Por que as canetas emagrecedoras emagrecem?

Entenda como os medicamentos atuam no cérebro, no sistema digestivo e no metabolismo para favorecer a perda de peso

As canetas emagrecedoras se tornaram populares nos últimos tempos por serem grandes aliadas no emagrecimento. Mas, afinal, por que elas conseguem promover uma perda de peso tão significativa? A resposta está longe de ser apenas “comer menos”. Segundo Beatriz Atihé Rossi, endocrinologista do Hospital Samaritano, essas medicações (agonistas de GLP-1 e agonistas duais GLP-1/GIP) atuam em vias chamadas incretinas que regulam fome, saciedade e controle glicêmico.

“Em suma, são medicamentos que não só alteram a quantidade de alimento consumido, mas também melhoram o controle alimentar, o comportamento disfuncional em relação à comida e geram muitos benefícios para o sistema metabólico”, explica.

A redução do apetite

Basicamente, essas medicações imitam o que já ocorre de forma natural no organismo. “A comunicação entre o sistema nervoso central – que regula apetite e saciedade – com as áreas periféricas, ocorre por meio das incretinas mencionadas acima, que são substâncias produzidas no intestino de forma a sinalizarem quando há passagem de alimentos, o que indica saciedade para o cérebro”, exemplifica. “Porém, em pacientes com sobrepeso e obesidade, essa comunicação é complexa, por ter sido alterada para ter uma curta duração, o que dificulta a perda de peso”, completa.

Já no trato gastrintestinal, o uso dessas medicações reduz a motilidade, de modo que a digestão dos alimentos fica mais lenta. “Assim, indica para o nosso cérebro que ainda há presença de comida, e que, portanto, não haveria necessidade de enviar o sinal de fome.”

Além disso, eles também atuam diretamente no sistema nervoso central, mais especificamente no hipotálamo, de forma a regular o apetite, reduzir a fome e a vontade de comer e, consequentemente, a quantidade de comida e de calorias ingeridas.

Muito além da fome

De acordo com Beatriz, as novas medicações têm mostrado benefícios além da redução da forma. Elas têm o potencial de:

– Controlar a glicemia

As canetas liberam insulina dependente de glicose, reduzem a liberação do glucagon, melhoram a sensibilidade à insulina e consequentemente melhoram a captação de glicose pelos  músculos e tecido adiposo.

– Propiciam o tamponamento lipídico

Conseguem aumentar a capacidade de armazenamento de gordura no tecido adiposo, principalmente do subcutâneo. Isso reduz a disponibilidade de gorduras livres circulantes e diminui a estocagem de gordura visceral.

– Mudança no ponto de equilíbrio de peso

Há uma modificação do “set point” hipotalâmico que ajusta os parâmetros para um peso mais baixo, dessa forma, o corpo passa a  “defender” um peso menor e, assim, há menos chance de reganho de peso após o tratamento.

– Modulação de vias de recompensa alimentar

Diminui a tendência a comportamentos compulsivos e impulsivos, “food noise” e preferência por alimentos muito palatáveis e ricos em gordura. 

Cuidado com os músculos

Roberta Frota, endocrinologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, afirma que por mais que o emagrecimento seja ideal durante o tratamento, sabe-se que quando ocorre uma redução muito grande de peso há também o risco de perder músculos. “O grande aliado para evitar isso é contar com acompanhamento médico, especialmente de um nutricionista. Além de praticar exercícios de força associado a uma ingestão adequada de proteínas”, afirma.

Beatriz acrescenta que pacientes com sobrepeso e obesidade apresentam depósito de gordura ectópica, como a gordura no fígado, mas essa gordura disfuncional pode se depositar em outros órgãos e nos músculos, o que é chamado de mioesteatose. “Por isso é preciso de um acompanhamento profissional, porque métodos de avaliação convencionais, como a bioimpedância e a avaliação de composição corporal por DEXA, não conseguem fazer essa análise.”

De todo modo, ambas as profissionais reforçam a importância de incluir uma alimentação saudável e exercícios físicos na rotina, sempre acompanhados de especialistas para alcançar melhores resultados. “O objetivo do tratamento é justamente modificarmos os hábitos de vida trazendo mais saúde e qualidade de vida”, destaca Beatriz.

Por que outras pessoas emagrecem mais do que outras?

A resposta, segundo Beatriz, é altamente variável, por diversos fatores envolvidos:

  • Diferenças biológicas individuais: genética, gênero, idade, hormônios, microbiota,  comorbidades, etc.
  • Padrões alimentares e comportamento: adesão à alimentação de melhor qualidade, manejo de sintomas gastrointestinais, relação com a comida.
  • Nível de atividade física e massa muscular prévia.
  • Dose utilizada e tolerância ao medicamento (alguns só toleram doses menores).
  • Presença ou não de efeitos colaterais e sua intensidade 

Perdeu o efeito

Se você usa as canetas emagrecedoras há um longo tempo e percebeu que ela já não ajuda tanto quanto antes, não se assuste, isso é normal. “Após uma perda de peso significativa o organismo tende a desacelerar o processo, pois ‘entende’ que algo prejudicial está ocorrendo, visto que há um gasto maior do que ingestão. Então geralmente ocorre um platô na perda de peso. Nestes casos, deve-se readequar a dieta, aumentar exercícios e, se estas mudanças não forem suficientes, aumentar a dose da medicação”, explica e conclui Roberta.