Enxaqueca frequente? O perigo da cafeína oculta no dia a dia

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Quando presente em analgésicos, cafeína pode dificultar o controle das crises, favorecendo a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos

Para muitas pessoas, um café forte é sinônimo de disposição e alguns até acreditam que essa é uma forma de aliviar uma dor de cabeça passageira. Mas, para quem convive com enxaqueca, esse hábito pode representar exatamente o contrário: um fator que contribui para a manutenção e a piora da doença.

Enxaqueca frequente? O perigo da cafeína oculta no dia a dia
Foto: Freepik

“A cafeína modifica a forma como o cérebro responde aos estímulos relacionados à dor. O cérebro do paciente com enxaqueca já apresenta uma tendência maior a reagir de maneira intensa a luzes, sons, odores e alterações hormonais. Quando há consumo frequente de cafeína, essa reatividade aumenta ainda mais. Isso dificulta que o cérebro retorne ao seu funcionamento normal”, explica Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina e membro da International Headache Society (IHS). O problema é que a cafeína não está presente apenas no café. “Chocolate, chás estimulantes, refrigerantes, bebidas energéticas, medicamentos e até cosméticos podem expor o paciente à substância sem que ele perceba. E isso dificulta o tratamento”, acrescenta o médico.

Os malefícios do café

Segundo o neurologista, a cafeína é um importante fator cronificador da doença. Ou seja, favorece a transformação de crises esporádicas em um quadro mais frequente e difícil de controlar. “Embora o café seja a principal fonte de cafeína na alimentação, muitos pacientes continuam ingerindo a substância por meio de produtos considerados inofensivos”, diz o profissional. Entre os principais exemplos estão:

  • chocolates, especialmente os com maior concentração de cacau;
  • chás estimulantes, como chá-preto, chá-verde, chá-mate e chá branco;
  • refrigerantes à base de cola e de guaraná, inclusive as versões zero açúcar;
  • bebidas energéticas; analgésicos que contêm cafeína na composição;
  • cremes anticelulite;
  • cremes para a região dos olhos e olheiras”.

“A gente orienta os pacientes a retirarem alimentos, medicamentos e até cosméticos que contenham cafeína. Muitas vezes a pessoa está evoluindo muito bem no tratamento, começa a usar um creme anticelulite ou um creme para a área dos olhos com cafeína e volta a apresentar piora das crises”, afirma o neurologista.

Um dos exemplos clássicos da dependência da cafeína acontece quando a pessoa deixa de consumir o café diário e acorda com dor de cabeça. Ao tomar uma xícara, a dor melhora rapidamente. Segundo o especialista, isso não significa que o café esteja tratando a enxaqueca. “Na verdade, muitas vezes estamos diante de uma dor relacionada à abstinência da cafeína. O paciente passa a depender da substância para não sentir dor, criando um ciclo que perpetua o problema”, comenta.

Os famosos energéticos

Os energéticos ainda merecem atenção especial. “Entre todas as fontes de cafeína, as bebidas energéticas ocupam um lugar de destaque pela alta concentração da substância. Além de poderem piorar as crises de enxaqueca, elas também estão associadas a outros riscos neurológicos e cardiovasculares. As bebidas energéticas possuem quantidade de cafeína suficiente para causar problemas importantes. Além do impacto na enxaqueca, podem aumentar o risco de arritmias cardíacas e até reduzir o limiar para crises convulsivas em pessoas suscetíveis. São produtos que merecem muita cautela”, comenta o médico.

Pré-treino também entra nessa conta

O mesmo alerta vale para suplementos de cafeínas usados para performance. “É comum encontrarmos suplementos que fornecem entre 200 e 400 mg de cafeína por dose, quantidade equivalente a duas, três ou até quatro xícaras de café. Quando esse consumo se soma ao café, aos energéticos e a outras fontes, o indivíduo pode ultrapassar facilmente níveis que aumentam o risco de efeitos adversos, principalmente quem já convive com enxaqueca”, alerta o farmacêutico Dr. Maurizio Pupo, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações.

