Globo/ Estevam Avellar
Em entrevista exclusiva, Welket Bungué fala sobre seu rei em A Nobreza do Amor e a força de uma história que resgata identidade e representatividade
Ele fala pausadamente, com profundidade e intenção. Cada resposta parece atravessada por reflexão, propósito e um olhar sensível sobre o mundo. Não à toa, Welket Bungué construiu uma trajetória que ultrapassa fronteiras — e agora volta às novelas brasileiras em um papel simbólico.
Na nova trama da Globo, A Nobreza do Amor, o ator viveu o Rei Cayman, personagem que carregou força, espiritualidade e conflitos internos — mas que teve um fim trágico vítima de um golpe de Estado liderado pelo vilão Jendal (Lázaro Ramos). Para o ator, seu personagem é como qualquer pessoa sábia e que tenha vivido o suficiente para isso. “Ele é movido pelo coração, porque o coração tem a inteligência do espírito. Portanto, a racionalidade, a intuição e a consciência do poder são coisas acrescidas à consciência de Cayman”, define o ator.
Realeza e propósito
O primeiro contato com o personagem já indicava a grandiosidade do desafio. Durante os testes, Welket se deparou com longos monólogos e uma construção quase shakespeariana. “Era como um rei Lear ou Macbeth. Isso me deixou muito empolgado”, relembra. Depois dos testes, os pontos-chave para se apaixonar pelo Rey Cayman foram entender a dimensão humana do seu personagem, descobrir a participação de atores afro-brasileiros e africanos (como é o seu caso) na trama e se aprofundar na história da novela. “Tudo isso foi bastante apelativo e eu, desde o início, dei o meu melhor para que eu pudesse ser entendido como um ator digno e capacitado para contar essa história no papel de Rei Cayman.”
Na história, seu personagem foi um líder que precisou lidar com o peso do destino. “O grande dilema dele foi a impossibilidade de se rebelar autonomamente e ter que lidar com a fatalidade do destino”, explica. “O rei nessa história tem uma aparição reduzida, mas o seu papel é importantíssimo não só para a fundação de um reino que passa a existir como um reino livre, mas também no germinar dessa história de vingança, de amor, de autocoração, que depois é trilhado pela filha, a princesa Alika (Duda Santos). É a existência do caos que, de forma eterna, irá tentar substituir a ordem, porque essas duas forças estão destinadas a combater”, completa.
Representatividade em cena
Mais do que um papel, o ator enxerga a novela como um marco. “Quando assistimos a uma novela com atores afro-brasileiros e africanos interpretando papéis centrais, estamos devolvendo não só alguma verdade invisibilizada e apagada no imaginário coletivo do povo brasileiro, mas também, em muitos casos, negada. Além disso, estamos devolvendo uma autoestima justa para as crianças que, durante muito tempo, não se conseguiram ver representadas na televisão brasileira.”
Ao mesmo tempo, Welket reforça que, com a trama, nós temos a possibilidade de aprender mais sobre história, costumes e códigos ritualísticos dos vários povos africanos que existem no continente africano. “E isso eu acho que é um contributo social e cultural sem precedentes”, afirma.
Um artista entre mundos
Nascido na Guiné-Bissau, criado em Portugal e com carreira consolidada também no Brasil e na Europa, Welket carrega em si múltiplas identidades — e faz disso uma potência artística. “Eu aprendi, ao passar por esses e outros lugares, que existe uma troca permanente nos movimentos de chegada e partida de um determinado lugar. Isso se traduz nessa simultaneidade cultural que habita em mim e tem sido um fator determinante para os projetos para os quais eu sou chamado. É como se eu fosse africano, português e brasileiro”, diz.
Novos desafios
Além da novela, também veremos o ator em outra obra, Nova Éden, que estreia em novembro deste ano. “A história se ambienta na região do estado do Paraná, no início do século XX, mais especificamente em 1920. E eu interpreto um padre que, nesse contexto, é uma figura excepcional e que, por conta disso, é recebido com hostilidade por parte das pessoas do vilarejo, onde ele tem que começar a performar missas em latim. Eu sinto que fizemos um trabalho importante e belo, sustentado em bastante pesquisa da época.”
Para o papel, mergulhou numa preparação intensa. “Precisei aprender latim, embora eu já soubesse falar ligeiramente a língua, porque aprendi no ensino médio. Foi um desafio, mas me deu bastante prazer, porque nos últimos anos eu tenho me interessado pelo gnosticismo e por toda a filosofia que está associada às várias religiões que existem”, conta.
Diretor
Além de atuar, Welket também é um excelente diretor e entende que as duas funções — e experiências de vida — se complementam. “Eu costumo dizer que para ser melhor ator, você precisa ser uma melhor pessoa. Todas as minhas vivências acumuladas constituem o meu arquivo pessoal, geográfico e a técnica que eu adquiri por ter estudado. Então, na hora de dirigir ou de contar uma história, eu acho que essa sabedoria é essencial para que você possa fazer o uso dos recursos de que dispõe, ao invés de se tornar condicionado e refém das limitações técnicas orçamentais. Estou mais interessado em contar histórias a partir de um lugar sensitivo do que apenas corresponder a padrões técnicos”, explica.
Arte que transforma
Ao longo da sua incrível trajetória, Welket já acumula diversos prêmios pelos seus trabalhos, mas ele vê uma importância muito maior do que levar uma estatueta para casa. “O mais importante é nós conseguirmos manter a humildade de saber que existe sempre um antes e um depois da nossa passagem. E o máximo que nós fazemos é nos conectarmos, de fato, com a nossa função neste mundo. E essa função, de forma filosófica, para mim é o que revela o nosso verdadeiro propósito”, descreve.
E por falar em trajetória, o ator deixa claro que, apesar da vasta experiência, ele mantém vivos seus sonhos e os persegue com determinação. “Posso dizer que tem vários atores com quem eu gostaria de partilhar o palco, mas especialmente Denzel Washington, é o meu favorito, meu mentor invisível e imaginário. Então eu estou muito convencido de que esse momento acontecerá em algum ponto na minha carreira.”
Fechando esse olhar entre passado, presente e futuro, Welket reforça que sua caminhada artística segue guiada por propósito e inquietação. “Tem muita história que eu ainda gostaria de poder participar como ator”, adianta. “Gosto de projetos que façam as pessoas sentirem que vale a pena viver, que há esperança no mundo”, finaliza.