Trabalhar sentado pode trazer riscos à saúde vascular: entenda

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Passar horas em frente ao computador afeta a circulação; aprenda a evitar a trombose

Jornalistas, executivos, médicos, advogados, motoristas, programadores e funcionários de escritório conhecem a sensação de passar oito, 10, às vezes 12 horas numa cadeira. Mas essa é uma bomba-relógio que não faz alarde. Ainda que essas pessoas comam direito, frequentem a academia e realizem exames periódicos, há uma ocorrência silenciosa que pode neutralizar parte desses benefícios e favorecer uma condição potencialmente fatal: a trombose venosa profunda.

Para evitar problemas circulatórios, levante-se a cada hora e caminhe por alguns minutos: foco na saúde vascular (Foto: Magnific)

“O problema não está necessariamente na ausência de exercícios, mas no excesso de horas consecutivas sentado”, explica a cirurgiã vascular Aline Lamaita. “Hoje vemos muitas pessoas que treinam uma hora por dia, mas passam outras dez horas praticamente imóveis, sentadas diante de um computador. Do ponto de vista vascular, isso cria um cenário muito semelhante ao observado em viagens longas de avião ou internações prolongadas”, continua ela.

O que é trombose?

A trombose venosa profunda acontece quando um coágulo se forma no interior das veias, geralmente nos membros inferiores. Esse coágulo bloqueia parcialmente ou totalmente a passagem do sangue. O quadro pode causar dor, inchaço e sensação de peso nas pernas. Em muitos casos, evolui de forma discreta, até gerar complicações graves, segundo a médica.

“O que muitos profissionais de escritório não percebem é que permanecer sentado por longos períodos compromete justamente um dos mecanismos mais importantes para o retorno do sangue ao coração: a contração da musculatura da panturrilha, frequentemente chamada de ‘coração periférico’”, ensina ela.

Como é o funcionamento

Cada passo que damos comprime as veias profundas das pernas e impulsiona o sangue para cima, vencendo a gravidade. No entanto, quando a pessoa permanece sentada por horas, especialmente com os joelhos flexionados e pouca movimentação dos tornozelos, a chamada bomba muscular, responsável pelo impulsionamento do sangue, entra em modo de espera.

“O fluxo sanguíneo desacelera, o sangue permanece mais tempo parado dentro das veias e isso favorece a estase venosa, que é um dos principais gatilhos para a formação de trombos”, explica a médica. Estase venosa é a circulação lenta de sangue nas veias.

No entanto, o impacto vai além disso. A permanência prolongada em estado de baixa atividade também provoca alterações na parede interna dos vasos, conhecida como endotélio, que é uma estrutura essencial para manter o sangue fluindo de forma adequada. O endotélio produz substâncias anticoagulantes e vasodilatadoras que ajudam a manter o equilíbrio da circulação. Assim, passar muitas horas em inatividade pode causar disfunção nesse tecido, com aumento de mediadores inflamatórios. “Em outras palavras, o sangue encontra um ambiente biologicamente mais propício à coagulação”, salienta a especialista.

Esse fenômeno faz parte de um conceito clássico da medicina vascular conhecido como tríade de Virchow, que reúne os três fatores que favorecem a trombose: lentidão do fluxo sanguíneo, alterações na parede dos vasos e maior tendência individual à coagulação. “O trabalho sedentário pode atuar diretamente em pelo menos dois desses mecanismos, e, quando o paciente ainda apresenta fatores adicionais, como obesidade, tabagismo, idade acima de 40 anos, uso de anticoncepcionais ou terapias hormonais, histórico familiar ou resistência à insulina, o risco se torna ainda mais relevante”, adverte Aline Lamaita.

Embolia pulmonar

Um dos aspectos mais preocupantes é que a trombose nem sempre dá sinais evidentes. Em alguns pacientes, o primeiro evento pode ser justamente a complicação mais grave: a embolia pulmonar, que acontece quando parte do coágulo se desprende e alcança a circulação dos pulmões. “Dependendo do tamanho do trombo, o paciente pode apresentar falta de ar súbita, dor torácica, queda da oxigenação e até morte súbita. Por isso, a trombose não deve ser vista como um problema restrito a pessoas hospitalizadas ou acamadas”, ressalva ela.

Dá para se precaver?

Para prevenir o problema, é preciso fazer pequenos intervalos ao longo do dia, uma vez que essas pausas já podem produzir impacto importante na circulação. A médica esclarece que o ideal é não permanecer mais de 30 a 60 minutos consecutivos sentado. Desse modo, levantar-se por dois ou três minutos, caminhar pelo ambiente, realizar movimentos de flexão plantar ou até contrair repetidamente a panturrilha já ajuda a reativar a bomba muscular e restaurar parte do fluxo venoso.

Segundo a especialista, em indivíduos com fatores de risco adicionais, a avaliação vascular pode identificar a necessidade de estratégias complementares. Entre essas estratégias, estão meias de compressão graduada ou protocolos específicos de prevenção. “O corpo humano foi projetado para alternância constante de movimento. O grande problema da vida moderna não é apenas não fazer exercício; é permanecer imóvel por tempo demais sem perceber que isso, por si só, já pode ser um fator de risco vascular”, conclui a especialista.