Quanto tempo leva para o corpo recuperar o ritmo de treino?
Algumas semanas longe da academia, da corrida ou dos treinos funcionais, seja por viagens, Carnaval ou excesso de compromissos, podem parecer inofensivas. Mas, do ponto de vista ortopédico, o corpo sente a perda do ritmo de treino, e sente rápido. Muita gente decide voltar à rotina de exercícios tentando compensar o tempo parado, e essa interrupção reduz a força muscular fazendo com que essa pressa seja o caminho mais curto para dores e lesões.
Impacto da perda
De acordo com o ortopedista, especialista em joelho, medicina esportiva e regenerativa, Adílio Bernardes, o chamado “destreinamento” começa antes do que a maioria imagina. “Em cerca de duas a três semanas já há perda de força e resistência muscular. Isso afeta diretamente a proteção das articulações, porque são os músculos que absorvem boa parte do impacto e estabilizam os movimentos”, explica Adílio.
Embora a memória muscular facilite a recuperação, segundo o especialista, tendões, ligamentos e cartilagens não se adaptam na mesma velocidade que o condicionamento cardiovascular. “Essa diferença costuma ser o ponto crítico no retorno. A pessoa se sente com fôlego para retomar o ritmo anterior, mas as estruturas articulares ainda não estão preparadas para o mesmo volume ou intensidade. É nesse descompasso que surgem as lesões”, afirma o médico.
Cuidado ao retomar o ritmo de treino
Dores musculares intensas, inflamações tendíneas, estiramentos e sobrecarga articular estão entre os quadros mais comuns nesse período. Movimentos de impacto, mudanças bruscas de direção e aumento repentino de carga na musculação são fatores que elevam o risco. “O erro mais frequente é tentar compensar o tempo parado em poucos dias. O corpo precisa de progressão”, orienta o ortopedista.
O médico alerta que em geral, após uma pausa de até um mês, o ideal é reiniciar com intensidade reduzida, entre 50% e 70% do volume habitual, aumentando gradualmente ao longo de duas a três semanas. “Exercícios de fortalecimento, mobilidade e estabilidade devem anteceder treinos mais intensos. O fortalecimento adequado prepara músculos e articulações para suportar carga. Sem essa base, o risco de lesão aumenta”, diz o especialista.
Outro ponto de atenção é a persistência da dor. Desconforto leve pode fazer parte do processo de adaptação. Já dor que piora com o treino, inchaço articular ou limitação de movimento são sinais de alerta. “Dor não é sinônimo de evolução. Quando ela se mantém ou progride, é preciso reavaliar”, destaca.
Para quem já planeja participar de provas ou intensificar a rotina no primeiro semestre, o especialista recomenda priorizar constância em vez de intensidade imediata. “A recuperação do condicionamento pode acontecer em poucas semanas, mas isso depende de respeito ao tempo biológico do corpo. Voltar a treinar é sempre positivo. O desafio é entender que a adaptação ortopédica não acompanha a pressa, e que evolução sustentável é aquela que preserva músculos e articulações no longo prazo”, finaliza o médico.