Enxaqueca exige atenção redobrada das mulheres

Oscilações hormonais, uso de anticoncepcionais combinados e tabagismo podem aumentar a intensidade das crises e elevar o risco de AVC

A enxaqueca não é uma condição exclusiva das mulheres, mas são elas as mais debilitadas pela doença, apresentando crises de dor de cabeça e outros sintomas associados mais severos, duradouros e frequentes. 

Por que a enxaqueca debilita mais as mulheres?

Essa maior vulnerabilidade está relacionada, principalmente, às variações hormonais. O estrogênio, hormônio presente em maior quantidade no organismo feminino, exerce influência direta sobre os mecanismos cerebrais envolvidos na dor. Oscilações nos níveis de estrogênio,como as que ocorrem ao longo do ciclo menstrual, podem atuar como gatilhos ou intensificadores para as crises  nessas mulheres.

A explicação é da médica neurologista Thaís Villa, que há mais de 20 anos dedica a carreira a cuidar de pacientes com enxaqueca – a grande maioria mulheres. “Essa não é uma doença exclusiva em mulheres, mas são elas que, por apresentarem quadros mais severos de dor de cabeça, acabam procurando mais por atendimento especializado e, consequentemente, são mais diagnosticadas com a enxaqueca”, esclarece a médica. 

m estado de hiperexcitabilidade cerebral caracteriza a enxaqueca. Durante as crises, o cérebro reage de forma exacerbada a estímulos internos e externos, o que desencadeia dor e uma série de sintomas associados. A causa é hereditária, ou seja, a pessoa já nasce com predisposição para doença. Fatores ambientais e hormonais atuam como gatilhos ao longo da vida.

As crises durante a vida

Entre as mulheres, as crises tendem a ser mais intensas e incapacitantes, particularmente da adolescência até cerca dos 50 anos, período marcado por maior atividade hormonal. Nessa fase, os níveis e as oscilações do estrogênio são mais pronunciados, o que contribui para o aumento da frequência e da gravidade das crises.

Esse período de crises mais intensas coincide justamente com a idade fértil da mulher, fase em que muitas recorrem à pílula anticoncepcional como método contraceptivo. A maioria utiliza formulações combinadas, com estrogênio e progesterona. Segundo Thais Villa, com base em estudos recentes, essa associação pode representar “uma verdadeira bomba”, elevando em até 15 vezes o risco de AVC.

Fatores que agravam a enxaqueca

O cenário se torna ainda mais preocupante quando há a combinação de fatores enxaqueca com aura (caracterizada, entre outros sintomas, por alterações visuais), uso de anticoncepcional com hormônios combinados e tabagismo. Nesses casos, o risco de acidente vascular cerebral pode ser até 30 vezes maior.

Se os números impressionam, a boa notícia para quem convive com a enxaqueca é a possibilidade de controlar as crises e reduzir de forma significativa as dores de cabeça, um dos principais sintomas, entre muitos outros que acompanham a doença.

Tratamento

O tratamento mais eficaz é o integrado e individualizado, conduzido por uma equipe multidisciplinar que considera todas as variáveis envolvidas em uma condição tão complexa. Neurologista,  psicólogo, nutricionista e outros profissionais podem atuar de forma complementar, avaliando fatores hormonais, emocionais, alimentares e comportamentais. Com acompanhamento adequado e estratégias personalizadas, é possível melhorar a qualidade de vida e devolver autonomia à paciente.

“Existe tratamento eficaz para a enxaqueca e ele precisa enxergar o paciente como um ser único. Isso significa combinar tratamentos de última geração com estratégias não medicamentosas, capazes de prevenir e reduzir a frequência das crises. O cuidado deve ser individualizado e contínuo”, explica Thais Villa.

Segundo a especialista, além do acompanhamento com neurologista, a equipe médica deve orientar a mulher sobre o método contraceptivo mais seguro. O que evita o agravamento das crises ou outras complicações associadas.

Villa destaca ainda que o uso frequente de medicamentos por conta própria e o consumo excessivo de cafeína, embora possam proporcionar alívio momentâneo, são práticas que não tratam a doença e podem perpetuar o ciclo da dor, favorecendo a cronificação da enxaqueca.

“Com diagnóstico adequado, acompanhamento especializado e mudanças no estilo de vida, é possível reduzir a frequência e a intensidade das crises, devolvendo qualidade de vida e autonomia às pacientes”, finaliza a especialista.