Como o trabalho molda o consumo de ultraprocessados Como o trabalho molda o consumo de ultraprocessados

A rotina acelerada, a pressão por resultados e a falta de tempo têm transformado a alimentação em um dos pontos mais frágeis da saúde dos trabalhadores brasileiros. Cada vez mais, especialistas apontam que o ambiente profissional está diretamente ligado ao aumento de distúrbios alimentares. Assim como ao consumo de ultraprocessados e ao avanço de doenças como diabetes, hipertensão e câncer.

O tema vem ganhando espaço dentro das empresas e da agenda de recursos humanos, à medida que cresce a percepção de que alimentação, saúde mental e produtividade estão diretamente conectadas. Esse movimento foi um dos destaques do CONARH Saúde, iniciativa da ABRH Brasil (Associação Brasileira de Recursos Humanos), que reúne especialistas e executivos para discutir os impactos da vida moderna no ambiente corporativo.

“O que a gente observa hoje é que as pessoas estão comendo calorias suficientes, mas não nutrientes”, afirmou o médico psiquiatra e nutrólogo Frederico Porto. Segundo ele, esse padrão tem levado ao consumo de alimentos com baixo valor nutricional, muitas vezes chamados de “alimentos vazios”.

A correria da rotina aumenta o consumo de ultraprocessados

Na prática, jornadas extensas e falta de tempo empurram trabalhadores para produtos ultraprocessados, ricos em gordura, açúcar e sódio, mas pobres em nutrientes essenciais. O impacto já aparece nos indicadores de saúde, com aumento de doenças metabólicas, obesidade e também de deficiências nutricionais, especialmente entre mulheres. “A alimentação inadequada está diretamente ligada ao aumento de doenças crônicas e à piora da saúde mental”, destacou Porto.

Aumento do estresse

Durante os debates, especialistas apontaram que o comportamento alimentar também se afeta pelo estresse, levando ao consumo desordenado e à desorganização das refeições. Essa discussão reforça uma mudança de paradigma. A alimentação deixa de ser uma escolha individual isolada e passa a ser entendida como resultado de um contexto mais amplo. No qual a cultura organizacional precisa estar preparada para promover saúde de forma integrada.

“A saúde não pode mais ser tratada de forma fragmentada. É preciso uma visão holística, que considere o indivíduo como um todo — físico, mental e social”, afirmou Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-Estar da ABRH Brasil.

Outro ponto levantado foi a falsa percepção de alimentação saudável. Dietas restritivas e modismos nutricionais também contribuem para desequilíbrios. “A gente continua separando corpo e mente, mas isso não existe”, afirmou Porto. “Prevenção não é exame — é mudança de hábito”.

Especialistas defendem que empresas avancem para criar ambientes que favoreçam escolhas saudáveis, com acesso a alimentação adequada e educação nutricional. A tendência é que o tema ganhe ainda mais relevância, à medida que organizações passam a entender que a alimentação impacta diretamente saúde, bem-estar e desempenho.Parte superior do formulário