O avanço dos algoritmos nas redes sociais transformou a experiência de navegar na web em uma ode ao individualismo
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre 4 e 13 de setembro, entrou para a história por dois motivos opostos. De um lado, bateu recorde de público, reunindo 760 mil visitantes ao longo dos 10 dias de evento; de outro, acumulou polêmicas protagonizadas por influenciadores digitais. Entre os vídeos que viralizaram, um ganhou destaque pelo pior motivo possível. Uma jovem leitora contou, às gargalhadas, que classificou o clássico O Diário de Anne Frank (1947) como sua pior leitura do ano. A justificativa chocou a internet quando ela afirmou que Anne Frank era “muito vitimista”.

Para quem não conhece a história, vale um breve resumo: Anne Frank era judia e passou pouco mais de dois anos escondida com a família e outras pessoas no anexo secreto do prédio onde funcionava a empresa de seu pai, Otto Frank, em Amsterdã. Durante esse período, registrou sua rotina, seus conflitos e suas esperanças no diário. Infelizmente, a polícia nazista descobriu o grupo e deportou Anne para um campo de concentração. A jovem contraiu tifo e morreu aos 15 anos, no início de 1945, sem que ninguém jamais encontrasse seu corpo. Seu pai, Otto Frank, publicou o diário para realizar o grande sonho da filha, que era ser escritora.
Sua trajetória é uma tragédia, e sua obra se tornou uma das mais conhecidas sobre a perseguição aos judeus durante o Holocausto — não para funcionar como mais um produto de consumo rápido nas redes sociais, mas para registrar os horrores do genocídio nazista. É verdade que Anne reclamava bastante em suas páginas, mas a reflexão que fica é óbvia: quem permaneceria alegre enquanto vivia um dos episódios mais sombrios da humanidade?
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Essa pergunta nos leva a outra, ainda mais profunda: o que a necessidade de julgar a dor alheia revela sobre o mundo de hoje?
Uma doença social
Embora não seja um diagnóstico reconhecido pela psicologia, a chamada ‘síndrome do protagonista’ descreve um conjunto de comportamentos associados à sensação de que a própria vida ocupa o centro das atenções. O termo também pode se referir à tendência de atribuir a si mesmo uma importância desproporcional ou descolada da realidade. “Nas redes sociais, esse comportamento pode aparecer como uma necessidade constante de estar presente. Transformar todas as experiências em conteúdo, interpretar acontecimentos coletivos a partir da própria perspectiva ou participar de debates de maneira excessiva”, aponta Jhoanne Hansen, psicóloga da Desvirtua e especialista em Saúde Mental de Criadores de Conteúdo.
É claro que o egocentrismo não foi inventado com as redes sociais, mas elas alteraram a velocidade e a escala desse olhar. “Antes, procurávamos reconhecimento em círculos mais restritos, como a família, a comunidade ou o ambiente de trabalho. Agora, podemos ser vistos por milhares de pessoas, e esse olhar é medido por métricas como curtidas e número de seguidores”, complementa a especialista. “As redes também reduziram a distância entre experiência e exposição. Não é mais necessário esperar que alguém pergunte: podemos transformar imediatamente uma experiência em publicação e receber uma resposta social em poucos minutos.”
Modelo de negócios
Talvez você reduza todo esse problema a uma simples falha moral da sociedade. Embora essa dimensão exista, ninguém deve confundir as responsabilidades. Grandes empresas de tecnologia desenvolvem sistemas algorítmicos para organizar as redes sociais, personalizar o conteúdo e alavancar o engajamento dos usuários. “Nosso feed não é uma janela neutra para a realidade. É uma seleção produzida por algoritmos a partir de nossos comportamentos, interesses e interações. Pesquisas sobre personalização algorítmica mostram que esse processo pode restringir a diversidade de conteúdos e aumentar a exposição a informações compatíveis com aquilo que já pensamos, acentuando o chamado viés de confirmação — a tendência de buscar, valorizar e dar mais atenção a informações compatíveis com nossas crenças”, alerta a psicóloga.
Ou seja: quanto mais o algoritmo ajusta o ambiente digital às nossas preferências, mais natural parece a sensação de que aquilo que vemos representa ‘o mundo’. “Psicologicamente, isso pode produzir uma espécie de ‘efeito espelho’. Quanto mais o ambiente confirma minhas preferências, mais difícil pode ser perceber que outras pessoas vivem, pensam e desejam coisas completamente diferentes. A questão não é o algoritmo criar sozinho o egocentrismo, mas ele poder reforçar uma experiência de mundo organizada com esse viés.”
Os prejuízos são muitos
Um dos efeitos mais importantes dessa ‘síndrome’ é a dificuldade de sair da própria perspectiva. “Relações saudáveis exigem reciprocidade: ouvir, negociar, tolerar frustração, perceber necessidades diferentes das nossas e aceitar que nem sempre teremos razão ou receberemos atenção. Nas redes, porém, grande parte da experiência é construída em torno da autoapresentação”, pontua. “Isso pode favorecer uma lógica de performance: eu mostro, os outros reagem; eu publico, os outros respondem. Quando essa lógica transborda para a vida presencial, podemos começar a esperar das relações uma disponibilidade e uma validação que elas não conseguem oferecer o tempo todo.”
No trabalho, isso pode aparecer como maior dificuldade para receber críticas, menor tolerância a opiniões divergentes, necessidade de reconhecimento constante ou interpretação de discordâncias como ataques pessoais. “Já na família e nas amizades, pode aparecer em conversas nas quais todos querem ser ouvidos, mas poucos estão realmente disponíveis para escutar. Também pode haver uma espécie de choque entre o ‘eu idealizado’ apresentado nas redes e o eu cotidiano, que é imperfeito, limitado e nem sempre admirado”, complementa.
Se irritar não resolve
É comum que, ao identificar alguém agindo como ‘protagonista’, muitas pessoas iniciem imediatamente uma discussão. Jhoanne, porém, orienta que isso dificilmente ajuda e pode, na realidade, piorar o comportamento. “É importante tentar compreender qual necessidade psicológica está sendo atendida pelas redes. A busca excessiva por atenção pode estar relacionada à necessidade de pertencimento, à insegurança, à solidão, à baixa autoestima ou à dificuldade de lidar com a própria imagem. Reduzir o comportamento sem compreender sua função pode apenas fazer com que ele seja substituído por outro”, esclarece.
Em 2025, um estudo transversal realizado nos Estados Unidos e publicado na revista científica JAMA Network Open, com mais de 40 mil adultos, encontrou associação entre o uso frequente das redes sociais — especialmente a publicação recorrente — e níveis mais altos de irritabilidade. Para além da hostilidade e egocentrismo na web, outro problema social tem ganhado muita força na atualidade: a sensação de solidão, e isso não é mera coincidência. Quando as redes sociais substituem interações presenciais, algumas pessoas passam a tratar o ambiente digital como uma aparente tábua de salvação para a autoestima, mesmo que, para isso, sacrifiquem conexões reais e adotem comportamentos egoístas.
“Descentralizar-se também é desenvolver a capacidade de olhar para o outro sem imediatamente transformar aquilo em referência para si. Escutar uma história sem compará-la com a nossa, participar de uma atividade sem precisar se destacar, tolerar não ser a pessoa mais interessante da sala. Parece pequeno, mas é justamente aí que recuperamos uma dimensão fundamental da vida coletiva: a possibilidade de existir junto, e não apenas diante dos outros”, conclui a especialista.