Ansiedade, depressão e TDAH crescem em ritmo acelerado no Brasil
Os transtornos mentais entre crianças e adolescentes têm avançado de forma preocupante e já configuram um dos principais desafios de saúde pública da atualidade. Ansiedade, depressão, TDAH e transtornos de conduta estão entre os diagnósticos mais frequentes – e os números no Brasil reforçam a gravidade do cenário. Um levantamento do Ministério da Saúde revelou que, em 10 anos (2014-2024), os atendimentos por transtornos de ansiedade no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceram 1575% entre crianças de 10 a 14 anos. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o aumento foi ainda mais expressivo: 4423%.
A relevância dos testes farmacogenéticos
Diante desse avanço, médicos defendem abordagens mais precisas, principalmente nos casos que exigem medicação. É nesse contexto que os testes farmacogenéticos ganham relevância, permitindo ajustar medicamentos e doses de acordo com o perfil genético de cada paciente, reduzindo efeitos adversos e aumentando a eficácia terapêutica.
“O teste farmacogenético analisa o DNA do paciente para prever como o organismo metaboliza diferentes medicamentos. Na prática, funciona como uma bússola clínica, auxiliando o médico na escolha da medicação mais adequada e na dosagem ideal, com menor risco de falhas terapêuticas ou reações adversas. O ideal é realizar o exame antes de iniciar novas medicações, garantindo eficiência desde o início do tratamento, independentemente da idade”, afirma Guilherme Lopes Yamamoto, médico geneticista responsável pelas áreas de Farmacogenômica e Inovação Genômica e Bioinformática da Dasa Genômica.
A medicina personalizada avança no Brasil com a ampliação dos testes farmacogenômicos. Um deles é o PharmOne, já disponível pela Dasa, que analisa 31 genes relacionados à resposta do organismo a cerca de 200 medicamentos. O exame ajuda médicos a entender por que determinados tratamentos funcionam para alguns pacientes e não para outros. O que permite escolhas mais assertivas desde o início da terapia.
Quem pode fazer os testes farmacogenéticos?
Indica-se a tecnologia tanto para quem está começando um tratamento quanto para pacientes que não apresentam melhora com abordagens convencionais. O teste pode ser aplicado em diversas especialidades médicas. Alguns exemplos são Cardiologia, Oncologia, Psiquiatria, Neurologia, Ginecologia e Urologia, entre outras, contribuindo para tratamentos mais eficazes e seguros.
Como funciona o exame?
O teste é realizado a partir da coleta de uma amostra biológica simples – que pode ser de saliva ou sangue, conforme a indicação médica. Com a coleta, analisa variantes genéticas relacionadas à metabolização e à resposta aos medicamentos. O material é encaminhado para análise laboratorial, e os resultados ficam disponíveis em poucos dias. O que auxilia o médico na escolha do fármaco mais adequado e na definição da dose ideal, com maior segurança e previsibilidade no tratamento.
Genética como bússola no tratamento psiquiátrico
Segundo o especialista, no tratamento de transtornos mentais, antidepressivos como amitriptilina e fluoxetina se beneficiam diretamente do ajuste de dose conforme a metabolização individual. “O exame também pode antecipar riscos importantes, como reações cutâneas graves associadas ao uso da lamotrigina, estabilizador de humor que pode provocar efeitos severos em pacientes geneticamente predispostos”, completa Yamamoto.
A eficácia da farmacogenética é respaldada por estudos internacionais, que confirmam a eficácia dessa tecnologia. Uma pesquisa realizada pela American Society for Clinical Pharmacology & Therapeutics (ASCP), analisou mais de 6 mil prescrições eletrônicas e mostrou que pacientes que receberam medicamentos incompatíveis com seu perfil genético tiveram o dobro de chance de abandonar o tratamento em comparação àqueles que receberam prescrições personalizadas.
O estudo avaliou 39 medicamentos com informações farmacogenômicas relevantes, envolvendo 536 pacientes. O que reforçou o potencial da genética como ferramenta estratégica para melhorar adesão, segurança e resultados em saúde mental — inclusive entre crianças e adolescentes.
Saúde mental juvenil e o impacto do ambiente digital
Aliar genética ao tratamento de transtornos mentais é uma ferramenta importante para contribuir positivamente para um contexto cada vez mais alarmante. De acordo com um relatório divulgado pelo grupo KidsRights, sediado na Holanda, um em cada sete jovens entre 10 e 19 anos sofre de algum problema de saúde mental. O documento aponta uma “correlação perturbadora” entre a deterioração do bem-estar psicológico e o uso “problemático” das redes sociais — caracterizado por um comportamento viciante que prejudica as atividades diárias.
O estudo também observou uma ligação entre o consumo excessivo de conteúdo digital e tentativas de suicídio. Citando dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o relatório destaca que a taxa global de suicídio é de 6 para cada 100 mil adolescentes na faixa dos 15 aos 19 anos.