Bullying deixa impactos na saúde mental ao longo da vida

Prática vai além da escola, afeta relações e pode deixar marcas emocionais duradouras

O bullying ainda é uma realidade preocupante no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, indicam que cerca de 4 em cada 10 estudantes brasileiros já sofreram bullying ao longo da vida escolar. O problema é considerado uma questão de saúde pública, com impactos diretos no desenvolvimento emocional, podendo desencadear ansiedade, depressão e, em casos mais graves, até pensamentos suicidas.

Embora seja mais visível na infância e principalmente na adolescência, o bullying também está presente em amizades, relações familiares e no ambiente de trabalho, muitas vezes de forma sutil, mas igualmente prejudicial. A psicóloga Marilene Kehdi, especialista em atendimento clínico, explica como identificar, quais são os impactos emocionais da prática e o que fazer quando estiver sendo vítima de bullying. 

O bullying acontece só na infância?

“O bullying é um comportamento de agressão repetitiva e intencional que pode acontecer em qualquer fase da vida”, explica a psicóloga. Segundo ela, apesar de ser mais frequente na adolescência, o comportamento pode surgir desde cedo, com agressões físicas, verbais e exclusão social, e continuar ao longo da vida em diferentes contextos. 

Diferenciar uma brincadeira de bullying é essencial. “Na brincadeira saudável, todos se divertem. Já no bullying, há sofrimento, repetição e um desequilíbrio de poder. Ocorrem repetidamente  apelidos pejorativos, humilhações frequentes, exclusão e comportamentos que persistem mesmo quando a pessoa demonstra desconforto”. Destaca a psicóloga. 

Pode acontecer entre amigos, na família ou no trabalho?

Dentro de grupos de amigos: o bullying pode aparecer disfarçado de “ironia”. Quando uma pessoa se torna alvo constante de piadas, apelidos ou pressões para se encaixar, isso já é um sinal de alerta, especialmente quando causa desconforto ou constrangimento.

No ambiente familiar: críticas constantes, comparações e desvalorização também podem impactar profundamente a autoestima. Quando esses comportamentos são repetitivos e negativos, podem gerar insegurança, sentimento de inadequação e dificuldade em estabelecer limites.

Já no ambiente de trabalho: o bullying costuma se manifestar como assédio moral, por meio de humilhações, exposição, desrespeito e pressão abusiva. Essas situações afetam não apenas o desempenho profissional, mas também a saúde mental e o bem-estar do indivíduo. Em alguns casos leva a Síndrome de Burnout, uma condição séria que merece atenção.

Quais são os impactos na saúde mental?

Os efeitos podem ser duradouros. O bullying e o cyberbullying repetidos causam sérios danos e podem desencadear ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldade de confiar nas pessoas, além de impactar a forma como o indivíduo se relaciona e se posiciona no dia a dia. Em muitos casos, a vítima passa a evitar situações sociais, tem medo de se expor e carrega inseguranças mesmo após o fim das agressões. 

Essas experiências também interferem no desenvolvimento emocional, influenciando a autoconfiança, a identidade e a tomada de decisões. Sem acolhimento ou intervenção adequada, os impactos podem se estender para a vida adulta, refletindo nas relações pessoais, profissionais e na qualidade de vida.

O que fazer ao identificar uma situação de bullying?

O primeiro passo é reconhecer e não minimizar o que está acontecendo. “É importante buscar apoio,  não se isolar e não se calar diante do bullying. Estabelecer limites, buscar ajuda com pessoas da sua confiança e procurar canais formais, como escola ou ambiente de trabalho, é fundamental”, orienta Marilene. Se houver impacto emocional, buscar ajuda psicológica é essencial.

Prevenção começa com educação emocional

O combate ao bullying passa pelo desenvolvimento de habilidades socioemocionais desde a infância. “Empatia, respeito, autocontrole e comunicação são fundamentais para prevenir comportamentos agressivos. Essas habilidades quando bem desenvolvidas desde a infância ajudam a construir relações mais saudáveis ao longo da vida”, destaca a psicóloga.

O bullying não é um problema individual, é coletivo. “Prevenir e combater exige respeito, empatia, diálogo e ação. É um compromisso de todos”, conclui.