Excesso de notícias, discussões nas redes sociais e tensão diante do resultado eleitoral podem manter o organismo em estado de alerta; pesquisa mostra que 35% das mulheres e 23% dos homens reconhecem o estresse como fator de risco para doenças do coração
A política saiu da televisão e passou a acompanhar o brasileiro durante praticamente todo o dia. Está nas notificações do celular, nos grupos de mensagens, nas redes sociais, nas conversas entre amigos e até nos encontros de família. Em período eleitoral, a quantidade de pesquisas, notícias, vídeos, opiniões e discussões cresce e, para algumas pessoas, acompanhar tudo isso pode significar viver semanas em permanente estado de tensão.

Esse fenômeno é chamado de sobrecarga eleitoral. A preocupação ganha relevância quando se observa a relação entre estresse e saúde cardiovascular. Pesquisa realizada pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) mostrou que 35% das mulheres e 23% dos homens apontam o estresse como fator de risco para doenças do coração. Veja Saúde
Para o cardiologista Dr. Daniel Petlik, o problema não está em acompanhar as eleições ou se interessar por política, mas na maneira como o organismo responde quando a tensão se torna constante. “Uma discussão política mais intensa, uma notícia que provoca preocupação ou a ansiedade diante de um resultado podem gerar uma resposta de estresse. O organismo libera adrenalina e cortisol, a frequência cardíaca aumenta e a pressão pode subir. Isso é uma reação fisiológica. O cuidado maior está quando a pessoa permanece nesse estado de alerta durante boa parte do dia e por períodos prolongados”, explica.
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Quando a política não sai da cabeça
A dinâmica das redes sociais pode contribuir para essa sensação. Uma notícia leva a outra, os comentários aumentam a tensão e o celular mantém a pessoa conectada ao debate mesmo quando ela já saiu do trabalho ou foi para a cama. A matéria da Veja Saúde destaca que essa exposição contínua pode estar associada a ansiedade, irritabilidade e insônia. Veja Saúde
O cardiologista Dr. Carlo Bonasso Filho explica que o efeito sobre o coração também pode acontecer indiretamente.
“Uma pessoa muito envolvida em um ambiente de tensão pode começar a dormir pior, abandonar exercícios, comer de maneira inadequada ou aumentar o consumo de álcool e cigarro. Portanto, não estamos falando apenas do estresse isoladamente, mas de uma sequência de comportamentos que pode aumentar o risco cardiovascular.”
Discussão política pode provocar um infarto?
Não significa que uma eleição ou uma discussão política provoque, isoladamente, um infarto. O risco precisa ser analisado dentro de um conjunto de fatores. A exposição crônica ao estresse, entretanto, pode contribuir para elevação da pressão arterial, alterações metabólicas e distúrbios do sono. Em pessoas que já apresentam aterosclerose ou outros fatores de risco, episódios intensos de tensão podem atuar como gatilho para eventos cardiovasculares agudos. Veja Saúde
Para a cardiologista Dra. Thaís Pinheiro Lima, quem já possui doença cardiovascular ou fatores como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo merece atenção especial. “Não é necessário ter medo de discutir política ou acompanhar uma eleição. O importante é perceber quando isso começa a produzir sintomas ou modificar a rotina. Se a pessoa passa horas consumindo notícias, perde o sono, fica permanentemente irritada e não consegue se desconectar, talvez seja o momento de estabelecer limites.”
A cardiologista Dra. Patrícia Hitomi Kuga reforça que acompanhar o debate público não precisa significar permanecer conectado o tempo inteiro. “Informação é importante, mas não precisamos acompanhar cada atualização em tempo real. Criar horários para consumir notícias, evitar discussões que provocam sofrimento excessivo e preservar sono, atividade física e momentos de lazer são medidas simples que ajudam a reduzir a sobrecarga. Cuidar do coração também envolve reconhecer aquilo que mantém o organismo constantemente em tensão.”
Em ano eleitoral, portanto, desligar o celular por algumas horas não significa deixar de participar do debate público. A recomendação é encontrar equilíbrio entre estar informado e permitir que o organismo saia do estado permanente de alerta. A política pode fazer parte da rotina, mas não precisa ocupar todos os espaços dela.