No Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, psicóloga explica por que contas, dívidas e incertezas financeiras podem ultrapassar o orçamento e chegar ao sono, às relações e ao equilíbrio emocional
Falar sobre saúde mental também significa falar sobre dinheiro. Embora finanças e emoções muitas vezes sejam tratadas como assuntos separados, as duas áreas estão profundamente relacionadas no cotidiano. Uma conta que não fecha, uma dívida que se acumula, o medo de perder a renda ou mesmo a sensação de não saber para onde o dinheiro está indo podem ocupar um espaço significativo nos pensamentos e se transformar em uma fonte constante de preocupação.

No Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, essa relação ganha ainda mais relevância. Em 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu como tema da data “Lived experiences heard: real voices, real change”, destacando a importância de considerar as experiências reais das pessoas nas discussões sobre sofrimento e cuidado em saúde mental.
No Brasil, indicadores ajudam a dimensionar esse cenário. Dados apresentados pelo Banco Central mostram que 44,8% dos brasileiros avaliados afirmaram que nunca ou raramente sobra dinheiro ao final do mês, enquanto 36% disseram ter preocupação de que o dinheiro não dure. Para a psicóloga Daisy Cangussú, a preocupação financeira não deve ser compreendida apenas a partir dos números.
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“Quando uma pessoa não sabe se conseguirá pagar suas contas ou percebe que perdeu o controle sobre sua vida financeira, o cérebro não interpreta isso apenas como um problema matemático. Existe uma sensação de ameaça, de insegurança e de imprevisibilidade. E viver continuamente nesse estado pode gerar uma carga emocional bastante importante”, explica.
Quando deixa de ser normal
Preocupações pontuais com dinheiro fazem parte da vida. O problema pode surgir quando as questões financeiras passam a ocupar grande parte dos pensamentos, fazendo com que a pessoa acorde pensando em contas, passe o dia preocupada com elas e vá dormir fazendo cálculos mentalmente. Nesse contexto, podem aparecer irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, sensação de culpa, medo do futuro, tensão constante e conflitos nos relacionamentos.
A literatura científica também aponta uma associação entre dificuldades financeiras, endividamento e pior saúde mental. Uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu dezenas de estudos encontrou relação entre níveis mais elevados de dívidas sem garantia e diferentes indicadores de sofrimento psíquico. Os próprios autores, no entanto, ressaltam que estabelecer uma relação direta de causa e efeito é mais complexo.
“Ter uma dívida não significa necessariamente desenvolver um transtorno de ansiedade. Da mesma forma, sentir ansiedade diante de uma dificuldade financeira não significa estar doente. Precisamos ter cuidado para não transformar reações humanas compreensíveis em diagnósticos. O sinal de atenção aparece quando a preocupação se torna intensa, persistente e começa a interferir no funcionamento da pessoa”, afirma Daisy.
Fugir não ajuda
Outro aspecto dessa relação é o ciclo que pode se formar entre ansiedade e desorganização financeira. Diante de uma dívida ou de uma situação difícil, algumas pessoas procuram informações, reorganizam os gastos e elaboram um plano. Outras, porém, podem sentir tamanho desconforto que passam a evitar o problema: deixam de consultar a conta bancária, não abrem a fatura do cartão, evitam conversar com familiares ou parceiros e adiam decisões importantes.
De acordo com a American Psychological Association (APA), evitar lidar com as finanças pode proporcionar alívio no curto prazo, mas tende a contribuir para o agravamento dos problemas financeiros e, posteriormente, da própria ansiedade.
“A evitação é uma tentativa de proteção. A pessoa pensa: ‘se eu não olhar agora, vou sofrer menos’. E realmente pode existir um alívio momentâneo. O problema é que a realidade financeira continua existindo. Por isso, quanto mais tempo ela é evitada, maior pode se tornar a sensação de perda de controle”, explica a psicóloga.
Nesse sentido, a dificuldade não deve ser reduzida simplesmente à falta de organização ou de força de vontade. Comportamentos financeiros também podem ser influenciados por emoções, aprendizados familiares, hábitos, crenças, impulsividade e diferentes formas de lidar com situações desconfortáveis.
A relação entre dinheiro e saúde emocional também aparece nos hábitos de consumo. Comprar pode proporcionar prazer, sensação de recompensa e alívio momentâneo e, em determinadas situações, algumas pessoas podem recorrer às compras para tentar diminuir sentimentos desagradáveis.
Uma pesquisa realizada com participantes brasileiros durante a pandemia encontrou associação entre estresse, sintomas depressivos e compras excessivas utilizadas como estratégia de enfrentamento. Isso, porém, não significa que toda compra por prazer seja problemática.
