Novas diretrizes da OMS reforçam que pressão alta diabetes e inatividade física ajudam a compor o risco de demência ao longo da vida
A prevenção do declínio cognitivo começa muito antes dos primeiros sinais de perda de memória. Novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde, publicadas em julho de 2026, indicam que até 45% do risco de demência pode estar associado a fatores modificáveis, como hipertensão, diabetes, inatividade física, tabagismo e consumo nocivo de álcool. O dado reforça a relação entre saúde cerebral e cuidados metabólicos mantidos ao longo da vida.

Saúde metabólica e risco de demência
Alexandre Duarte, médico, professor, referência em fisiologia metabólica e hormonal e fundador do Instituto Avantgarde, centro especializado em medicina metabólica e hormonal voltado à prevenção, explica que essa compreensão muda a forma de observar o envelhecimento.
“Quando se pensa em saúde cerebral, é comum olhar primeiro para a memória. Na prática, é preciso observar também o que está acontecendo com o organismo ao longo dos anos, porque o cérebro depende de circulação adequada, oferta de energia e equilíbrio de diferentes funções fisiológicas”, afirma.
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Mais de 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, segundo a OMS, e a doença de Alzheimer representa entre 60% e 70% dos casos. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, estima que mais de 1,8 milhão de pessoas convivam com a condição.
Parte dessa discussão passa pela saúde vascular. Hipertensão, colesterol elevado e diabetes podem comprometer os vasos sanguíneos ao longo do tempo, enquanto alterações na circulação cerebral estão relacionadas ao risco de demência vascular. Por isso, o controle de condições cardiometabólicas aparece entre as estratégias de redução de risco recomendadas pela OMS.
Como o metabolismo se relaciona ao cérebro
Outra frente de pesquisa investiga como alterações na utilização da glicose e na sinalização da insulina podem afetar o funcionamento do sistema nervoso. A relação é estudada especialmente em pessoas com resistência à insulina e diabetes tipo 2, mas as evidências não permitem afirmar que essas condições, isoladamente, provoquem Alzheimer.
“É importante não transformar uma associação em diagnóstico ou promessa de prevenção. Uma pessoa com resistência à insulina não necessariamente terá Alzheimer, assim como manter a glicemia controlada não significa estar imune à doença. O que podemos fazer é reduzir fatores sobre os quais existe possibilidade de intervenção”, ressalta Duarte.
Hábitos que ajudam a proteger o cérebro
A atividade física também aparece nesse conjunto de cuidados. Além de contribuir para a regulação da glicose, manutenção da massa muscular e saúde cardiovascular, a prática regular faz parte das recomendações da OMS para redução do risco de declínio cognitivo. Alimentação equilibrada, abandono do tabagismo e redução do consumo nocivo de álcool completam as principais medidas modificáveis.
Para Duarte, um dos pontos mais importantes é antecipar os cuidados com a saúde. “A prevenção não começa aos 70 anos. Muitas alterações que vão cobrar um preço mais tarde são construídas durante décadas. A melhor estratégia é não esperar uma doença aparecer para começar a acompanhar os marcadores que podem ser modificados”, aponta.
Prevenção não significa garantia
Isso não significa que mudanças no estilo de vida, sozinhas, possam evitar o Alzheimer. Idade, genética, histórico familiar e outros mecanismos biológicos também participam do desenvolvimento da doença.
“A mensagem não é que existe uma fórmula para impedir uma doença neurodegenerativa. É que cuidar do organismo durante a vida também oferece uma oportunidade de proteger funções que serão importantes no envelhecimento. Não devemos começar a cuidar da saúde cerebral apenas quando a memória falha”, conclui Duarte.