Juventude a qualquer custo? Os perigos da busca pela perfeição Juventude a qualquer custo? Os perigos da busca pela perfeição

Filtros, preenchimentos, cirurgias e rituais de skincare que prometem reverter o relógio biológico. A obsessão por parecer jovem nunca esteve tão presente, tão normalizada, e, ao mesmo tempo, tão pouco questionada. É o caso de diversas figuras públicas, como Margareth Serrão, de 60 anos, mãe de Virgínia Fonseca, que recentemente declarou se sentir 20 anos mais jovem após realizar um combo de cirurgias plásticas estéticas. O caso ilustra um padrão cada vez mais comum e levanta uma pergunta incômoda: o que está, de fato, por trás dessa corrida contra o tempo? O que há de tão insuportável em sentir a própria idade? Para o psicanalista e especialista em comportamento humano, Lucas Scudeler, a resposta vai muito além do espelho.

O incômodo diante dos primeiros sinais de envelhecimento, como um fio branco, uma ruga, uma mudança de contorno, é algo humano e universal. O problema, segundo Scudeler, está na resposta que cada pessoa dá a esse incômodo. “A obsessão por parecer jovem é o sintoma mais visível de uma geração que não sabe envelhecer porque nunca aprendeu a amadurecer. Quando você não construiu nada que transcenda o corpo, o corpo é tudo que você tem para oferecer, e a ideia de perdê-lo é insuportável”, afirma o especialista.

Ele pontua ainda que o problema não é a estética ou o autocuidado, que são expressões legítimas, mas sim a rejeição de si mesmo que transformou a cirurgia em fuga. “Quando o corpo vira a única fonte de valor, você não está cuidando dele, mas sim o adorando. E todo ídolo cobra um preço”, observa. 

Cobrança por juventude

Se a vaidade sempre existiu, as redes sociais criaram algo inédito: uma vitrine contínua onde a aparência é avaliada 24 horas por dia. A resposta que essa cultura oferece não é construir uma identidade que não dependa do espelho, mas investir cada vez mais na embalagem. “As redes sociais não inventaram a vaidade. Inventaram a obrigação de manter um personagem. A pessoa cria uma versão de si mesma que não sustenta na vida real, e isso gera exaustão”, explica. 

Nesse cenário, a distinção entre ter vitalidade e precisar parecer jovem torna-se central. Juventude não é pele lisa, mas sim a abertura para aprender. É ter perguntas. Velhice é o fechamento, é o excesso de certezas engessadas. Tem gente de 25 anos que já envelheceu por dentro e gente de 70 que continua jovem porque nunca parou de se questionar.

Diante de uma cultura que idolatra a juventude e transforma a idade em sinônimo de obsolescência, Scudeler defende que envelhecer com dignidade é, hoje, um gesto quase político. “Envelhecer com dignidade é um dos atos mais contrassensoriais que existem. Numa cultura que só valoriza o que é novo, aceitar o tempo é um verdadeiro ato de rebeldia”, define o especialista.

A reflexão aponta para uma questão mais profunda: a relação entre identidade, tempo e valor pessoal. Para o psicanalista, o caminho para sair da armadilha do rejuvenescimento compulsivo passa por construir uma identidade que não dependa da aparência como sustentação. “Se você precisa parecer jovem para se sentir valiosa, o problema nunca foi a idade. Foi nunca ter descoberto o que em você é atemporal. E esse é o tipo de investigação que nenhum espelho faz”, finaliza.