Uma mistura apelidada nas redes sociais de “café dos campeões” acendeu o alerta das autoridades de saúde. Vídeos publicados na internet têm mostrado combinações de medicamentos controlados com bebidas energéticas sob a promessa de aumentar energia, concentração e rendimento no trabalho, nos estudos e nas atividades do dia a dia.

No dia 4 de setembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta sobre a prática e reforçou que não se deve utilizar medicamentos de maneira recreativa. Segundo a Agência, a associação de alguns medicamentos com substâncias presentes em energéticos, como cafeína e taurina, pode provocar taquicardia e elevação da pressão arterial. Além disso, há possibilidade de consequências graves mesmo em pessoas jovens e sem histórico conhecido de doenças cardíacas.
Para o farmacêutico Jamar Tejada, a tendência chama atenção para um comportamento que vai além de uma simples receita viral. A tentativa de transformar medicamentos em ferramentas para suportar uma rotina cada vez mais exaustiva.
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“Medicamento não é energético e não deve ser utilizado como um recurso para produzir mais, estudar por mais horas ou conseguir vencer o cansaço. Quando uma pessoa utiliza um medicamento controlado sem indicação e ainda o associa a substâncias estimulantes, ela está fazendo uma combinação cujos efeitos podem ser imprevisíveis”, explica.
Por que misturar medicamento e energético é perigoso?
As redes sociais transformam uma combinação farmacológica em uma receita aparentemente inofensiva. Mas a resposta varia conforme o medicamento, a dose, as condições de saúde e as outras substâncias consumidas. O fato de alguém ter usado e não apresentar uma reação imediata não torna a combinação segura.
“Medicamentos controlados têm indicações e doses específicas. Usar o medicamento prescrito para outra pessoa ignora o diagnóstico, as condições individuais e a necessidade de acompanhamento. Não existe segurança em copiar a receita de um amigo ou influenciador”, alerta.
Por que tanta gente está precisando de alguma coisa para conseguir funcionar?
Para Jamar, a busca por estimulantes também pode esconder um problema que precisa de investigação. Espera-se sentir cansaço depois de um dia intenso. O sinal de alerta aparece quando a exaustão persiste, interfere na rotina ou leva a pessoa a depender de substâncias para trabalhar, estudar ou realizar tarefas básicas.
A própria Anvisa chama atenção para o fato de que o cansaço permanente relacionar-se a condições que precisam de investigação, como anemia, alterações da tireoide, apneia do sono e depressão.
“Se você precisa constantemente de alguma substância para conseguir começar o dia, manter a concentração ou permanecer acordado, talvez a pergunta não deva ser ‘o que eu posso tomar para ter mais energia?’, mas ‘por que eu estou tão cansado?’. Mascarar o sintoma pode atrasar a investigação da causa”, afirma Jamar.
Mais energia não precisa vir de uma lata — muito menos de um comprimido
A busca por disposição passa primeiro por fatores básicos que muitas vezes ficam em segundo plano diante de uma rotina acelerada.
Sono adequado, alimentação equilibrada, hidratação, prática regular de atividade física e períodos de descanso e lazer estão entre as medidas apontadas pela própria Anvisa para melhorar a disposição de maneira saudável.
“Não existe comprimido capaz de substituir indefinidamente sono, alimentação adequada e recuperação. Se esses pilares estão organizados e, mesmo assim, o cansaço persiste, é justamente aí que precisamos investigar”, explica o farmacêutico.
Jamar reforça ainda que quem já utiliza medicamento controlado prescrito não deve alterar doses, interromper o tratamento ou fazer associações com energéticos por conta própria.
“Precisamos tomar cuidado com essa cultura de buscar uma substância para cada necessidade. Uma para acordar, outra para produzir, outra para treinar e mais uma para dormir. O organismo não pode ser acelerado indefinidamente. Cansaço não é falta de medicamento. Às vezes, é um sinal de que alguma coisa precisa ser investigada ou modificada na rotina”, finaliza.