O clima esfriou? Como trabalhar a intimidade em relações longas Foto: Freepik

Uma das maiores queixas de casais que estão juntos há um tempo é de que o clima esfriou. Saiba como encarar esse desafio a dois

Uma das queixas mais comentadas sobre relações a longo prazo é a diminuição da frequência sexual. Uma pesquisa realizada pelo Sexlog, uma rede social voltada para adultos, revela que, apesar de menos constante, o desejo continua aceso e muitas vezes até mais intenso. A enquete, feita com mais de 3 mil pessoas, mostra que 43% dos entrevistados afirmam transar menos do que no início da relação, enquanto 63% dizem que o sexo já entrou no “modo automático”, seja completamente ou em alguns momentos. Ainda assim, 82% demonstram interesse em inovar na vida sexual, embora muitos não saibam por onde começar.

Se o clima esfriou, é natural, mas há saídas

Mas então, a que se pode atribuir a perda da regularidade? A neuropsicanalista clínica Sanny Rodrigues responde que a explicação para essa pergunta está no próprio funcionamento “natural” do cérebro. “No início das relações, existem componentes neurobiológicos muito fortes: novidade, excitação, dopamina alta. Com o tempo, o vínculo se estabiliza, a rotina entra, e o corpo deixa de operar nesse modo de urgência”, explica.

A pesquisa também aponta que a frequência sexual dos entrevistados fica entre 3 a 5 vezes por semana — para 31% deles — e 1 a 2 vezes por semana — para 27% dos respondentes —, enquanto 21% relatam ter relações apenas algumas vezes por mês.

Por outro lado, apesar da diminuição da frequência, 53% dos participantes do estudo respondem que o desejo sexual é, na verdade, mais alto do que em fases anteriores da vida, enquanto 32% dizem que a libido se mantém igual ao começo da relação. Disso, entende-se que o problema não é falta de vontade propriamente dita, mas sim ausência de contexto que estimule o prazer em meio à rotina. “A vontade de transar não desaparece, mas vai deixando de ser estimulada. A vida vai ficando cheia com trabalho, cansaço mental e a vontade precisa de espaço psíquico para emergir”, afirma a profissional.

Mudanças não precisam ser negativas

Outra questão apontada pelos participantes da pesquisa é o “modo automático” com que a relação passa a acontecer com o passar dos anos. Diferente do que se pode imaginar, essa sensação não se dá apenas pela duração do sexo, mas sim pela falta de conexão do casal. “A repetição de roteiros, a previsibilidade e o foco em performance, em vez de conexão, transformam o sexo em algo próximo de uma tarefa. E o corpo percebe isso. O tesão não responde bem à obrigação”, diz Sanny.

A análise da Sexlog indica que 38% das pessoas sentem que o sexo fica melhor ao longo do tempo de relação, enquanto 13% acreditam que não muda e 11% assumem que piora. Porém, mesmo a parcela que acredita na melhora atribui isso às atitudes do próprio casal em relação à intimidade. Segundo a neuropsicanalista, a mudança é completamente normal e muitas vezes pode ser mal interpretada. “O interesse pelo sexo do início da relação é espontâneo, impulsivo, reativo à novidade. Em relações longas, ele tende a ser mais construído, responsivo e dependente de contexto. Muitas vezes, você não sente vontade antes, mas ela aparece durante o encontro”, aponta a especialista.

Só inovar não basta

Com tudo isso, muitas pessoas tendem a acreditar que a solução é buscar novidades, ou seja, novas experiências e o famoso “sair da rotina”. Mas, de acordo com Sanny, a saída para o esfriamento da relação não está necessariamente nessa atitude. “A novidade funciona quando ativa curiosidade, presença e autenticidade. O problema é quando ela vira uma tentativa desesperada de salvar algo que não está sendo conversado. Sem diálogo, nenhuma novidade sustenta o desejo por muito tempo”, alerta.

Mas então, o que é capaz de reacender o desejo? A resposta é mais simples do que parece: trabalhar a relação, e não o sexo diretamente. “O sexo costuma ser o sintoma, não a causa. Quando o vínculo perde espaço, quando a comunicação falha e quando o cansaço domina, a frequência do sexo responde a isso. O primeiro passo é reconstruir o espaço de encontro: retomar o diálogo sem julgamento, reduzir a pressão por performance e criar momentos de intimidade genuína”, conclui a profissional.