Atividade física é aliada contra o câncer

Manter uma rotina saudável e ativa durante o tratamento é imprescindível na luta contra a doença

Um diagnóstico de câncer nunca é fácil. Apenas no Brasil, ele é responsável pela morte de cerca de 798 pessoas por dia, segundo dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A tendência para os próximos anos exige atenção redobrada, já que projeções do INCA e do Observatório de Oncologia indicam que, entre 2029 e 2030, a enfermidade deve assumir o posto de principal causa de morte no país, com os maiores índices de mortalidade concentrados nos tumores de pulmão, cólon, mama e próstata.

Entretanto, apesar do peso desses indicadores, o diagnóstico está longe de ser uma sentença definitiva. A ciência reforça que a prevenção e o engajamento do paciente são ferramentas poderosas: estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que mudanças estruturais no estilo de vida poderiam evitar 40% dos casos. Além disso, na maioria dos tumores, a descoberta precoce eleva as taxas de cura para mais de 90%. Mas há outro grande aliado nessa luta.

O poder da atividade física contra o câncer

“Atualmente, profissionais reconhecem o exercício físico como uma intervenção terapêutica de suporte ao tratamento oncológico. Além de melhorar a qualidade de vida, reduzir sintomas e ajudar no controle de efeitos colaterais, há agora evidências de que programas estruturados de atividade física podem influenciar diretamente o prognóstico de alguns tipos de câncer”, explica Danielle Amaro, médica oncologista e cofundadora do canal Longidade.

Ela esclarece que os benefícios comprovados incluem redução da fadiga relacionada ao câncer, melhora da força muscular, do condicionamento físico, do equilíbrio, do sono e da saúde mental. “O exercício também ajuda no controle da ansiedade e da depressão, sintomas muito comuns durante o tratamento. Há também influência no controle de recidivas, ou seja, do retorno do câncer.”

Exemplo prático!

A influencer e publicitária Nathalia Raquel é adepta do crossfit desde 2018 e sempre teve uma forte relação com a atividade física. “Às vezes eu fazia mais de um treino por dia: crossfit, yoga ou corrida. Treinava de domingo a domingo e, ao longo de toda a minha gestação, adaptei meus treinos e segui, inclusive após o puerpério”, descreve.

Foi então que, um dia, ao notar um pequeno nódulo, ela enfrentou uma via-sacra de exames médicos até que os médicos finalmente diagnosticaram um tipo raro de linfoma não-Hodgkin, um câncer no sangue. “Foi um choque, porque minha vida estava perfeita. Meu filho estava bem, eu tinha feito as pazes com meu corpo, treinava duas vezes por dia e, de repente, tudo mudou. O primeiro ciclo de quimioterapia me fez muito mal: passei nove dias constipada e muitas vezes fiquei sem conseguir levantar da cama. Mas, quando eu tinha energia, eu treinava. Quando os efeitos colaterais dos remédios passavam, eu tentava manter uma rotina, nem que fosse dez minutos na esteira da academia do prédio. E isso fazia toda a diferença na minha saúde”, afirma.

A ciência explica

Antigamente, após um diagnóstico, a recomendação médica era de repouso. “A orientação vinha do receio de que o esforço físico pudesse piorar o quadro clínico. Com o avanço da ciência, ficou claro que o repouso prolongado causa mais prejuízos do que benefícios, levando à perda de massa muscular, piora da fadiga, redução da autonomia e maior risco de complicações”, contextualiza a médica Danielle Amaro.

Ela cita as principais conclusões do CHALLENGE trial, publicado em 2025, um grande estudo clínico internacional que avaliou pacientes com câncer de cólon em estágios II de alto risco e III — ou seja, aqueles que passaram por cirurgia com intenção curativa e receberam quimioterapia adjuvante. “Nesse estudo, os pesquisadores randomizaram os pacientes em dois grupos. Um participou de um programa estruturado de exercício físico supervisionado profissionalmente, com metas semanais de atividade e apoio contínuo por cerca de três anos. E o outro recebeu apenas materiais de educação sobre saúde e atividade física, sem acompanhamento formal.”

