attention deficit hyperactivity disorder design illustration
Em uma pesquisa publicada em 2018 na Annals of Neurology, 10 pacientes em estágios terminais foram monitorados por diversos eletrodos para observar a atividade neurológica. Em oito deles, observou-se movimentos das células cerebrais que tentavam impedir a morte. Mas o que de fato acontece com o cérebro nos momentos finais da vida?
Muita coisa acontece no cérebro…
Lívia Ciacci, mestre em neurociências e parceira do SUPERA – Ginástica para o Cérebro, aponta que o cérebro, nos momentos finais da vida, passa por várias mudanças em sua atividade. “Os neurônios funcionam com íons carregados, o que cria um potencial elétrico entre eles e seu ambiente (como uma pilha). Isso permite que pequenos impulsos, ou sinais, sejam criados.”
A especialista diz que os cientistas deste estudo mencionado acima viram que a manutenção deste sistema foi ficando cada vez mais difícil. “Quando o corpo morre e o fluxo de sangue para, os neurônios – sem oxigênio – tentam acumular os recursos que sobraram. Portanto, os neurônios se ‘calam’ e, em vez de enviar sinais, usam suas reservas de energia para manter cargas elétricas internas, esperando o retorno de um fluxo de sangue. Chamamos esse fenômeno de ‘depressão não dispersa’, pois ocorre em todo o cérebro”.
“O que vem em seguida é a fase da ‘despolarização da difusão’, conhecida como ‘tsunami cerebral’. Ocorre uma grande liberação de energia térmica, porque o equilíbrio eletroquímico que mantinha as células vivas entram em colapso. Esse ‘tsunami’ leva à intoxicação e destruição das células. Essas reações foram observadas pelos cientistas, e à medida que o oxigênio não chegava, a atividade elétrica também era silenciada”, explica.
Vários neurotransmissores
Durante o processo de morte cerebral, Lívia destaca que diversos neurotransmissores são liberados, pois é refletida a resposta do cérebro ao estresse extremo e déficit de oxigenação. Os principais neurotransmissores envolvidos são:
- Glutamato (neurotransmissor excitatório)
Ele é liberado durante a falta de oxigênio e, como o metabolismo está comprometido, ele é liberado em quantidade excessiva, o que leva a uma superestimulação resultando em danos neuronais.
- GABA (neurotransmissor inibitório)
Liberado em resposta compensatória à superexcitação tóxica do excesso de Glutamato, mas é insuficiente para proteger os neurônios.
- Dopamina
Durante a morte cerebral, há uma liberação massiva de dopamina, neurotransmissor associado ao sistema de prazer e recompensa, em níveis muito elevados, contribuindo também para o dano neural.
- Serotonina
Também há liberação de serotonina, envolvida diretamente na regulação do humor, em resposta ao estresse extremo, podendo influenciar as experiências da consciência durante os momentos finais de uma pessoa.
- Noradrenalina
Observa-se a liberação aumentada de noradrenalina, associada ao estresse e aumento da vigilância, contribuindo para a resposta de luta ou fuga.
- Acetilcolina
Também há liberação de acetilcolina, envolvida nas funções cognitivas e motoras, sendo liberada descontroladamente, influenciando na função neurológica residual.
“Esses neurotransmissores e suas mudanças nos níveis refletem uma resposta complexa do cérebro ao estresse terminal e ao colapso dos sistemas de manutenção de homeostase, o que ainda ocasiona estudo até o presente momento”, destaca.
Morte cerebral
Sabe quando dizem que uma pessoa teve morte cerebral, mas não entende de fato o que é isso? “A morte cerebral se caracteriza por perda completa e irreversível de todas as funções cerebrais, incluindo do tronco cerebral. O sinal mais característico é um EEG isoelétrico, também chamado de EEG plano. Significa que não há atividade elétrica detectável no cérebro, indicando completa ausência de ondas cerebrais, e é um critério usado para diagnosticar morte cerebral”, explica Lívia.
A especialista ainda pontua que, antes de atingir esse estado, pode apresentar-se no EEG uma atividade de baixa amplitude, onde as ondas acabam reduzidas em intensidade, sendo muito fracas e incompatíveis com a função cerebral normal. “Nos estágios iniciais de morte cerebral, pode se observar uma desorganização progressiva das ondas cerebrais. As ondas alfa, beta, delta e teta se tornam quase indiscerníveis e a atividade geral se torna caótica antes de desaparecer totalmente. Um cérebro morto não é capaz de reagir a estímulos externos, como luzes, sons, estímulos motores e externos. Essa ausência de reatividade indica que não há funcionamento cerebral em nenhuma parte do cérebro.” (BOX)
Quais áreas do cérebro são as últimas a cessarem a atividade antes da morte completa?
Antes da morte completa, em contextos de falência orgânica terminal, Lívia diz que algumas áreas do cérebro podem continuar a exibir atividade, e outras cessam antes. Veja quais são as áreas que exibem atividade até a morte completa:
- Tronco cerebral
Essencial para funções vitais como batimentos cardíacos, respiração e controle da pressão arterial, pode permanecer ativo por um período após a cessação da atividade cortical, é o que estudos recentes indicam.
- Hipotálamo
Desempenha um papel crucial na regulação do SNA, temperatura corporal, fome e sede.
- Sistema límbico
Responsável pelas emoções e memórias também pode manter sua atividade até o fim.
“Quando a morte se aproxima, ocorre uma falência progressiva global dos sistemas neurológicos e orgânicos, a atividade cerebral se deteriora gradualmente devido a hipóxia e a falta de perfusão sanguínea. E, aí sim, finalmente leva à cessação completa da atividade neuronal.”
Há evidências de consciência ou atividade mental residual após a morte?
Existem muitos estudos acerca deste tema, e ainda é muito intrigante. Vemos histórias de muitas pessoas reanimadas após parada cardíaca e relataram experiências de quase morte que incluem ver túnel, sensação de paz, visões de luz, encontro com entes queridos já falecidos e até mesmo revisão da própria vida.
“Esses relatos são muito estudados e ainda não são totalmente compreendidos. Existiu um estudo chamado AWARE (sigla inglesa para ‘consciência durante ressuscitação’) que investigou a consciência durante a parada cardíaca em 25 hospitais. Os resultados mostraram que alguns pacientes relataram memórias e consciência, podendo continuar por um curto período após a cessação do fluxo sanguíneo cerebral. A interrupção do fluxo sanguíneo, que causa a hipóxia, leva rapidamente a perda de consciência.
No entanto, a reanimação bem sucedida pode restaurar a circulação e atividade cerebral. E, em alguns casos, permite que os pacientes relatem experiências conscientes ocorridas durante o período da parada cardíaca. Embora existam relatos e algumas evidências que sugiram a possibilidade de consciência ou atividade mental, a compreensão total desses fenômenos ainda está em desenvolvimento, e é um estudo contínuo para discernir se essas experiências são fruto de processos cerebrais residuais, estados alterados de consciência ou outros fatores não identificados”, finaliza Lívia.