Da novela Três Graças às histórias reais de quem enfrenta a rejeição familiar
A teledramaturgia brasileira sempre desempenhou um papel fundamental ao levantar e debater temas relevantes para a sociedade. Racismo, violência doméstica, dependência química… a televisão historicamente traz essas questões à tona e estimula a reflexão do público. Atualmente, a homofobia ganha destaque na novela Três Graças. Na trama, a personagem Lorena (Alanis Guillen) é expulsa de casa pelo pai, Ferette (Murilo Benício), após ele descobrir seu relacionamento com Juquinha (Gabriela Medvedovski).
Relatos honestos
Assim como na ficção, muitos homens e mulheres enfrentam o preconceito e a rejeição familiar ao assumirem sua homossexualidade. O jornalista e defensor dos direitos LGBTQIA+, Fred Itioka, aborda esse tema no livro Cartas Fora do Armário, que reúne relatos de homens de diferentes países que escrevem aos pais sobre sexualidade, amor e silêncios.

“A ideia do livro surgiu durante a pandemia, quando tive medo de que meu pai morresse e nós perdêssemos a oportunidade de realmente nos conhecermos e nos conectarmos como pai e filho. Mesmo avesso ao telefone, conversamos rapidamente em uma noite e, ao final da ligação, disse ‘te amo’ pela primeira vez na vida. Tanto ele quanto eu ficamos desconcertados, pois nunca havíamos dito isso um ao outro”, relata.
Para a construção da obra, Fred realizou quase 100 entrevistas com meninos e homens gays de diferentes idades — de 18 a mais de 70 anos —, de várias regiões do Brasil e também de países onde ser LGBTQIA+ ainda é crime. Um ponto em comum observado foi a dificuldade em falar sobre sentimentos dentro da família, especialmente com figuras masculinas.
Segundo Itioka, outro traço recorrente foi o machismo, presente tanto no Brasil quanto em países europeus e asiáticos, e a forma como ele atravessa a dinâmica familiar, influenciando comportamentos e se perpetuando ao longo das gerações.
Em uma fase tão delicada da vida, na qual crianças e adolescentes muitas vezes enfrentam em silêncio violências físicas, verbais e psicológicas, especialmente no ambiente escolar, o papel dos pais é fundamental para ajudá-los a superar inseguranças, ansiedades e sentimentos de solidão. “Abraçar as causas dos filhos é criar um laço de fortalecimento diante dos desafios da vida”, afirma.
A trama de Três Graças na vida real
O autor propõe ainda uma autorreflexão para a sociedade como um todo: estamos realmente nos comunicando com as pessoas ao nosso redor ou apenas conectados digitalmente? Estamos atentos às crianças e adolescentes ou permitimos que se isolem em seus quartos e nas telas? Estamos dispostos a ouvir o que o outro tem a dizer ou apenas aquilo que queremos ouvir? Estamos preparados para acolher quem pensa diferente de nós ou tentamos moldar todos à nossa própria visão de mundo?
A resposta para um futuro menos homofóbico pode estar nessas ponderações. Talvez as pessoas fossem mais felizes e confiantes se tivessem pais e familiares como aliados, e não como juízes. “Estar verdadeiramente próximo e atento ao comportamento dos filhos, às suas emoções e a qualquer sinal diferente, deixando sempre claro que o diálogo está aberto, pode ajudar nesse momento de travessia tão difícil. Costumo dizer aos meus sobrinhos, desde pequenos, que meu amor por eles é inabalável e que serei sempre ombros e ouvidos. Quero que cresçam sabendo que podem ser quem quiserem e que terão meu apoio”, finaliza.