Produções nacionais deram visibilidade à discriminação racial e denunciaram desigualdades ainda presentes no país
As novelas brasileiras vão muito além das histórias de amor, das disputas familiares e das reviravoltas que prendem o público diante da televisão. Ao longo dos anos, algumas produções também abriram espaço para discussões importantes sobre o racismo, retratando situações de preconceito, discriminação e desigualdade que fazem parte da realidade de milhões de brasileiros.

Em um país dividido e ainda muito racista (em pleno 2026), relembre cinco novelas que colocaram essas questões em evidência e ajudaram a ampliar o debate sobre o racismo no país.
Amor de Mãe (2019)

A novela de Manuela Dias teve duas (entre muitas) cenas que partiram o coração do público. A primeira foi quando Tiago (Pedro Guilherme), um menino negro, estava na praia com Sandro (Humberto Carrão) quando houve um arrastão. No momento em que ficou sozinho, o menino foi avistado por Belizário (Tuca Andrada), que pensou que ele era um bandido e o colocou em um camburão. No fim, ele foi resgatado.
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Na outra, Tiago estava com seu pai, Raul (Murilo Benício), em um shopping, quando um segurança achou que o pequeno estava pedindo esmola para o homem branco. Isso foi o suficiente para o profissional falar: “Senhor, esse moleque está incomodando? Aqui não é lugar para pedir esmola não, pivete. Vaza, moleque”, enquanto agarrou o braço do menino e o empurrou. Depois do ocorrido, o segurança pediu desculpas. “Racismo não é preconceito, racismo é crime”, falou a mãe do pequeno, Vitória (Taís Araujo).
O Outro Lado do Paraíso (2017)

Desde o início da trama, Nádia (Eliane Giardini) maltratava Raquel (Erika Januza), sua empregada. Mas as coisas pioraram quando a mulher descobriu que o seu filho estava namorando a jovem, o que a deixou enfurecida. “Some, desgraçada. Pensou que ia agarrar o meu filho debaixo dos meus olhos? Ouça muito bem: meu filho jamais casaria com uma preta, nariz de bolacha, beiçuda”, falou, mostrando ainda mais seu mau-caráter.
Na segunda fase da novela, a situação piorou antes de melhorar. Raquel se tornou juíza, mas sofreu um atropelamento. Nádia já correu para deixar claro ao filho para ele esquecer a jovem. “Preta e paraplégica? Não dá”, disse. Mas, no fim da novela, Bruno (Caio Paduan) conseguiu fazer com que a mãe pedisse perdão à sua amada.
Bom Sucesso (2019)

Uma cena de racismo estrutural chamou a atenção nesta novela da Globo. Durante um evento de lançamento de um livro, uma convidada branca chegou até Lulu (Carla Cristina Cardoso) e a mandou ir limpar o banheiro, achando que ela era a faxineira por ser a única negra no local. “Você me confundiu porque eu estou vestindo preto ou porque eu sou preta?”, perguntou Lulu, furiosa. A mulher logo se desculpou, mas levou uma bela lição de moral. “Da próxima vez que você for abordar alguém, tente não julgar a outra pessoa pela cor da pele, tá bom?”, falou Lulu.
Pátria Minha (1994)

A novela de Gilberto Braga retratou uma cena de racismo dilacerante, tão forte que o próprio autor sofreu duras críticas de ativistas do movimento negro. Na trama, Raul Pelegrini (Tarcísio Meira) acusou o jardineiro Kennedy (Alexandre Moreno) de roubar um cofre de sua mansão. Às lágrimas, o rapaz negou: “Seu negro insolente. Você pensa que eu acredito em crioulo? Vocês, quando não sujam na entrada, sujam na saída. Negro sem-vergonha! Vai se arrepender do dia em que nasceu! Negro”.
Corpo a Corpo (1984)

Na trama, também de Gilberto Braga, as cenas de racismo, na verdade, foram na vida real. Zezé Motta fazia par romântico com Marcos Paulo, e as cenas de beijo do casal interracial provocaram revolta na população brasileira. Em uma entrevista, alguns anos depois, Zezé recordou que a reação foi uma surpresa superdesagradável para todos. “O Marcos chegava em casa e havia recados na secretária eletrônica dele. Recados desaforados, revoltados, agressivos, dizendo: ‘Eu não acredito nesse casal, você beijando aquela mulher horrorosa’”, relembrou a atriz. Uma das mensagens chegou até a mexer com a atriz. “Teve um homem que foi horrível… Ele falou: ‘Se a Globo me obrigasse a beijar essa negra feia, eu lavaria a boca com água sanitária quando chegasse em casa’.”