem tratamento medicamentoso quando indicados, mas pode potencializar resultados dentro de um plano terapêutico estruturado.

“É fundamental compreender que o mindfulness não é uma solução isolada. Ele deve ser integrado a um plano terapêutico individualizado, potencializando outras intervenções quando utilizado de forma adequada e, sempre que necessário, com acompanhamento profissional”, afirma a especialista.

Consistência é o que gera mudança real

Os benefícios do mindfulness não surgem de forma imediata, mas sim a partir da prática regular e contínua, que promove mudanças progressivas na forma como o cérebro processa estímulos.

“A Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness ensina habilidades ao longo de um programa estruturado, mas os benefícios dependem da continuidade da prática. O cérebro aprende novos padrões de resposta emocional e atencional com a repetição. Não se trata de uma solução rápida, e sim de uma mudança gradual, consistente e duradoura na forma como a pessoa se relaciona com seus pensamentos, emoções e com o mundo ao redor”, conclui a psiquiatra.