Ter acesso facilitado à informação não significa que todas as pessoas estejam melhor informadas. Especialmente se considerarmos que, na internet, qualquer pessoa tem voz e o poder de disseminar conteúdos que não necessariamente passam pelo crivo de apuração da veracidade. É no meio digital, inclusive, que fica claro como notícias falsas, as chamadas fake news, podem ser espalhadas e assumidas como verdade por milhares de pessoas. Em mais um ano eleitoral, mais uma vez essa discussão precisa vir à tona: por que a desinformação ganhou tanta força nos últimos anos?

Os últimos anos deram nitidez à polarização política não só no Brasil, mas no mundo. E as últimas eleições foram prato cheio para que, ao mesmo tempo em que mais pessoas se interessavam pelo campo político, maior fosse a quantidade de fake news produzidas nos meios de comunicação digital informais. De acordo com a psicóloga Tatiana Vainboim, o conflito de ideais levado ao extremo prejudica a avaliação crítica por parte da sociedade. Afinal, a veracidade deixa de ser um critério prioritário em muitos casos. “A polarização transforma informações em marcadores de identidade. Em vez de perguntarmos se é verdadeiro, passamos a perguntar, ainda que inconscientemente, isso favorece o meu grupo ou o grupo adversário? Assim, conteúdos que atacam o grupo oposto costumam gerar bastante engajamento. Isso cria incentivos para mensagens cada vez mais hostis e simplificadas, como nos movimentos políticos, por exemplo”, afirma a psicóloga.
Há recompensa no processo
Para tentar encontrar uma resposta para o avanço da quantidade de fake news, vamos mergulhar em processos psicológicos vividos por todo ser humano, elucidados por Tatiana. “Nosso cérebro utiliza atalhos mentais para interpretar rapidamente uma enorme quantidade de informações e não funciona como um detector perfeito de verdades e mentiras. Um desses atalhos é a familiaridade: quanto mais vezes uma informação aparece para nós, mais familiar ela se torna. Assim, consequentemente, pode também parecer verdadeira”, comenta.
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Ou seja, a fake news ganha força proporcional ao quanto é compartilhada, mas não só isso. Outro fator importante para seu fortalecimento é o famoso viés de confirmação: a tendência a acreditar mais facilmente naquilo que confirma algo que já pensamos ou tememos. “Se uma notícia reforça uma opinião que a pessoa já tinha, ela tende a questionar menos. Enquanto pode ser muito mais crítica com aquilo que contradiz suas crenças pessoais. Quando a informação desafia nossas convicções, normalmente encontramos defeitos com muito mais facilidade”, pontua Tatiana.
O medo impulsiona as fake news
O temor, inclusive, é uma ferramenta muito potente e frequentemente utilizada para estimular a crença popular. Como quando associam certos posicionamentos políticos a uma afronta a instituições sociais de valor afetuoso (família, religião). “Notícias que provocam medo, indignação, surpresa e/ou ansiedade chamam mais a nossa atenção e podem ser compartilhadas antes mesmo de serem verificadas, porque as emoções também têm um papel muito importante. Quando estamos emocionalmente envolvidos, podemos analisar a informação de maneira menos crítica”, reforça a profissional.
“Mesmo uma informação que parece absurda pode ser aceita quando encontra uma crença prévia, uma emoção forte, uma fonte aparentemente confiável ou um ambiente social que a valida.”
Uma coisa ficou clara: as emoções têm um papel muito importante na propagação das fake news. “Quando uma informação provoca uma reação emocional forte, podemos agir por impulso e compartilhar antes de verificar se é verdadeira. O medo, por exemplo, pode fazer a pessoa compartilhar pensando que está protegendo alguém, enquanto a raiva pode gerar o impulso de denunciar ou expor aquela informação”, aponta.
É importante lembrar que emoções positivas também podem impulsionar conteúdos falsos. Esperança, entusiasmo e identificação grupal podem favorecer mensagens sobre curas milagrosas, oportunidades irresistíveis ou histórias excessivamente reconfortantes.
Por isso, quanto mais uma notícia mexe emocionalmente conosco, mais importante é fazer uma pausa e checar antes de compartilhar. Muitas vezes, no impulso, fazemos o inverso: primeiro compartilhamos e só depois verificamos se a notícia é verdadeira.
Um cenário multifatorial para a onda de fake news
Entretanto, o viés de confirmação por si só não é o único “culpado” pelo avanço do fenômeno da desinformação, como conta a psicóloga. “Pesquisas mostram que muitas pessoas compartilham informações falsas não porque estejam plenamente convencidas delas. Mas porque, naquele momento, sua atenção está voltada para outros objetivos: entreter, demonstrar indignação, ajudar alguém, marcar uma posição ou conseguir engajamento.”
