
Sabia que viver em reclamação constante pode afetar não só quem o faz, mas também quem convive com a pessoa?
Ser uma pessoa que vive vendo o copo meio vazio (ou até mesmo, nem vê o copo) é extremamente danoso não só para a própria saúde mental, mas também para quem convive com ela. A reclamação constante fortalece redes neurais associadas ao pensamento negativo, promovendo a ativação repetitiva de circuitos no cérebro que amplificam emoções como frustração e insatisfação, explica Roselene do Espírito Santo Wagner, PhD em neurociências. “Com o tempo, essa repetição molda o cérebro, tornando-o mais propenso a reagir de forma negativa a situações cotidianas. Esse padrão pode levar a uma hiperatividade do sistema límbico, especialmente da amígdala, aumentando a vulnerabilidade à ansiedade, irritabilidade e, em casos prolongados, à depressão”, completa.
O círculo social
Além de danificar a si mesmo, a convivência com uma pessoa constantemente negativa pode criar um ambiente emocionalmente desgastante, que favorece o surgimento de estresse, ansiedade e sentimentos de frustração para as pessoas à sua volta. “Psicologicamente, isso ocorre porque somos naturalmente influenciados pelas emoções dos outros, um fenômeno conhecido como contágio emocional. Além disso, conviver com negatividade frequente pode ativar padrões psicológicos de autodefesa, como hipervigilância ou evitação, o que prejudica o bem-estar emocional e, a longo prazo, pode resultar em sintomas depressivos ou burnout emocional”, afirma.
A limitação
De acordo com Roselene, conviver com pessoas negativas também pode restringir sua visão de mundo e suas oportunidades. “Psicologicamente, isso acontece porque ambientes marcados por negatividade tendem a influenciar a percepção e a interpretação da realidade, promovendo crenças limitantes. Por exemplo, se você é exposto frequentemente a discursos que enfatizam riscos, fracassos ou dificuldades, sua mente pode começar a adotar essas ideias como verdades absolutas, tornando-se menos aberta a novas possibilidades.”
Sem contar que a negatividade pode gerar um impacto no seu nível de motivação e autoconfiança, elementos essenciais para explorar e aproveitar oportunidades. “Essa convivência pode criar uma espécie de ‘zona de conforto emocional tóxica’, na qual as pessoas ficam paralisadas pelo medo de tentar algo novo ou de se afastar da influência negativa.”
Como identificar que o comportamento negativo de alguém está começando a impactar seu bem-estar
Os sinais podem ser sutis no início, mas se tornam mais evidentes com o tempo. “Você pode perceber que se sente mais irritado ou emocionalmente sobrecarregado após interagir com a pessoa. Talvez comece a evitar certos encontros ou até mesmo sinta um peso emocional constante, como se estivesse carregando algo que não é seu. Sua mente pode ficar mais agitada, com pensamentos pessimistas surgindo com frequência, mesmo quando a situação não é tão negativa. É comum também notar mudanças no comportamento: você pode se isolar, ficar mais distante de pessoas que trazem
leveza ou até perder o prazer em atividades que antes eram revigorantes”, exemplifica.
Fisicamente, o impacto é real e podem aparecer, mostrando que seu corpo está absorvendo o estresse da relação, como:
- Dores de cabeça;
- Cansaço;
- Dificuldade para dormir.
“Esses sinais são como pequenos alertas de que algo precisa mudar, porque sua energia emocional está sendo drenada.”
A negatividade também golpeia o corpo
Roselene destaca que reclamar ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), levando à liberação excessiva de cortisol, o hormônio do estresse. Isso pode se manifestar no corpo por:
- Dores musculares (decorrentes de tensão persistente);
- Fadiga crônica e sensação de esgotamento;
- Distúrbios digestivos, como náuseas, refluxo ou dor abdominal;
- Dificuldades de sono, incluindo insônia ou sono fragmentado;
- Sistema imunológico enfraquecido, o que pode resultar em maior suscetibilidade a infecções.
Como se proteger da negatividade?
Proteger-se de pessoas negativas sem perder a empatia é um desafio, mas não é impossível, afirma Roselene. “O primeiro passo é reconhecer que você não precisa carregar as emoções dos outros. Estabeleça um limite interno, algo que separa o que é seu do que pertence à pessoa. Quando a negatividade vier, em vez de absorvê-la, tente observar com curiosidade: ‘O que isso diz sobre a experiência dela?’. Esse distanciamento saudável ajuda a manter sua empatia sem que ela se transforme em sobrecarga emocional.”
Além disso, a especialista recomenda que você seja claro na sua comunicação. “Não precisa ser rude, mas seja assertivo. Algo como: ‘Eu entendo que isso é difícil para você, mas agora preciso focar em algo que me faça bem’, pode funcionar. Isso não só preserva sua energia como também dá um exemplo de autocuidado para a outra pessoa.”
Outra estratégia poderosa é investir em atividades que te nutram emocionalmente, como passar tempo com amigos que te inspirem, praticar exercícios ou até mesmo fazer algo simples que te conecte ao momento presente, como ouvir uma música ou caminhar ao ar livre. “Também é importante lembrar que a negatividade do outro muitas vezes não é sobre você, mas sobre as dificuldades internas que a pessoa está enfrentando. Quando você consegue enxergar isso, fica mais fácil não levar tudo para o lado pessoal. Por fim, valorize os relacionamentos que te fortalecem. Estar cercado de pessoas positivas cria uma espécie de ‘escudo emocional’, ajudando você a lidar melhor com as influências negativas sem se
desconectar da sua humanidade”, finaliza Roselene.