Jejum de dopamina: entenda se funciona e como fazer Jejum de dopamina: funciona ou não?

Será que uma mudança de hábitos pode regular a ação dos neurotransmissores a ponto de promover uma melhoria no funcionamento do cérebro? Essa é uma pergunta de milhões! A resposta, que não é tão simples, vem gerando um debate entre defensores e opositores de um método que ficou conhecido como jejum de dopamina.

Tudo começou em 2019. Naquele ano, o psiquiatra estadunidense Cameron Sepah, da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA), publicou um estudo em que defendeu um método – o jejum de dopamina. Ele propôs que as pessoas reduzissem comportamentos considerados impulsivos, capazes de atrapalhar o dia a dia e o próprio equilíbrio emocional. E listou uma relação de atividades, associadas à sensação de bem-estar, que poderiam se transformar em vícios: comer para aliviar dores emocionais; acessar a internet para jogar ou verificar redes sociais; fazer compras num ritmo excessivo; consumir material pornográfico regularmente; buscar novidades a todo instante (sobretudo, no meio digital); e usar drogas com finalidade recreativa.

Em outras palavras, se as pessoas passassem, por exemplo, a restringir o uso do celular e revisassem a qualidade da alimentação poderiam inibir a dependência que os abusos dessas atividades provocam. Sepah fez mais: recomendou a aplicação da chamada terapia cognitiva-comportamental (TCC) para fundamentar seu método. Essa abordagem psicoterapêutica, criada nos anos 1960, convida o paciente a modificar pensamentos e atitudes para aliviar o sofrimento emocional. 

GATILHO DO PRAZER

E o que isso tem a ver com a dopamina? Tudo. Mas vamos por partes. Dopamina é um neurotransmissor, ou seja, um composto que articula a comunicação entre os neurônios, as células do sistema nervoso central. Também chamada de mensageiro químico, ela é responsável por diferentes funções cerebrais, como controle de movimentos, capacidade de concentração, formulação de desejos e ativação de impulsos. E também por uma função que deve ter interessado ao autor da expressão “jejum de dopamina”: a motivação.

Motivação gera prazer, bem-estar. Por exemplo: quando você começa a fazer exercícios físicos e nota a perda de quilos na balança, pode sentir um entusiasmo redobrado para continuar batendo ponto na academia e prestar mais atenção ao que come. Nesse caso, tanto o treino quanto a refeição serão detonadores de gratificação, porque estarão carregando um propósito – a tal motivação. 

Isso acontece, porque a dopamina está vinculada ao sistema de recompensa do cérebro. Porém, não é papel do cérebro atribuir valor ou hierarquizar o tipo de estímulo ao qual iremos reagir. Ou seja, treinar na academia pode ser tão satisfatório como devorar um prato de salgadinhos fritos em frente à TV. Nos dois casos, lembrar essa experiência pode nos levar a repeti-la para reconquistar a sensação de prazer, certo? Depende.

“Quando nos mantemos motivados para alcançar um objetivo e, assim, estabelecemos disciplina, aí está uma das atividades da dopamina”, esclarece o médico neurocirurgião funcional com formação pelas universidades de Oxford e Florida, Bruno Burjaili. Ele ensina que, para priorizar práticas que provocam bem-estar, é preciso reconhecer os resultados positivos que decorrem de cada uma delas. Assim, frequentar a academia é benéfico para a saúde; comer de forma descontrolada, não. 

Ler também gera dopamina

Da mesma forma, ler um bom livro pode incrementar o repertório intelectual, o que talvez não aconteça se dedicarmos horas e horas do nosso tempo livre aos joguinhos virtuais. Nas duas situações, o cérebro vai responder com gratificação – cabe a cada um discernir o que é mais favorável para a saúde física e mental.

Isso significa que o tal jejum de dopamina, de fato, funciona? Ou seja, eleger atividades cotidianas associadas a satisfações menos instantâneas pode mesmo melhorar o funcionamento do cérebro? “Recompensas fáceis e imediatas, como prazeres que não requerem esforço, podem, de fato, sequestrar o nosso processamento cerebral e reduzir nossa motivação para gestos construtivos mais complexos, que só trariam benefícios mais adiante”, explica Bruno.

Faz parte dessas recompensas fáceis tudo o que foi relacionado pelo psiquiatra californiano como atividades viciantes, incluindo excesso de álcool, de smartphone e

até de estímulos sexuais.

Erro de interpretação sobre a dopamina

Mas é claro que isso não significa radicalizar e manter distância eterna de uma sobremesa saborosa ou do shopping em semana de liquidação. O segredo, dizem os especialistas, é a ponderação. Por isso, o jejum sugerido pelo médico não é exatamente uma abstenção de rotinas que geram prazer, e sim um controle dessas rotinas.

O fato é que nem todo mundo entendeu assim quando Cameron Sepah divulgou o jejum de dopamina. Nos últimos anos, a proposta do psiquiatra se transformou em um atalho para alavancar a produtividade entre os profissionais do Vale do Silício, em São Francisco, reconhecido como um dos principais pólos tecnológicos do mundo.

