Procedimento estético pode dificultar a higiene das pálpebras e provocar reações aos adesivos
A busca por cílios mais longos e volumosos tem popularizado o uso de extensões, procedimento estético que exige cuidados específicos para preservar a saúde da região dos olhos. Embora a técnica possa parecer inofensiva, o uso frequente pode estar associado a irritações, inflamações nas pálpebras e alterações na superfície ocular. A dermatologista Débora Cardial, especialista da Clínica Terra Cardial e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica quais são os principais riscos e os sinais que merecem atenção.

Entre os sintomas mais comuns estão vermelhidão, coceira, ardência, lacrimejamento, sensação de corpo estranho, ressecamento e irritação da pele das pálpebras. Também pode ocorrer blefarite, uma inflamação na margem das pálpebras. Além de alterações nas glândulas de Meibômio, responsáveis por produzir a camada oleosa da lágrima, que ajuda a evitar sua evaporação. Quando essas glândulas ficam obstruídas ou deixam de funcionar adequadamente, os sintomas de olho seco podem surgir ou piorar.
Outro ponto de atenção é o Demodex, um gênero de ácaros que pode estar presente naturalmente na pele de pessoas saudáveis, inclusive na região dos cílios. Sua presença, por si só, não significa uma infecção. “A preocupação maior é quando há proliferação excessiva associada à inflamação, especialmente na região dos cílios, o que pode contribuir para quadros de blefarite”, explica a dermatologista.
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Embora esses ácaros sejam frequentemente associados à região dos olhos, eles também podem ser encontrados em outras áreas do rosto, como nariz, testa e bochechas. Quando há aumento da quantidade desses organismos associado a uma resposta inflamatória e a fatores genéticos, eles podem participar de algumas doenças, como a blefarite e determinadas dermatoses faciais, a exemplo da rosácea e da demodecidose, condição relacionada à proliferação excessiva de Demodex.
Higiene e aplicação exigem atenção
Manter a região dos olhos limpa é fundamental, mas essa medida, isoladamente, não elimina todos os riscos. Segundo a especialista, as extensões podem dificultar a limpeza adequada da margem palpebral, favorecendo o acúmulo de oleosidade, secreções e resíduos. Além disso, os produtos utilizados e a técnica de aplicação também podem provocar irritações ou reações alérgicas.
A cola merece atenção especial. Muitos adesivos utilizados nesses procedimentos contêm cianoacrilatos, substâncias que podem causar irritação e, em algumas pessoas, dermatite de contato alérgica. Os vapores liberados durante a aplicação também podem irritar a superfície ocular. No entanto, a dermatologista ressalta que os riscos não estão relacionados exclusivamente ao adesivo, mas ao conjunto de fatores envolvidos no procedimento, incluindo a qualidade dos materiais, a higiene e a frequência das manutenções.
“Por isso, é importante combinar uma boa higiene com a escolha de um profissional capacitado, o uso de materiais adequados e cuidados rigorosos durante a aplicação e a manutenção”, orienta a médica. Ela também recomenda adiar o procedimento quando houver alguma inflamação ou infecção ocular ativa e manter uma higiene delicada e regular da região.
Quando o desconforto deixa de ser normal?
Uma leve sensação de irritação ou de corpo estranho logo após a aplicação pode acontecer, mas deve ser passageira. Sintomas intensos, persistentes ou que pioram com o tempo exigem atenção. Dor importante, vermelhidão intensa, inchaço significativo, secreção, sensibilidade à luz ou alterações na visão são sinais de alerta que justificam uma avaliação médica.
Isso porque o desconforto pode não ser apenas uma irritação da pele. Em alguns casos, pode haver dermatite de contato e blefarite. Ou até mesmo o comprometimento mais grave da superfície ocular, incluindo lesões na córnea, estrutura transparente que recobre a parte da frente do olho.
“Dor, secreção, sensibilidade à luz ou alteração da visão não devem ser considerados reações normais às extensões de cílios. Nesses casos, é importante interromper o uso e procurar avaliação médica, de preferência com um oftalmologista quando houver sintomas oculares”, reforça Débora.
A orientação é não ignorar os sinais apresentados pelo organismo e buscar avaliação profissional diante de sintomas persistentes ou intensos, mesmo quando o desconforto surge após um procedimento estético considerado simples.