Obesidade cresce 118% no Brasil e já atinge 25,7% dos adultos Obesidade cresce 118% no Brasil e já atinge 25,7% dos adultos

Endocrinologista explica por que obesidade é doença crônica e explica o fenômeno do “food noise”, ruído mental relacionado à comida, e defende que tratar obesidade é tratar cérebro, metabolismo e saúde emocional

No Dia Mundial da Obesidade, 4 de março, os dados mais recentes do Vigitel (Sistema de Vigilância do Ministério da Saúde) que monitora fatores de risco para doenças crônicas mostram que a prevalência da obesidade entre adultos nas capitais brasileiras e no Distrito Federal aumentou 118% entre 2006 e 2024, passando de 11,8% para 25,7% da população.

Esse crescimento, por sua vez, ocorre de forma contínua e acelerada nas últimas duas décadas, atingindo homens e mulheres em todas as faixas etárias. A meta do Plano de Enfrentamento das Doenças Crônicas (DANT), que previa manter a obesidade em até 20,3% até 2030, já foi ultrapassada desde 2020.

Devemos encarar a obesidade com a seriedade que a doença precisa

Em primeiro lugar, para Tassiane Alvarenga, Endocrinologista e Metabologista da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), os números reforçam que a condição precisa ser encarada definitivamente como doença crônica. “A obesidade é uma doença cardiometabólica complexa. Não estamos falando apenas de peso na balança, mas de risco cardiovascular, evolução para diabetes, síndrome metabólica e impacto direto na saúde mental”, afirma.

Segundo a especialista, um dos aspectos menos discutidos sobre obesidade é o chamado food noise, termo que descreve pensamentos persistentes e intrusivos sobre comida, o que tornar um desafio a mais na luta por adotar hábitos alimentares saudáveis.

“Food noise é um sintoma da obesidade. Muitos pacientes relatam que pensam em comida o tempo todo, mesmo sem fome. Isso interfere no trabalho, no sono, no humor e na autoestima. Quando o tratamento funciona, a primeira mudança muitas vezes acontece na mente, antes mesmo da perda de peso”, explica.

A médica destaca que a obesidade também está associada a ansiedade, depressão e distúrbios do sono, formando um ciclo que dificulta o tratamento quando não há abordagem adequada.

A vergonha pesa

Outro ponto relevante é o estigma. Estudos indicam que pacientes podem levar até seis anos para conseguir falar abertamente sobre o peso em consulta médica: “O estigma atrasa diagnóstico e tratamento. Precisamos falar em ‘pessoas com obesidade’ e não em ‘obesos’. A linguagem importa e influencia diretamente o cuidado”, ressalta.

A endocrinologista reforça que a doença permanece subdiagnosticada e subtratada, inclusive com baixa utilização de terapias farmacológicas adequadas, apesar do avanço das evidências científicas.

“No Dia Mundial da Obesidade, o mais importante é entender que estamos diante de uma doença crônica, que exige acompanhamento contínuo. Assim como hipertensão ou diabetes, não é uma condição que simplesmente desaparece. É possível controlar, mas é preciso tratar.”