Procedimento de descompressão nervosa melhora a sensibilidade e amplia a segurança ao caminhar
O pé diabético é uma das complicações mais frequentes e graves do diabetes e está diretamente relacionado ao descontrole da glicemia ao longo dos anos. A condição ocorre quando o excesso de açúcar no sangue provoca danos progressivos aos nervos e à circulação, especialmente nos pés, comprometendo a sensibilidade e a capacidade de cicatrização.
É comum, com a perda progressiva da sensibilidade, pequenas lesões causadas por calçados inadequados, calos ou feridas passam despercebidas e podem evoluir para infecções graves. Além disso, “o diabetes pode provocar o inchaço dos nervos, que acabam sendo comprimidos em túneis anatômicos rígidos no pé e no tornozelo”, explica Maurício Leite, ortopedista e cirurgião, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).
Sintomas do pé diabético
Segundo o especialista, esse mecanismo pode intensificar sintomas como queimação, dor em choque e formigamento persistente. Além da sensação de “pé pegando fogo”, dormência noturna e dor localizada no tornozelo ou na planta do pé. “Muitas pessoas acreditam que esses sintomas representam apenas a evolução natural da neuropatia diabética. No entanto, em vários casos existe uma compressão nervosa associada, que pode ser diagnosticada e tratada cirurgicamente”, afirma o médico.
O que diz a ciência
Um estudo publicado em 2022 na revista científica PRS Global Open (periódico internacional da área de cirurgia plástica e reconstrutiva), analisou o impacto da descompressão nervosa nos membros inferiores em pacientes com neuropatia periférica diabética. Com o título “Lower Extremity Nerve Decompression for Diabetic Peripheral Neuropathy: A Systematic Review and Meta-analysis”, a pesquisa reuniu dados de 21 estudos, incluindo cinco ensaios clínicos randomizados e 16 estudos observacionais, totalizando 2.169 pacientes.
A análise do estudo apontou redução significativa da dor e melhora da sensibilidade. Assim como a diminuição expressiva do risco de úlceras nos pés e redução relevante nos índices de amputação.
Procedimento cirúrgico
Em alguns casos, a cirurgia de liberação dos nervos é indicada, especialmente quando os sintomas persistem apesar do tratamento clínico, bem com sinais claros de compressão ou histórico de feridas. O procedimento consiste em devolver espaço ao nervo, permitindo sua recuperação funcional. “Não é uma cirurgia estética nem experimental, mas sim baseada em anatomia e evidência científica. Após o tratamento, muitos pacientes relatam redução importante da dor, melhora da sensibilidade e mais segurança para caminhar. Em termos simples, o pé volta a ‘conversar’ com o cérebro, e isso muda tudo”, explica o especialista.
Maurício explica que, nos casos de pé diabético, pode ocorrer o chamado fenômeno “double crush”. Nessa situação um nervo já comprometido pelo diabetes sofre uma segunda agressão provocada por compressões em pontos específicos.
Ainda pouco difundido no Brasil, o procedimento reforça a importância do diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo identificamos compressões associadas, maiores são as chances de preservar a função, a mobilidade e a qualidade de vida do paciente”, conclui o médico.