“Você não precisa se diminuir para caber em lugar nenhum”, diz Tatiana Tiburcio Foto: Marcelo Dias

Em alta como Rosa em Quem Ama Cuida, Tatiana Tiburcio fala sobre autoestima, representatividade, racismo, maternidade e se manter fiel à si mesma

A maturidade deu à Tatiana Tiburcio algo que vai muito além do reconhecimento profissional. Depois de construir uma carreira sólida no teatro, na televisão e no cinema, a atriz está em um momento da sua vida em que sabe exatamente quem é. “A maior transformação que percebo em mim como mulher é a maturidade, é a certeza das minhas escolhas, estar confiante no caminho que eu escolhi trilhar”, conta em entrevista exclusiva à Revista Malu.

Essa segurança também é refletida em Rosa, personagem de Quem Ama Cuida, que conquistou o público por enfrentar preconceitos sem abrir mão da leveza, da dignidade e da própria identidade. “A minha arte tem cor, tem propósito, tem gênero e isso está presente nas escolhas que eu faço, na maneira como interpreto, na forma como eu me posiciono diante dos personagens a mim apresentados.”

A possibilidade de existir

Foi isso que mais chamou a atenção de Tatiana quando leu a história de sua personagem. Para ela, a Rosa é uma personagem que existe além do estereótipo que durante décadas limitou a representação de mulheres negras na dramaturgia brasileira. “Quando vemos a relação dela com os companheiros na cozinha, a postura dela diante da autoridade da Pilar (Isabel Teixeira), a relação com a filha, o dilema da mãe, a Rosa passa a ser um indivíduo com vontades, desejos, identidade, conflitos, dilemas, perspectivas para o futuro e opinião. Assim ela existe enquanto sujeito, mesmo que ficcional, ela existe. E isso me deixa muito feliz”, analisa.

Como Tatiana Tiburcio construiu Rosa

Para chegar na Rosa que hoje muitos admiram, foi um longo caminho. Tatiana revela que o que ouvia sobre a personagem é que ela era “só amor, que vivia em função de fazer o bem e que gostava muito de todo mundo”. “Eu só falei: ‘Bom, então é a Tia Nastácia, que vive pro outro”, disse ao mencionar a personagem do seriado Sítio do Pica-Pau Amarelo (2001-2007). “Então, eu trouxe questionamentos e apontei como a gente podia escrever um outro olhar sobre essa mulher, trazendo ela para o concreto, o que foi aceito rapidamente pela equipe. E aí eu mergulho nas mulheres que me cercam.”

Tatiana cita sua madrinha Amora, que também foi doméstica, e lembra, na época da ditadura, quando ela ia trabalhar na casa de um coronel com sua bela blusa de cetim amarela, calça brim acinturada, salto alto e bolsa tiracolo. “Ela chegava assim para fazer faxina. Tanto ela, quanto minha mãe e minhas tias. Elas não se viam nesse lugar imaginado de uma estética quase coitadinha, sem vaidade. Elas eram vaidosas, cuidadosas com suas imagens, e eu queria que a Rosa fosse essa funcionária, e não essa outra que também existe, mas que está ratificada como a única e que corresponde a um arquétipo no imaginário social. Eu quero falar das outras Rosas, das outras que também existem e que proporcionam para gente uma reflexão para fora dessa caixinha”, reflete.

Quando pergunto a Tatiana qual a mensagem que Rosa leva para o público, Tatiana responde firme: “Que você não precisa se diminuir para caber em lugar nenhum. E que é preciso saber quem se é e acreditar em quem se é para manter a cabeça de pé, erguida, mesmo que isso possa provocar a ira de outros”.

“Eu me vejo na teimosia, na indignação, na força, no afeto e em muitas outras características da Rosa.”

Conversa com o público

Essa representação faz diferença porque permite que muitas mulheres finalmente se enxerguem nas telas. E esse retorno tem chegado diariamente por meio das mensagens dos telespectadores. “O comentário que mais me emociona é quando dizem que a Rosa inspira pela dignidade. Ela não abaixa a cabeça para o racismo, para o machismo ou para qualquer tipo de opressão, mas também não perde a doçura, a leveza e a alegria”, pondera.

