Movimentando R$ 24 bilhões e com mais de 118 mil estabelecimentos ativos, o mercado de segunda mão se consolida no país impulsionado pela busca por qualidade, exclusividade e sustentabilidade
O visual padronizado de vitrines de shoppings vem perdendo espaço para o charme único de peças que carregam anos de história. No Brasil, o mercado de moda de segunda mão já soma 118 mil brechós ativos, segundo dados do Sebrae levantados com base nos registros do CNPJ da Receita Federal. O setor vive uma forte ascensão, com projeção de movimentar R$ 24 bilhões até o final de 2025, de acordo com estimativas de mercado divulgadas pela entidade.

A força desse movimento reflete um reaquecimento mais amplo do varejo de vestuário. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) apontam que o setor de moda, no qual os brechós e redes de franquias circulares estão inseridos, teve alta de 8,5% no faturamento em 2024, apresentando um ritmo de crescimento acima da média do franchising nacional.
O que no passado costumava ser visto apenas como uma alternativa de consumo barato para momentos de crise econômica mudou de patamar. Hoje, garimpar roupas usadas virou sinônimo de exclusividade, busca por identidade e consumo consciente, atraindo um público cada vez mais exigente e atento às tendências de moda.
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A busca pela autenticidade e o fim da padronização
Grande parte dessa guinada cultural está atrelada à forma como as novas gerações se relacionam com a moda. Em um cenário saturado de tendências passageiras e peças idênticas produzidas em massa, o brechó surge como uma alternativa para quem deseja expressar a própria individualidade.
As redes sociais desempenham um papel fundamental nessa virada de chave. As criadoras de conteúdo utilizam as plataformas digitais para mostrar que garimpar é uma experiência criativa, desmistificando o preconceito de que o item usado é ultrapassado ou desgastado.
Para a influenciadora digital e modelo Karen Barros, o público jovem tem liderado essa transição cultural. “Hoje, principalmente entre os mais jovens, existe uma valorização muito maior da individualidade. Em vez de todo mundo querer usar exatamente a mesma peça que está em alta, existe uma busca por peças que tenham personalidade e que ajudem a construir uma identidade própria”, explica.
Segundo ela, a saturação visual provocada pela internet reforça o apelo das roupas vintage. “Nas redes sociais, a gente é constantemente exposto às mesmas tendências, às mesmas lojas e aos mesmos produtos. Então, encontrar uma peça que ninguém ao seu redor tem acaba tendo um valor muito grande. Uma peça vintage carrega uma estética, uma época e uma história”, pontua a criadora de conteúdo.
Qualidade que atravessa gerações
Além do fator estético e da busca por originalidade, o fator estrutural da roupa tornou-se decisivo para o consumidor. A percepção de que as peças antigas eram confeccionadas para durar muito mais do que os itens atuais do fast fashion tem impulsionado a transição para a moda circular.
A designer de moda Thaís Noyb ressalta que houve um ponto de virada na mentalidade do público em relação à durabilidade da vestimenta. “Acho que houve uma mudança muito grande na percepção. O mundo começou a prezar mais pela qualidade ao invés da quantidade. Com isso, o consumo de roupas duradouras e atemporais tem aumentado cada vez mais”, avalia.
Para a designer, o brechó ocupa hoje um espaço que o mercado tradicional não consegue preencher. “O brechó passou a oferecer a possibilidade de encontrar algo que não está disponível para todo mundo. Isso conversa com o momento atual, em que as pessoas querem consumir de maneira mais consciente, mas também construir uma imagem pessoal mais autêntica. A roupa deixa de ser simplesmente usada e passa a funcionar quase como um objeto de design”, ressalta Thaís.
Essa diferença no acabamento é perceptível no dia a dia de quem adotou o garimpo como estilo de vida. A artista e influenciadora Esther Souza, que trabalha com moda upcycling, destaca o custo-benefício da peça antiga frente à durabilidade do produto.
“Hoje em dia, se você for comprar uma calça jeans comum em uma fast fashion, ela muitas vezes não dura poucos meses de uso contínuo, o tecido vai puindo com o atrito. No brechó, você paga o mesmo valor por uma peça vintage com curadoria e ela dura anos. Tecidos mais antigos têm uma espessura e uma resistência diferentes, feitas para durar gerações”, comenta Esther.
A experiência da “caça ao tesouro”
Comprar em brechó deixou de ser uma tarefa funcional para se transformar em um ritual de consumo. O processo de garimpar envolve paciência, olhar atento e sensibilidade artística para enxergar o potencial de cada item disposto nas araras.
A jovem Gabrielle Moreira, de 27 anos, é consumidora assídua de brechós e conta que a experiência de compra mudou totalmente sua relação com o guarda-roupa. “Comecei buscando roupas por conta do valor e da acessibilidade, mas hoje consumo principalmente pela qualidade e pela exclusividade. É incrível saber que pouca gente vai ter uma peça igual”, afirma.
Para Gabrielle, o ritual de ir ao brechó é incomparável com a compra tradicional. “Para garimpar é preciso ter tempo e paciência. Eu costumo ir bem cedo, quando as peças acabaram de chegar. Você não entra na loja e pega uma roupa pronta em uma arara organizada por coleção. Você precisa procurar, testar e imaginar o potencial da peça. É quase como uma caça ao tesouro, além do lado social de fazer amizades e conversar com as pessoas”, conta a jovem.
O novo luxo e como construir um guarda-roupa de garimpo
O fenômeno também abriu espaço para um novo segmento de mercado: a curadoria de luxo. Peças de grifes históricas, itens assinados por grandes estilistas e acessórios vintage raros passaram a ser cobiçados como artigos de investimento e símbolos de sofisticação.
Entretanto, especialista e consumidoras concordam que o valor de um bom garimpo não depende apenas da etiqueta. Saber identificar tecidos nobres, acabamentos estruturados e bom estado de conservação são passos essenciais para quem deseja adotar o estilo.
Para quem quer dar os primeiros passos na moda circular e montar um guarda-roupa sofisticado sem errar, a designer Thaís Noyb sugere focar em peças clássicas e atemporais:
- Foco na estrutura: Priorize alfaiataria (blazers e calças), casacos, jaquetas, bolsas e sapatos de boa construção.
- Atenção aos tecidos: Dê preferência a fibras naturais, como lã, linho, seda e algodão de alta qualidade.
- Avaliação de detalhes: Observe o acabamento interno, caimento da modelagem, estado de conservação de botões, zíperes e costuras.
- Olhar além da marca: Nem todo grande achado vem de etiquetas famosas; peças de marcas menos conhecidas costumam surpreender pelo caimento impecável.
- Busca por peças-chave: Comece criando uma base neutra e funcional para o dia a dia e adicione gradualmente os garimpos especiais para dar personalidade aos looks.
Ao equilibrar a consciência socioambiental, a valorização da história do vestuário e a expressão da identidade, a moda de segunda mão prova que seu crescimento não é apenas uma onda passageira, mas sim a consolidação de um novo capítulo no comportamento do consumidor brasileiro.