A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um novo alerta de farmacovigilância para reforçar os riscos do uso inadequado dos agonistas do receptor GLP‑1. A classe inclui dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Popularizados como “canetas emagrecedoras”, esses medicamentos têm registrado aumento expressivo de notificações de eventos adversos no Brasil e no exterior. Isso levou à intensificação das orientações de segurança.
O que dizem as especialistas sobre os riscos das canetas emagrecedoras
A endocrinologista Verônica El Afiouni, integrante da equipe do INKI, explica que os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais — náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dispepsia e dor abdominal — especialmente nas primeiras semanas de tratamento, durante o ajuste de dose. Embora tendam a diminuir com o tempo, podem levar alguns pacientes a interromper o uso.
Ela destaca, porém, que há riscos menos frequentes, mas potencialmente graves. São o caso de cálculos biliares, pancreatite aguda, distúrbios gastrointestinais severos, alterações hepáticas, arritmias, infecções e insuficiência renal aguda. “Diante de dor abdominal intensa, icterícia — caracterizada pela coloração amarelada da pele, mucosas e parte branca dos olhos — além de vômitos persistentes ou alterações graves de humor, o paciente deve suspender o medicamento e buscar atendimento”, alerta.
Pancreatite: sintomas iniciais que costumam ser ignorados
A médica generalista Déborah Menezes Abuchaim, especialista em doenças gastrointestinais, do INKI, afirma que o principal sintoma negligenciado no início da pancreatite é uma dor súbita na parte superior do abdômen. Ela pode parecer leve ou vir acompanhada de sinais inespecíficos, como mal-estar, distensão abdominal e digestão lenta. “A intensificação de náuseas, vômitos e febre é um alerta importante, pois pode indicar evolução para quadros moderados ou graves. Com risco de necrose pancreática e infecções”, explica.
Como diferenciar pancreatite de gastrite ou crise de vesícula
Segundo Déborah, a dor da pancreatite costuma ser intensa, contínua e irradiar para as costas, piorando quando o paciente se deita de barriga para cima. Na crise de vesícula, a dor se concentra no lado superior direito do abdômen e pode irradiar para o ombro. Já a gastrite raramente provoca dor incapacitante ou febre.
Casos graves têm sido registrados no mundo e no Brasil
A Anvisa ressalta que, embora os riscos já constem nas bulas aprovadas, o uso indiscriminado — especialmente para emagrecimento sem indicação clínica — tem ampliado a ocorrência de complicações e dificultado o diagnóstico precoce de reações graves. No Reino Unido, a agência reguladora MHRA registrou 1.296 notificações de pancreatite associadas ao uso desses fármacos entre 2007 e outubro de 2025, incluindo 19 mortes. No Brasil, entre 2020 e 2025, foram contabilizadas 145 suspeitas de eventos adversos e seis óbitos em investigação.
A agência reforça que os medicamentos permanecem seguros e eficazes quando utilizados conforme as indicações oficiais e sob acompanhamento profissional. Ainda assim, alerta que o monitoramento médico é indispensável, já que eventos adversos graves — como a pancreatite aguda, potencialmente fatal — podem ocorrer. Usuários devem procurar atendimento imediato diante de dor abdominal intensa e persistente, especialmente se irradiar para as costas ou vier acompanhada de náuseas e vômitos. Profissionais de saúde devem suspender o tratamento diante da suspeita de reação adversa. Além de notificar o caso no sistema VigiMed, essencial para o monitoramento contínuo da segurança desses produtos.
Quem não deve usar as canetas emagrecedoras e cuidados a longo prazo
Verônica reforça que os medicamentos não causam dependência, mas lembra que a obesidade é uma doença crônica, e a interrupção do tratamento sem mudanças no estilo de vida favorece a recuperação do peso. O uso é contraindicado para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, portadores de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2, indivíduos com histórico de pancreatite, gestantes e pacientes com transtornos alimentares graves.
Sobre o uso prolongado, a endocrinologista afirma que a segurança a longo prazo ainda é tema de estudos, embora a eficácia no controle de peso e na melhora de comorbidades esteja bem estabelecida. “Os cálculos biliares são um risco documentado, relacionado tanto à perda de peso rápida quanto à ação da medicação no sistema biliar. Já a cegueira não é um efeito esperado; os casos relatados envolvem agravamento de retinopatia em diabéticos com queda abrupta da glicemia”, esclarece.