Limites
“Comprar algo de que gostamos pode ser absolutamente saudável. A questão é observar a função que aquele comportamento está desempenhando. Eu estou comprando porque quero aquele produto e ele cabe na minha realidade ou estou tentando aliviar ansiedade, frustração, solidão ou tristeza? Quando a compra se transforma repetidamente em uma estratégia para regular emoções, vale a pena olhar para esse comportamento com mais atenção”, diz Daisy.
O alívio proporcionado pela compra, entretanto, pode ser temporário. Depois, diante da fatura, podem surgir culpa e preocupação, criando um ciclo capaz de alimentar novamente a ansiedade.
Outro componente que pode agravar esse cenário é a vergonha. Problemas financeiros podem ser interpretados como sinais de fracasso pessoal, levando algumas pessoas a esconder suas dificuldades inclusive de familiares e amigos que poderiam oferecer apoio.
“Dinheiro ainda é cercado por muito julgamento. Existe uma expectativa social de que uma pessoa adulta deveria saber administrar perfeitamente sua vida financeira. Quando isso não acontece, ela pode se sentir incompetente ou fracassada. Mas atravessar uma dificuldade financeira não define a capacidade, o caráter ou o valor de ninguém”, ressalta a psicóloga.
Além disso, nem toda dificuldade financeira está relacionada à desorganização individual. Desemprego, perda de renda, doença na família, aumento do custo de vida, separação, emergências e condições socioeconômicas podem alterar radicalmente o orçamento de uma pessoa ou família. Por isso, atribuir exclusivamente ao indivíduo a responsabilidade pela situação pode aumentar ainda mais o sofrimento.
Reorganizando as contas
Nesse cenário, recuperar algum nível de organização pode ser importante não apenas para as finanças, mas também para a sensação de controle. O Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) define bem-estar financeiro considerando não apenas a quantidade de dinheiro disponível, mas também a capacidade de administrar as despesas cotidianas, lidar com imprevistos, caminhar em direção a objetivos e ter liberdade para fazer escolhas.
Para Daisy, o primeiro passo nem sempre precisa ser solucionar todos os problemas financeiros de uma só vez. Em alguns casos, começar por conhecer a própria realidade já pode ajudar.
“Existe uma diferença muito grande entre ter um problema e não saber o tamanho dele. Quando colocamos as informações no papel: quanto entra, quanto sai, quais são as dívidas e o que pode ser negociado; talvez o problema não desapareça, mas deixa de ser algo indefinido. E aquilo que conseguimos enxergar também pode começar a ser planejado.”
A partir desse diagnóstico, podem ser adotadas medidas como listar despesas, estabelecer prioridades, renegociar dívidas, reduzir gastos possíveis e buscar orientação financeira especializada. Ao mesmo tempo, os cuidados com a saúde emocional também precisam ser preservados. Sono adequado, atividade física, manutenção de vínculos sociais e diálogo com pessoas de confiança podem ajudar a reduzir a sobrecarga provocada pelo estresse.
A atenção deve aumentar quando a preocupação financeira deixa de ser uma reação pontual e passa a comprometer diferentes áreas da vida. Insônia persistente, crises de ansiedade, irritabilidade intensa, isolamento, perda de interesse por atividades habituais, dificuldade significativa de concentração ou sentimentos constantes de desesperança são sinais que merecem avaliação profissional.
Busque ajuda
“Buscar ajuda psicológica não vai fazer uma dívida desaparecer, mas pode ajudar a pessoa a compreender como está reagindo àquela situação, reduzir o sofrimento, recuperar a capacidade de tomar decisões e desenvolver estratégias mais funcionais para enfrentá-la”, explica Daisy.
No Dia Mundial da Saúde Mental, a relação entre dinheiro e bem-estar emocional reforça a necessidade de ampliar a compreensão sobre os diferentes fatores que interferem na saúde mental. As condições financeiras, as relações pessoais, o trabalho, o descanso e as condições de vida fazem parte desse contexto e podem influenciar a maneira como cada pessoa lida com as incertezas do futuro.
“Precisamos falar sobre dinheiro de uma maneira mais humana e menos punitiva. Organização financeira é importante, mas saúde emocional também é. Em determinados momentos da vida, uma pessoa pode precisar de um especialista para organizar suas finanças e de outro profissional para ajudá-la a organizar aquilo que essa situação despertou emocionalmente. Uma coisa não substitui a outra. Elas podem caminhar juntas”, finaliza Daisy Cangussú.