A triste realidade

Mais do que falar sobre preconceito, Quem Ama Cuida também levanta discussões importantes sobre violência doméstica, homofobia e relações familiares. Tatiana acredita que um dos maiores méritos da novela é mostrar que essas dores muitas vezes começam dentro de casa. “Vemos a homofobia que Mau Mau (João Vitor Gonçalves) está sofrendo do seu avô, Otoniel (Tony Ramos), que é um personagem querido, alguém que transborda amor e é capaz dar a vida pela família e, no entanto, é quem mais machuca o próprio neto que ele jura amar e proteger. Isso é pertinente, porque a aceitação da família é o primeiro lugar de dor muito profunda dessas pessoas antes mesmo do mundo externo. O mesmo acontece com a violência contra a mulher. Mostrar essas situações de maneira tão humana ajuda o público a refletir.”

Quando o assunto é maternidade, Tatiana faz uma análise delicada. Na novela, Rosa é uma mulher forte, enquanto a filha, Elenice (Mariana Sena), vive uma relação marcada pela submissão. Para a atriz, isso apenas reforça que cada pessoa constrói o próprio caminho. “A gente não gera clones. Os filhos têm personalidade, escolhas e livre-arbítrio. Pensar que uma mãe é totalmente responsável pelos caminhos dos filhos também é muito cruel.”

Um longo caminho

A mesma firmeza aparece quando ela fala sobre representatividade. Embora reconheça os avanços da televisão brasileira, Tatiana acredita que ainda há um longo caminho para que mulheres negras ocupem todos os espaços sem precisar se encaixar em padrões de beleza estabelecidos. “Hoje vemos personagens negros, principalmente femininos, mais presentes nas histórias contadas nos mais diferentes veículos. Mas ainda esse corpo preto precisa ter estéticamente trações que se assemelham a um padrão estabelecido, um corpo com traços negróides menos acentuados. A gente precisa descolonizar esse olhar sobre esses corpos e entender que corpos como o meu também podem ser sensuais, disputados e ocupar qualquer espaço estabelecido de beleza, autoridade e protagonismo.”

Deixou sua marca

Ao longo de sua carreira, a atriz deu vida a personagens muito diferentes entre si, mas uma delas foi capaz de deixar sua marca, Mirtes de Sousa, personagem baseado na história real de uma mãe cujo filho de 5 anos caiu de um prédio de luxo em Recife, interpretada no especial Falas Negras, de Lázaro Ramos.

“Me marcou porque essa personagem era dor. Para que a gente pudesse fazer com que as pessoas entendessem o peso daquela tragédia, era preciso fazer com que elas sentissem, vissem a dor daquela mãe. Porque é cruel o que eu vou dizer, mas é absolutamente verdade: um corpo negro, quando morre, ele não causa a mesma comoção que qualquer outro corpo. Mesmo sendo o corpo de uma criança preta. É como se o nosso emocional já estivesse acostumado com essa perda. Por isso, era preciso trazer a dor como protagonista, porque a dor não tem cor. E se eu conseguisse interpretar a dor, eu conseguiria tocar as pessoas para que elas vissem o Miguel, e não só mais um corpinho preto caído no chão”, confessa.

Além do trabalho

Para dar conta da rotina de gravações, que costumam ser intensa, quando não está trabalhando, a artista está fazendo sua terapia, musculação e cuidando da sua alimentação. “Também tento valorizar meus tempos de folga e meu sono. E me divertindo sempre que possível. É assim que eu tento cuidar de mim.”

Um recado de Tatiana Tiburcio para você, leitora

A mensagem que Tatiana deixa para as mulheres que acompanham sua trajetória foge dos discursos motivacionais tradicionais. Para ela, perseguir um sonho não significa ter a garantia de alcançá-lo, especialmente diante das desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras. Ainda assim, acredita que vale a pena seguir em frente.

“As pessoas dizem: ‘Não desista dos seus sonhos, corra atrás, se você se dedicar você vai alcançar’. Isso tudo é muito bonito, mas é muito cruel, porque não existe nada que garanta que você realmente vai chegar. Principalmente sendo uma pessoa preta, em um país racista como o nosso. Mas tem um ponto que é fundamental: você só vai saber se vai conseguir ou não, se você tentar. Então tenta, com todas as forças e toda sua vontade, entendendo que tudo que você aprender no caminho já é a vitória que você busca”, conclui.