Esse cenário é exclusivo da era dos algoritmos, visto que tanta coisa é colocada em xeque para simplesmente fazer parte de um lado político ou de um grupo social. Tatiana explica que o simples ato de compartilhar gera uma sensação imediata de pertencimento, que pode fazer com que a pessoa se sinta útil e reconhecida. “Compartilhar nem sempre é o resultado de uma decisão consciente sobre a veracidade do conteúdo. Mas pode se transformar em uma resposta automática a algo chamativo ou com carga emocional. Pesquisas indicam que as estruturas de recompensa das redes — engajamento, reações e visibilidade — ajudam a formar hábitos de compartilhamento, inclusive entre pessoas capazes de identificar uma notícia falsa quando são solicitadas a avaliá-la cuidadosamente”, analisa.
O ambiente digital, portanto, acelera a ação e torna menos visíveis as consequências. Afinal, com apenas um toque na tela é possível alcançar centenas ou milhares de contatos sem entrar em contato direto com o medo, o conflito ou o prejuízo que poderá ser causado pela mensagem. “Além disso, as plataformas privilegiam aquilo que chama atenção. Como novidade, indignação e conflito geram engajamento, o sistema pode favorecer comportamentos impulsivos”, complementa Tatiana. Porém, a psicóloga faz uma ressalva: “Isso ajuda a explicar o fenômeno, mas não elimina a responsabilidade individual. Compartilhar também é uma forma de endossar e ampliar o alcance de uma informação.”
Com paciência, pode ser reversível
Uma vez que a informação falsa é assimilada e aceita por alguém, dificilmente esse receptor voltará atrás em sua crença. Esse processo leva o nome de “efeito de influência continuada”, segundo Tatiana. “Isso acontece porque a informação original já foi incorporada à memória e passou a preencher uma lacuna explicativa. Retirá-la sem oferecer uma explicação alternativa deixa uma espécie de vazio.”
Além disso, admitir o erro representa um custo que a maioria das pessoas não está disposta a pagar. Se a crença estiver ligada à identidade, ao grupo social ou a decisões já tomadas, a correção pode despertar vergonha, ameaça ou necessidade de se defender”, acrescenta a profissional. Isso não significa que não se deve corrigir a desinformação, muito pelo contrário. É essencial que sejam apresentadas as contradições e os fatos verídicos. Desde que embasados em fontes oficiais e de forma que possam ser compreendidos pelo outro.
“As correções tendem a ser melhores quando são claras, vêm de fontes confiáveis, explicam por que a alegação está errada e oferecem a informação correta ou uma explicação alternativa. A orientação deve acontecer de forma gradual e acompanhada, fazendo perguntas como: Quem publicou? De onde veio essa informação? Tem outras fontes falando sobre isso? E, principalmente, criar um ambiente confortável para perguntar e dialogar sem medo de julgamento e punição”, orienta a psicóloga.
Se falamos de idosos, além da orientação, Tatiana reforça que é importante oferecer apoio. Isso porque, muitas vezes, a dificuldade não é apenas tecnológica, mas de reconhecer estratégias de manipulação. “Podemos ensinar a desconfiar de mensagens alarmistas, pedidos urgentes e conteúdos que provocam medo ou indignação. E ainda incentivar que não compartilhem imediatamente, sem pesquisar e consultar.”
Impactos severos e que adoecem
Mais do que nunca, é fundamental entender o impacto negativo que a desinformação e o alarmismo causam na saúde mental da população. Os efeitos desse cenário mostram um estado de alerta constante, aumentando sentimentos de medo, ansiedade e insegurança. “Quando somos expostos repetidamente a informações ameaçadoras, nosso cérebro pode ter dificuldade de diferenciar um risco real de uma ameaça exagerada. Além disso, a sensação de que algo ruim está sempre acontecendo pode gerar estresse, irritabilidade, dificuldade para dormir e até uma necessidade exagerada de acompanhar notícias e redes sociais a todo momento”, elenca Tatiana.
E a psicóloga pontua que existe ainda um impacto coletivo, em que a desinformação alimenta a desconfiança, a polarização e a sensação de falta de controle. “O impacto se torna mais preocupante quando a desinformação interfere em tratamentos, promove autodiagnósticos, estimula comportamentos perigosos ou enfraquece a confiança em profissionais e instituições”, alerta.
O segredo é questionar
Por fim, Tatiana analisa que a solução para a atual problemática não exige desconfiar de tudo, mas sim balancear a combinação entre confiança e qualidade das evidências. “Podemos desenvolver o hábito de perguntar: ‘Isso faz sentido?’ ‘Qual é a fonte?’ ‘Estou compartilhando porque é verdadeiro ou porque mexeu comigo?’. Esse pequeno intervalo entre receber e retransmitir ajuda a diminuir a impulsividade e fortalece um ceticismo saudável, sem deixar de ter abertura para novas informações”, finaliza a profissional.