“Além da relação com a enxaqueca, a cafeína pode provocar outros efeitos adversos que muitas pessoas acabam atribuindo ao próprio treino. Dependendo da dose e da sensibilidade individual, é possível ocorrer palpitações, aumento da frequência cardíaca, elevação transitória da pressão arterial, ansiedade, tremores, insônia, irritabilidade, náuseas, boca seca e tontura. Em algumas pessoas, especialmente após o efeito estimulante inicial ou em situações de desidratação, também pode haver sensação de fraqueza e queda da pressão ao se levantar rapidamente, embora esse não seja um efeito direto e típico da cafeína”, diz o farmacêutico.

Não precisa de cafeína para estimular

Vale ressaltar que nem toda estratégia ergogênica depende da cafeína ou precisa ter ação estimulante central. “Diversos suplementos apresentam evidências científicas para melhora do desempenho sem atuar como estimulantes do sistema nervoso central. Entre as opções estão a creatina, amplamente estudada para exercícios de força e potência; a beta-alanina, indicada para atividades de alta intensidade e duração intermediária; o nitrato proveniente da beterraba, que melhora a eficiência muscular em modalidades de resistência; e a adequada reposição de carboidratos e eletrólitos durante exercícios prolongados”, comenta o Dr. Maurizio Pupo.

“O melhor suplemento depende do tipo de atividade física, da intensidade do treinamento e das características individuais. Para pessoas com enxaqueca, muitas vezes é possível atingir excelentes resultados utilizando estratégias nutricionais e suplementos que não contenham cafeína”, destaca o farmacêutico.

Refrigerante zero continua tendo cafeína

Um erro comum é acreditar que as versões zero açúcar ou zero calorias dos refrigerantes eliminam todos os componentes potencialmente prejudiciais para pacientes com enxaqueca. “No Brasil, muitos refrigerantes zero continuam contendo cafeína. O fato de não terem açúcar não significa que sejam uma opção segura para quem tem enxaqueca”, diz o Dr. Tiago de Paula. Por isso, o neurologista recomenda que pacientes aprendam a ler os rótulos e identifiquem a presença da substância antes do consumo.

Analgésico com cafeína: um risco duplo para enxaqueca

Outro ponto de atenção são os medicamentos que associam analgésicos à cafeína. Embora sejam amplamente utilizados para tratar dores de cabeça, eles podem acelerar a cronificação da doença. “O analgésico isoladamente já pode levar à cefaleia por uso excessivo de medicamentos quando utilizado com frequência. Quando ele é combinado com cafeína, esse processo acontece ainda mais rapidamente.” Segundo o neurologista, medicamentos dessa categoria podem levar o paciente à chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos com um consumo relativamente baixo. “Existem analgésicos combinados em que, a partir de aproximadamente dez comprimidos por mês, o paciente já pode entrar nesse ciclo de dor recorrente. É um risco que muitas pessoas desconhecem”, destaca o Dr. Tiago.

Para ele, o tratamento da enxaqueca envolve uma abordagem global e integrada para atuar em todos os aspectos da doença, assim promovendo uma melhora rápida e devolvendo qualidade de vida ao paciente. “Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida acompanhadas por nutricionistas e psicólogos, utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a sensibilidade do cérebro a dor, ajudando, assim, no controle da enxaqueca”, diz o neurologista.

Alternativas para tratar enxaqueda

O médico explica que outra opção entre os tratamentos de primeira linha são os medicamentos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para enxaqueca. “Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista. Ele acrescenta que, em pacientes com enxaqueca crônica, a combinação da toxina botulínica com os anti-CGRPs tem se mostrado mais eficaz do que o uso isolado dessas terapias. “A avaliação individual é essencial para recomendação do plano de tratamento mais adequado para cada caso. O médico também poderá auxiliar na identificação de gatilhos e fatores cronificadores da doença, o que é fundamental para o controle das crises”, finaliza o Dr. Tiago de Paula.