Psicóloga perinatal explica como alinhar expectativas, organizar rede de apoio e reconhecer sinais que pedem atenção no puerpério
O enxoval fica pronto, o quarto ganha decoração e a mala da maternidade é revisada duas vezes. Mesmo assim, muitas mulheres descrevem o início do puerpério como um choque, com sono picado, dificuldades na amamentação, visitas, palpites e uma sensação de solidão. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, a preparação precisa ir além da parte prática e começar ainda na gestação, com conversas reais sobre rotina, rede de apoio, divisão de tarefas e saúde mental.
“A mudança psicológica não acompanha o mesmo ritmo da mudança orgânica. Enquanto o puerpério é uma adaptação do corpo da mulher e leva de duas semanas a seis meses no máximo, o pós-parto é a adaptação psicológica, e ele pode durar de dois a três anos”, afirma.
9 dúvidas mais comuns do puerpério
A seguir, a psicóloga respondeu às dúvidas mais comuns deste período.
1 – Por que a maternidade real costuma ser diferente das redes sociais?
A preparação começa por ajustar a expectativa. Segundo a psicóloga, romantizar o início da maternidade aumenta a chance de culpa e inadequação quando aparecem dificuldades reais, como cansaço extremo, bebê que chora muito, noites ruins e desafios na amamentação.
“Aquela imagem de mãe super alegre no puerpério pode ser apenas uma pose para foto do Instagram. O bastidor pode ser muito cruel, muito difícil… por debaixo daquela maquiagem, por de trás daquela mulher mesmo que descabelada, mas super feliz ali com o bebê no colo, pode ter muito medo, angústia e incertezas”.
Ela diz que é comum surgir sensação de injustiça quando a mulher percebe que não foi preparada para o que viria. “Uma das principais queixas que eu vejo de mulheres no puerpério é: ‘estou me sentindo injustiçada porque ninguém me falou que seria assim, eu me sinto traída’”.
2 – Baby blues é depressão? Como diferenciar?
Não. O baby blues (disforia puerperal) é uma oscilação de humor muito frequente nos primeiros dias após o parto, com choro fácil, fragilidade e irritação, e costuma durar cerca de duas a três semanas. Em geral, pede acolhimento e apoio.
O alerta aparece quando os sintomas persistem além desse período, pioram ou começam a comprometer o funcionamento diário, o vínculo e o cuidado. Nesses casos, a orientação é buscar avaliação profissional para investigar depressão pós-parto, que exige intervenção adequada.
3 – Instinto materno existe?
Um erro comum é acreditar que a maternidade é automática. Para Rafaela, isso alimenta culpa quando a mulher não sabe lidar de imediato com choro, banho, sono e amamentação.
“A maternidade não é dada de forma instintiva, não existe instinto materno. Eu pego o bebê e sei o que fazer com ele, sei como dar banho, trocar fralda, colocar para dormir… não é assim, é aprendizagem! A gente aprende a se comunicar com o bebê”.
4 – É normal não amar o bebê logo que ele nasce?
Sim. A psicóloga afirma que o amor imediato nem sempre acontece e que muitas mulheres sentem vergonha de admitir isso.
“Existem várias mulheres que, quando o bebê nasce, não conseguem sentir amor pelo bebê. Isso acontece e é comum. Muitas começam a se vincular com o bebê e gostar dele só depois de uns três ou quatro meses”.
5 – Quais lutos são esperados no puerpério?
Outro erro frequente é não se preparar para as perdas do cotidiano, que costumam pesar no começo. Rafaela chama atenção para o “luto das pequenas coisas”, como perder a liberdade do banho demorado, do sono contínuo, do tempo para a vida a dois e de rotinas simples sem interrupções.
“Nesse período, a mulher faz muitos lutos.Tristeza é normal, tristeza é esperada, e isso não significa necessariamente que ela está com depressão”.
6 – O que é invisibilidade materna?
Rafaela descreve um fenômeno comum e doloroso: a mulher recebe atenção na gestação, mas, após o parto, o foco social vai todo para o bebê.
“Durante a gestação, ela recebe mimos, recebe paparicos, todo mundo quer ajudar. Quando o bebê nasce, ninguém nem pergunta dela, as pessoas já vão entrando e falando ‘cadê o bebê?’. A mãe fica invisível, é uma invisibilidade materna que machuca as mulheres”.
Combinar visitas, horários e tipo de ajuda antes do parto pode reduzir esse impacto.
7 – Rede de apoio: o que vale como ajuda de verdade?
Rede de apoio é quem ajuda a sustentar o cotidiano, e não apenas quem visita para ver o bebê. Ajuda real costuma ser:
- Comida pronta, mercado, louça e roupa
- Cuidar do bebê para a mãe dormir e tomar banho
- Apoio para organizar a casa e reduzir sobrecarga
- Escuta sem julgamento
8 – Divisão de tarefas: onde as famílias mais erram?
Muitas mulheres idealizam que o parceiro vai dividir tudo igualmente, mas o puerpério cobra acordos concretos. Um erro comum é deixar “para ver na hora”, quando o cansaço já está alto.
A orientação é sair do combinado genérico e definir tarefas objetivas, como rotina da casa, logística da madrugada, limites para visitas e como lidar com palpites.
9 – Como o pré-natal psicológico pode prevenir adoecimentos?
A psicóloga defende que a prevenção começa na gestação, com o pré-natal psicológico, que antecipa reflexões críticas e reduz o choque com a realidade.
O acompanhamento ajuda a planejar:
- Divisão real de tarefas
- Limites para visitas e palpiteiros
- Retorno ao trabalho e culpa materna
- Rede de apoio possível de fato, já que muitas avós trabalham
Veja como se planejar antes do bebê nascer
- Alinhar expectativa com a maternidade real, fora das redes sociais;
- Combinar regras de visita e tipo de ajuda que faz diferença;
- Mapear rede de apoio prática (comida, casa, sono);
- Fazer acordos objetivos de divisão de tarefas;
- Saber diferenciar baby blues de sinais persistentes de alerta;
- Normalizar que vínculo e amor podem levar tempo;
- Considerar pré-natal psicológico como prevenção.