O dilema das telas: como elas impactam o desenvolvimento infantil

A Pixar confirmou para junho de 2026 a estreia de Toy Story 5. Desta vez, o vilão que enfrentará os protagonistas Buzz e Woody não será um brinquedo ciumento ou um colecionador obcecado, mas um tablet chamado LilyPad. A escolha, curiosa à primeira vista, toca em uma das discussões mais sérias da atualidade: o impacto das telas na infância.

E não se trata de exagero. Em 2024, pesquisadores da Universidade de Hong Kong analisaram mais de 30 mil crianças em 33 estudos clínicos. Por fim, concluíram que o uso crônico de dispositivos digitais compromete a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro infantil de reorganizar e criar novas conexões neurais. O resultado é preocupante: dificuldades de aprendizado, alterações de comportamento e prejuízos nas interações sociais.

Ainda assim, os dados sobre o assunto seguem desanimadores: o percentual de bebês (sim, bebês) de até dois anos que já possuem celular próprio cresceu para 5% em 2025, segundo o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.BR). A tecnologia, criada para aproximar e facilitar, pode estar se tornando uma das maiores inimigas do desenvolvimento saudável das novas gerações.

Qual o problema das telas, afinal?

A cena é comum: uma criança pequena, imóvel diante de um tablet ou celular, parece hipnotizada. E, ao tentar retirá-la do aparelho, muitos pais enfrentam crises de choro e fúria. Isso não acontece por acaso.

De um lado, há algoritmos criados para prender a atenção até de adultos; do outro, um cérebro em formação, altamente vulnerável a estímulos constantes. “Quando a criança é muito exposta às telas, ela se acostuma com respostas rápidas e estímulos incessantes. O corpo entra em estado de alerta, liberando grandes quantidades de cortisol. Isso pode deixá-la mais irritada, ansiosa e com menos paciência para lidar com o tédio ou pequenas frustrações da vida real”, explica a psicóloga Natália Aguilar, especialista em psicologia perinatal e da parentalidade. Segundo ela, o uso excessivo empobrece experiências fundamentais e compromete áreas cruciais como atenção, memória e linguagem — além de funções fisiológicas, como o sono. A luz das telas, por exemplo, inibe a produção de melatonina, hormônio responsável por induzir o sono, causando fadiga visual, dificuldade para dormir e alterações no ciclo circadiano. 

Para piorar, há maior risco de problemas posturais como dores na coluna e aumento do sedentarismo, já que a criança fica muito tempo parada numa mesma posição. “O cérebro da criança está em plena fase de crescimento e precisa de estímulos variados: brincar, interagir com pessoas, explorar o ambiente. O uso excessivo de telas reduz essas experiências e pode prejudicar até o controle das emoções”, acrescenta o neurocirurgião Guilherme Rossoni.

Antigamente, tudo era melhor (?)

Se você, assim como eu, faz parte dos primeiros nativos da geração Z (nascidos entre 1997 e 2005), viveu um fenômeno interessante: embora tenhamos crescido na ascensão da internet, smartphones e tablets ainda estavam sendo introduzidos durante nossa infância e adolescência. A tela que realmente marcou nossos primeiros anos foi a televisão.

E se você tem a sensação de que ela prejudicava menos a concentração do que os dispositivos atuais, saiba que não é apenas impressão: “Celulares e tablets costumam ser mais prejudiciais porque a criança os usa sozinha, com maior proximidade do rosto e por períodos prolongados. A TV, quando assistida junto da família e com tempo limitado, tende a ter impacto menor”, esclarece Natália.

Não entenda errado: a televisão também prejudica a neuroplasticidade, mas os programas infantis eram regulados por normas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o que filtrava o conteúdo. Já a ascensão da internet ampliou o acesso a materiais impróprios e altamente viciantes.(BOX)

Se faz mal, por que fazemos?

Infelizmente, a relação entre a realidade brasileira e o uso de telas não é das melhores. Já ouviu falar que crianças aprendem pelo exemplo? Pois então: O Brasil está entre os países que mais usam tecnologia no mundo, atrás apenas da África do Sul, segundo o relatório Digital 2024: Global Overview Report. São, em média, mais de 9 horas por dia diante de dispositivos — mesmo entre adultos.

A pandemia de Covid-19 acelerou ainda mais esse processo. De um dia para o outro, milhares de pais ficaram sozinhos com os filhos em casa, e os aparelhos digitais se tornaram ‘aliados’ para entreter e acalmar. O reflexo é claro: em 2015, apenas 9% dos bebês de até dois anos utilizavam telas; em 2025, esse número saltou para 44%, ainda segundo o Cetic.BR. “Uma infância totalmente sem telas é difícil, já que elas fazem parte da vida contemporânea. O papel dos pais e cuidadores é mediar esse uso: estabelecer limites, acompanhar os conteúdos e, principalmente, garantir que a tela não substitua o brincar, a convivência e a exploração do mundo real”, aconselha Natália.

O neurocirurgião Guilherme Couto complementa: “Em vez de simplesmente proibir, os pais podem criar limites claros de tempo, incentivar brincadeiras fora das telas, estimular esportes, leitura e contato social. Com consistência, o cérebro se adapta e os prejuízos podem ser reduzidos.”

O que fazer?

Estamos diante de uma geração de nativos digitais, e a forma como fomos criados já não serve de modelo. O desafio é encontrar equilíbrio. “O que a literatura médica recomenda é que até os 2 anos o ideal é evitar ao máximo o uso de telas. Dos 2 aos 5 anos, recomenda-se no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão. A partir dos 6 anos, pode-se flexibilizar, mas sempre com prioridade ao brincar ativo e limites bem definidos”, orienta Natália.

É essencial que a criança tenha acesso a outras atividades atrativas, como brincar ao ar livre, jogos de tabuleiro ou atividades criativas que promovam a interação. “O resgate do vínculo com os pais também é fundamental nesse processo para a criança aprender outras formas de sentir prazer.”

As telas não vão desaparecer da vida dos pequenos. O desafio não é eliminá-las, mas aprender a usá-las com consciência. Isso envolve também a sociedade, que deve lutar por um conteúdo digital mais regulado. Para o neurocirurgião, o segredo está na contenção de danos: “Uso controlado e com propósito: tempo limitado, conteúdo educativo, pausas frequentes e acompanhamento dos pais. O uso saudável é aquele que não atrapalha o sono, a escola, a saúde física ou as relações sociais”, finaliza.


Ana Carvalho

Repórter de revista e portal na Editora Alto Astral. Bacharela em jornalismo e pós-graduada em Comunicação e Mídia pela Universidade...