Imunidade pós-Carnaval: por que o corpo sofre depois da folia? Freepik

Excesso de álcool, noites mal dormidas e alimentação desregulada ajudam a explicar o aumento de resfriados, cansaço e queda de energia nos dias seguintes à festa

Depois de dias intensos entre blocos, desfiles e festas que atravessam a madrugada, muita gente percebe que o organismo dá sinais claros de esgotamento. Cansaço extremo, dor de garganta, nariz entupido, indisposição e dificuldade de concentração estão entre as queixas mais comuns no período pós-Carnaval. A explicação está na soma de fatores que, juntos, enfraquecem o sistema imunológico.

Privação de sono, consumo elevado de álcool, alimentação pobre em nutrientes, exposição prolongada ao sol e contato próximo com grandes aglomerações criam o cenário ideal para a queda da imunidade e a maior circulação de vírus respiratórios.

O farmacêutico-bioquímico Douglas Andrés Valverde, formado pela Universidade de São Paulo, especialista em análises clínicas e toxicologia clínica e CEO da Tech Trials, lembra que imunidade não se resume a evitar gripes. “Imunidade vai muito além de apenas não ficar doente. Quando ela não está bem, a pessoa pode até não apresentar uma doença específica, mas se sente cansada, indisposta, com dores frequentes e mais sensível ao estresse do dia a dia”, explica.

Sono é o maior afetado

Segundo ele, o sono é um dos pilares mais afetados durante a folia. “É durante o sono que o corpo produz substâncias importantes para combater infecções e regular inflamações. Quando o descanso não é adequado, o organismo fica mais vulnerável a vírus, bactérias e até a inflamações crônicas”, afirma. O impacto também atinge memória, humor e capacidade de concentração, criando um ciclo de exaustão que pode se prolongar por dias.

A alimentação desregulada agrava o quadro. A nutricionista Laita Balbio, do Espaço Hi, em São Paulo, destaca que o cardápio típico de Carnaval costuma ser pobre em nutrientes essenciais. “Durante o Carnaval, é comum que as pessoas troquem refeições completas por lanches rápidos, frituras e bebidas alcoólicas. Esse padrão reduz a oferta de vitaminas, minerais e antioxidantes que são fundamentais para o bom funcionamento do sistema imunológico”, afirma.

Alimentação desregulada e seus efeitos na imunidade

Ela acrescenta que o álcool contribui para um ambiente inflamatório no corpo. “O álcool aumenta processos inflamatórios, prejudica a absorção de nutrientes e pode alterar a microbiota intestinal, que é uma das grandes responsáveis pela nossa imunidade”, completa.

Douglas Valverde reforça que a sensação de energia baixa não depende apenas da comida. “A energia não depende só da alimentação. Estresse crônico, sono ruim, excesso de estímulos, ansiedade e até questões hormonais interferem na forma como o corpo produz energia. O intestino e a saúde emocional também influenciam muito esse processo”, explica.

Em meio aos sintomas respiratórios, é importante saber diferenciar os quadros. A otorrinolaringologista Renata Mori esclarece que o resfriado comum costuma ser leve e autolimitado. “O resfriado é uma condição autolimitada, que melhora espontaneamente em cinco a sete dias, apenas com medidas de suporte como hidratação, repouso e cuidados locais com o nariz”, explica. Ela faz um alerta: “Secreção amarela não é sinônimo de infecção bacteriana e, muito menos, indicação automática de antibiótico”.

Quando os sintomas persistem por mais de dez dias ou pioram de forma repentina, com dor facial e congestão intensa, pode haver evolução para uma rinossinusite bacteriana, situação que exige avaliação médica.

Álcool e cigarro

Os excessos também acendem outro sinal de alerta. A cirurgiã de cabeça e pescoço Débora Vianna lembra que álcool e cigarro têm impacto direto na saúde. “O álcool facilita a penetração das substâncias cancerígenas do tabaco nas células, o que torna essa combinação especialmente perigosa”, afirma. Segundo ela, não há limite totalmente seguro. “Quanto maior o tempo de exposição, maior a chance de desenvolver a doença, mas não existe um limite considerado seguro para esses hábitos.”

A recuperação começa com ajustes simples. A nutricionista Mariana Rubio, do Doctor Puro, orienta que o período pós-folia deve ser encarado como uma fase de reorganização do organismo. “Depois de um período de excessos, o ideal é investir em alimentos naturais, ricos em vitamina C, zinco, ferro e antioxidantes, como frutas cítricas, vegetais verde-escuros, leguminosas e sementes. A hidratação também é essencial para ajudar o organismo a se recuperar”, recomenda.

Ela também sugere atenção especial ao intestino. “Iogurtes naturais, kefir e fibras ajudam a recompor a microbiota, fortalecendo a imunidade de dentro para fora”, explica.

Douglas Valverde destaca que não é preciso recorrer a soluções radicais. “Priorizar refeições regulares, incluir mais frutas, verduras e legumes, reduzir ultraprocessados e aumentar a ingestão de água são passos fundamentais. Não é preciso dieta radical. Comer melhor de forma consistente ajuda o corpo a recuperar energia, melhora o funcionamento do intestino e fortalece a imunidade de forma natural”, orienta.

Retomar o sono, reduzir o consumo de álcool e voltar gradualmente à prática de atividade física completam o processo. Como resume o especialista, cuidar da imunidade é um trabalho contínuo. Depois da euforia da festa, é o equilíbrio da rotina que devolve ao corpo a energia necessária para encarar o ano.