Muitos desses profissionais levaram as instruções de Sepah ao pé da letra e passaram a avaliar a possibilidade de espaçar mais as atividades prazerosas entre os compromissos diários, avaliando que menos celular, menos sexo e menos diversões interativas elevaria a qualidade dessas experiências cada vez que elas fossem retomadas, já que eles estariam “estocando” dopamina no cérebro.

Acreditaram também que essa desintoxicação de prazeres poderia favorecer as ações cognitivas, já que as distrações as encolheriam, o que seria muito oportuno para quem deseja trabalhar mais e melhor num ambiente altamente competitivo.

Sepah tratou logo de desfazer o mal-entendido. No Health Blog, que pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard (EUA), aparece um trecho de uma entrevista em que ele comenta a interpretação equivocada do seu método. O psiquiatra admite ter criado um título atraente para despertar o interesse das pessoas, sem imaginar que elas absorveriam o sentido literal da expressão “jejum de dopamina” (em inglês, dopamine fasting).

O blog reforça que, apesar de o nível de dopamina aumentar no cérebro após a realização de uma prática que gera satisfação, o inverso não é verdadeiro: “A dopamina não diminui quando você evita atividades superestimulantes, portanto, um ´jejum´ de dopamina não reduz, de fato, os níveis de dopamina”.

Aprenda a aproveitar o método

Uma vez que a abstenção de atividades prazerosas não é o caminho para o cérebro

funcionar melhor, como utilizar de maneira prática o jejum de dopamina? O blog da Universidade de Harvard destaca que Cameron Sepah aconselha pequenas ações no dia a dia. O mais indicado é que essas ações não perturbem nem descaracterizem o estilo de vida de cada um.

Uma das sugestões é se afastar das práticas viciantes uma a quatro horas por dia. Outra alternativa é eleger o sábado ou o domingo para não utilizar a internet nem fazer compras desnecessárias. Nesse dia, o ideal seria interagir mais com pessoas próximas, visitar parques, ler, meditar, ouvir música e experimentar treinamentos que expandam a espiritualidade ou promovam vivências de sensibilização – terapias corporais, escutas, artesanato. Dessa forma, ficaria muito mais fácil estreitar o contato com gente querida, alegrar-se com coisas simples, praticar o autoconhecimento e, finalmente, assumir o controle da própria vida.

Seis hábitos viciantes

O método jejum de dopamina propõe a redução das seguintes atividades:

– Comer para aliviar sofrimento ou pressão emocional;

– Acessar a internet por longos períodos para jogar ou acompanhar redes sociais;

– Comprar compulsivamente;

– Consumir material pornográfico com regularidade;

– Dar vazão à avidez por novidades (bombardeio de informações)

– Usar drogas recreativas.(BOX)

8 curiosidades sobre a dopamina

1 – É um neurotransmissor. Ou seja, faz a comunicação entre os neurônios;

2 – Movimentos, desejos, impulsos, prazer e concentração dependem da dopamina;

3 – À medida que envelhecemos, os níveis de dopamina no cérebro caem. Na verdade, o envelhecimento afeta o funcionamento cerebral como um todo;

4 – A produção de dopamina é reduzida em pessoas que desenvolvem Parkinson.

Também há disfunção da dopamina em quem apresenta TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e dependência química;

5 – A dopamina foi descoberta em 1959 pelo farmacologista sueco Arvid Carlsson;

6 – Essa descoberta rendeu um prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia a Carlsson, uma vez que fomentou a pesquisa de medicamentos contra a doença de Parkinson;

7 – O tratamento de pessoas que sofrem de Parkinson com movimentos

comprometidos inclui uma espécie de reposição da dopamina: o levodopa;

8 – O uso experimental de levodopa em pacientes com Parkinson aparece no filme

Tempo de Despertar (1991), com Robert de Niro, que interpreta o paciente, e Robin Williams, que vive o médico responsável pela administração do medicamento. Eles protagonizam uma relação de amizade marcada por reveses, surpresas e superações.(BOX)

Saúde emocional exige exercício de conciliação

Como preservar a saúde emocional diante de tantos estímulos, sobretudo tecnológicos? “Em uma palavra, amor”, diz o neurocirurgião Bruno Burjaili. Ele compreende esse termo como um exercício de conciliação. “Devemos entender o amor como a nossa capacidade de sustentar contradições e analisá-las sem impulso, por um desfecho melhor para o todo”.

Pense numa torta holandesa: ela é apetitosa, vistosa, convidativa. O lado instintivo do seu cérebro vai forçar você a consumi-la: a ingestão de açúcar combinado com gordura representa uma explosão de prazer ao paladar. “Mas esse doce pode atrapalhar uma refeição balanceada e predispor à obesidade se for consumido no momento errado e em excesso. Com isso, em última instância, ser um passo para o infarto, o AVC (acidente vascular cerebral), o câncer”, adverte o médico. Ou seja, o melhor é reconsiderar e ouvir aquele outro lado do cérebro que encoraja decisões racionais.

Burjaili compara o cérebro a uma orquestra com vários músicos, que tocam instrumentos diferentes e acompanham partituras distintas. Devemos regê-la com sabedoria e sensibilidade: “Um bom maestro consegue dirigir esse processo para que a música seja agradável ao final. Redes cerebrais brigando geram dor e infelicidade. A saúde mental depende da nossa capacidade de construir pontes produtivas entre elas para que possam processar informações em conjunto, em paz”.