  • Após cinco anos, 80,3% dos pacientes que seguiram o programa de exercício estavam livres de recidiva da doença, comparados com 73,9% no grupo que recebeu apenas orientações gerais — mostrando um benefício claro no controle da doença.
  • Após oito anos, a sobrevida global foi de cerca de 90% no grupo de exercício, em contraste com 83% no grupo controle — ou seja, os participantes do programa de atividade física tiveram um risco de morte reduzido em cerca de 30–37%.

Dificuldade

Um dos grandes desafios durante o tratamento é justamente a fadiga extrema, mas Danielle explica que é nesse ponto que o treino atua, desde que respeite os limites do paciente. “A fadiga relacionada ao câncer é diferente do cansaço comum: ela não melhora apenas com repouso e pode persistir por meses ou anos. Hoje, o exercício físico é considerado uma das intervenções mais eficazes para reduzir esse tipo de fadiga, com nível de evidência comparável, ou superior, ao de muitas abordagens farmacológicas.”

O exercício deve ser iniciado o mais cedo possível, inclusive antes do início do tratamento, mantido durante e continuado após o seu término. “O importante é que ele seja adaptado à condição clínica do paciente em cada fase, com ajustes individualizados. Durante tratamentos mais intensos, como quimioterapia, o exercício pode ser feito com menor intensidade e duração, respeitando os dias de maior cansaço. Já pacientes em remissão ou após o término do tratamento podem progredir gradualmente”, explica.

Existem situações em que o exercício pode precisar ser temporariamente suspenso ou ajustado, como em casos de infecções ativas, anemia grave, plaquetas muito baixas, dor importante ou instabilidade clínica. “Por exemplo, nos casos de metástases ósseas de alto risco, a atividade física precisa ser supervisionada por profissional habilitado.”

Protocolo de treino para pacientes com câncer

A combinação de exercícios aeróbicos (como caminhada ou bicicleta) e exercícios de força é a mais recomendada para pacientes com câncer, orienta Danielle. “O treino de resistência ajuda a preservar massa muscular e funcionalidade, enquanto o aeróbico melhora a capacidade cardiovascular e reduz a fadiga. Exercícios de flexibilidade e equilíbrio também são importantes, especialmente em pacientes mais idosos.”

Fatores como o tipo de câncer, estágio da doença, efeitos colaterais, idade e presença de outras enfermidades devem orientar cada adaptação. “O ponto central é quebrar o ciclo de ‘fadiga → inatividade → mais fadiga’. O exercício não precisa ser intenso; ele precisa ser regular, individualizado e progressivo”, acrescenta.

Cuidados essenciais incluem avaliação médica prévia, acompanhamento profissional sempre que possível, ajuste da intensidade conforme os efeitos do tratamento e atenção a sinais como tontura, dor, falta de ar excessiva ou sangramentos. “Hidratação adequada, alimentação balanceada e ambientes seguros também são fundamentais para garantir uma prática segura.”

Final feliz na luta contra o câncer!

Para Nathalia, a batalha contra o câncer raro durou alguns anos, mas em janeiro de 2026 veio a vitória: seu último ciclo de quimioterapia terminou e ela é considerada uma paciente em remissão. “Não foi nada fácil. Eu precisei mudar toda a minha alimentação durante o tratamento, perdi quase dez quilos, treinei de máscara, só treinava nos horários vazios, meu personal precisava verificar meus exames, mas falo com certeza que me ajudou muito”, descreve. Agora curada, ela segue treinando.

Como parte de seu tratamento, além de manter os exercícios, ela investiu também na suplementação de proteínas, inclusive com creatina e whey, sempre acompanhada por sua equipe médica. “Quando eu treinava, a fadiga não sumia, mas melhorava bastante. Então, quando eu tinha forças para treinar, eu já sabia que aquele era um bom dia, que o sofrimento estava próximo do fim. E, à medida que seguia treinando, recuperei parte da massa muscular que perdi, o que também me ajudou.”

Para concluir, Nathalia deixa conselhos para outros pacientes: “Comece em um ambiente em que se sinta seguro, de preferência com uma atividade que você já goste, e mantenha o acompanhamento com médicos e personal. Mas, principalmente: entenda e não esqueça dos seus limites.”


Ana Carvalho

Repórter de revista e portal na Editora Alto Astral. Bacharela em jornalismo e pós-graduada em Comunicação e Mídia pela Universidade...