BBB 26: Debate sobre maternidade e biologia viraliza; entenda
O Brasil parou para discutir maternidade. O gatilho foi uma briga dentro da casa mais vigiada do país. A atriz Solange Couto ofendeu a jornalista Ana Paula Renault no BBB 26 ao associar a felicidade feminina exclusivamente à reprodução biológica, dizendo que ela “nunca teve o prazer de ter um filho no colo”. E não foi um episódio isolado. Em fevereiro, Solange já havia dito que Ana Paula não tinha filhos “porque Deus sabe que ela não teria capacidade de amar alguém”. A situação ultrapassou as telas, gerou um cancelamento em massa, resultando na eliminação de Solange com 94% de rejeição, e dominou as redes sociais, levantando uma discussão que a sociedade brasileira ainda não sabe como ter com maturidade.
O que o episódio escancara não é apenas uma briga de reality. São duas visões distorcidas sobre a vida adulta que colidem em público. Para o psicanalista e especialista em comportamento humano Lucas Scudeler, a repercussão do caso revela feridas profundas numa geração que perdeu contato com o que realmente significa ser mãe.
Segundo Scudeler, o erro de Solange foi reduzir a maternidade ao ato de parir. “A maternidade não nasce no útero. Nasce na capacidade de acolher, de nutrir, de cuidar de algo maior do que você. Uma mulher pode nunca ter engravidado e exercer maternidade de forma profunda, seja através de um legado, da adoção, do cuidado com quem precisa. E uma mulher pode ter cinco filhos e nunca ter sido mãe de verdade”, explica.
O “mito” da maternidade
A crítica ecoou ainda em outras vozes públicas. “Colocar que ter filho é o que define se alguém é bom ou ruim é reduzir a existência feminina à reprodução”, disse a atriz Fernanda Nobre. A apresentadora Ceci Ribeiro seguiu na mesma direção: “As mulheres já têm uma carga e uma cobrança imensas para a gente ainda imputar a elas serem pessoas melhores ou piores em virtude da maternidade.”
Por outro lado, Scudeler alerta para o extremo oposto: a cultura contemporânea que passou a tratar a chegada de um filho como uma mera escolha de consumo. “Vivemos numa sociedade que transformou praticamente todas as dimensões da vida em estilo de vida. Carreira, relacionamento, corpo e agora a maternidade. Mas existe uma diferença entre autonomia e redução. Ter o direito de escolher é uma conquista. Reduzir uma experiência dessa profundidade a uma questão de conveniência é outro problema”, analisa.
O psicanalista reconhece que a autonomia feminina é uma conquista legítima e necessária, mas observa que parte da resistência à maternidade nasce de um lugar que pouca gente nomeia: a exaustão. “Um número crescente de mulheres não rejeita a maternidade por falta de desejo. Rejeita porque não encontra um ambiente seguro para exercê-la. Quando a mulher sente que vai carregar tudo sozinha, a maternidade deixa de ser desejo e vira peso. Isso não é liberdade, é falta de estrutura”, afirma.
O que a reação nas redes revela
Sobre a fúria do público no cancelamento da atriz, Scudeler recorre à psicanálise para explicar a intensidade da reação. “Quando um tema gera esse nível de ódio, não estamos mais falando de opinião. Estamos falando de ferida. Em psicanálise, isso se chama projeção: a pessoa ataca com tanta força porque viu nas telas o reflexo de dores próprias que ainda não foram resolvidas. A briga no BBB foi o espelho. A reação partiu de quem não gostou do que viu”, observa.
Scudeler aponta que o resultado é um ambiente polarizado, onde qualquer questionamento vira julgamento e qualquer escolha vira bandeira ideológica. “Estamos longe de um debate maduro sobre o assunto. E a prova é que não conseguimos conversar sem cancelar, sem atacar, sem transformar tudo em guerra”, afirma.
Para o psicanalista, a polêmica do BBB 26 não criou o problema: apenas iluminou o que já estava no escuro. Falar sobre maternidade exige abandonar o julgamento biológico de um lado e a redução a estilo de vida do outro. “A pergunta mais honesta que uma mulher pode se fazer não é se ela quer ou não parir. É o que ela quer nutrir, cuidar e deixar no mundo. E essa é uma pergunta que exige uma investigação que vai muito além da biologia”, finaliza.