Cardiologistas explicam por que eventos cardiovasculares também podem atingir pessoas antes dos 40 anos
A morte da modelo Giane Alves, aos 32 anos, após sofrer um infarto agudo do miocárdio, chama atenção para uma doença que ainda costuma ser associada principalmente a pessoas mais velhas. Giane passou mal na sexta-feira (2/10), em Condeúba, na Bahia, enquanto acompanhava o filho mais novo, de apenas 45 dias, em uma consulta de rotina. Casada, ela deixa dois filhos.
Antes de construir uma carreira internacional na moda, Giane trabalhava em um posto de gasolina em São Paulo, onde chamou a atenção de um olheiro e recebeu os primeiros convites para entrar no mercado. Aos 21 anos, começou a trabalhar para marcas internacionais e, ao longo da trajetória, foi representada por agências em cidades como Milão, Barcelona, Hamburgo, Oslo e Tóquio. Em 2016, foi capa da L’Officiel Brasil e participou de um editorial da Vogue Itália.

Mulheres jovens podem sofrer infarto?
Nos últimos anos, a modelo havia deixado a rotina internacional e retornado ao interior da Bahia para viver com o marido e os filhos. A pouca idade diante de um infarto levanta uma questão que ainda surpreende muita gente: afinal, uma mulher jovem também pode sofrer um evento cardiovascular grave?
“Existe uma percepção de que o infarto é uma doença exclusiva de pessoas mais velhas, mas a idade, isoladamente, não elimina essa possibilidade. Em pacientes jovens, precisamos avaliar histórico familiar, pressão arterial, colesterol, diabetes e outros fatores, além de considerar mecanismos de infarto diferentes daqueles tradicionalmente relacionados à formação de placas nas coronárias”, explica a cardiologista Bárbara Fagundes, especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e ecocardiografista pelo Departamento de Imagem Cardiovascular.
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Nem todo infarto acontece da mesma maneira
O mecanismo mais conhecido do infarto envolve uma obstrução das artérias coronárias, frequentemente associada à formação e ruptura de placas de aterosclerose. Em pacientes jovens, no entanto, a investigação pode precisar considerar outras condições capazes de interromper ou reduzir o fluxo sanguíneo para o coração.
Uma delas é a dissecção espontânea da artéria coronária, conhecida como SCAD. Nessa condição, ocorre uma alteração na parede da artéria que pode comprometer a circulação e levar a um infarto. A condição chama atenção porque é observada principalmente em mulheres e pode atingir pessoas que não apresentam o perfil clássico de risco cardiovascular.
A cardiologista Thaís Pinheiro Lima ressalta que não é possível associar essa ou qualquer outra condição específica ao caso da modelo sem informações médicas que sustentem a relação. “Quando uma mulher jovem sofre um infarto, existem diferentes possibilidades que precisam ser investigadas. A dissecção coronariana é uma delas, mas não podemos definir a causa apenas pela idade, pelo sexo ou pelo momento de vida daquela paciente. São necessários exames e conhecimento do histórico clínico para entender o mecanismo do evento”, explica.
O pós-parto também exige atenção à saúde da mãe
Outro aspecto do caso de Giane chama atenção: a modelo estava no puerpério, apenas 45 dias após o nascimento do segundo filho. Isso não significa que o infarto tenha relação com a gestação ou com o parto, mas o período abre espaço para uma discussão importante sobre a saúde cardiovascular materna.
A gravidez provoca uma série de adaptações no organismo. Volume sanguíneo, frequência cardíaca, pressão e sistema de coagulação passam por mudanças importantes, e o corpo não retorna imediatamente às condições anteriores à gestação assim que o bebê nasce. “O nascimento do bebê não encerra os cuidados com a saúde da mulher. O puerpério continua sendo um período de grandes adaptações fisiológicas. Sintomas como dor no peito, falta de ar importante, palpitações, desmaios ou um mal-estar súbito e diferente do habitual precisam ser valorizados e avaliados”, alerta Bárbara Fagundes.
O desafio é que as primeiras semanas com um recém-nascido costumam ser acompanhadas de cansaço, privação de sono e grandes mudanças na rotina. Por isso, alguns sintomas podem acabar sendo interpretados apenas como consequência da maternidade.
“É muito comum que a mulher concentre toda a atenção no bebê e coloque a própria saúde em segundo plano. O problema é normalizar tudo o que ela sente como cansaço do pós-parto. Se existe um sintoma intenso, repentino ou claramente diferente do habitual, principalmente dor no peito, falta de ar ou desmaio, é importante procurar atendimento”, afirma Thaís Pinheiro Lima.
Ser jovem e ter hábitos saudáveis não significa risco zero
Outro mito frequente é associar infarto exclusivamente ao sedentarismo, obesidade ou tabagismo. Manter uma rotina saudável é fundamental para reduzir o risco cardiovascular, mas não significa estar completamente protegido contra um evento cardíaco.
Histórico familiar de doença cardiovascular precoce, hipertensão, alterações do colesterol, diabetes, fatores genéticos, doenças inflamatórias e outras condições também podem participar do risco. Há ainda mecanismos de infarto que não dependem da aterosclerose tradicional.
“Uma pessoa pode ser jovem, ativa e aparentemente saudável e ainda assim apresentar um fator de risco desconhecido ou alguma condição cardiovascular específica. Os bons hábitos reduzem significativamente o risco, mas não tornam ninguém imune”, explica o cardiologista Carlo Bonasso Filho.
Para o especialista, o episódio também não deve levar pessoas jovens e assintomáticas a uma busca indiscriminada por exames. A prevenção deve considerar as características individuais. “A avaliação cardiovascular começa por conhecer o paciente. Pressão arterial, colesterol, glicemia, histórico familiar, hábitos e presença de sintomas ajudam a determinar quem precisa de uma investigação mais aprofundada. Fazer prevenção não significa realizar todos os exames possíveis, mas identificar corretamente os riscos de cada pessoa”, acrescenta.
Não ignore os sinais
Dor, pressão ou aperto no peito estão entre os sintomas mais conhecidos de um infarto. Eles podem vir acompanhados de falta de ar, suor frio, náusea, tontura ou sensação de desmaio. Em alguns casos, o desconforto pode se espalhar para braços, costas, pescoço ou mandíbula. Desmaio repentino, falta de ar intensa e palpitações acompanhadas de mal-estar também exigem atenção, principalmente quando surgem de maneira súbita ou fogem completamente do padrão habitual da pessoa.
Para Carlo Bonasso Filho, um dos maiores perigos é justamente utilizar a idade como justificativa para ignorar os sintomas. “Quando alguém apresenta sinais compatíveis com uma emergência cardiovascular, não devemos pensar que aquela pessoa é jovem demais para ter um problema no coração. Procurar atendimento rapidamente é fundamental porque, diante de um infarto, tempo significa músculo cardíaco.”
O caso de Giane Alves reforça uma mensagem importante: o coração também precisa ser cuidado antes dos 40 anos e a saúde da mulher não pode ficar em segundo plano depois do nascimento de um filho. Conhecer fatores de risco, manter acompanhamento médico e, principalmente, não minimizar sintomas inesperados são cuidados que podem fazer diferença.