Entenda por que o IMC não basta para diagnosticar a obesidade

Publicidade

Avaliação completa deve considerar metabolismo, funcionalidade, saúde mental e histórico de peso

Avaliar obesidade apenas pelo peso e pela altura pode deixar de fora informações importantes sobre a saúde do paciente. Uma revisão crítica (leia aqui) sobre os principais sistemas de classificação da doença mostra que o índice de massa corporal (IMC) segue como uma ferramenta útil, principalmente em estudos populacionais, mas não se deve usá-los de forma isolada para definir risco, gravidade ou necessidade de tratamento.

Entenda por que o IMC não basta para diagnosticar a obesidade
Foto: Freepik

Segundo o Dr. Marcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP) e primeiro autor do trabalho, a obesidade é uma doença crônica complexa e muito heterogênea. “Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter composições corporais, distribuição de gordura, condições metabólicas e riscos à saúde completamente diferentes. Por isso, olhar apenas para o número da balança ou para a relação entre peso e altura pode ser insuficiente para uma avaliação individual”, explica.

O trabalho analisa diferentes propostas usadas atualmente para classificar a obesidade, entre elas a classificação tradicional da Organização Mundial da Saúde, o Edmonton Obesity Staging System (EOSS), o modelo proposto pela Comissão Lancet, a abordagem da European Association for the Study of Obesity e sistemas baseados no histórico de peso.

O IMC cumpre um papel

Um dos pontos destacados é que o IMC não deve ser abandonado. Ele segue sendo importante para avaliação populacional e pode também contribuir para a avaliação individual quando interpretado junto a outras medidas antropométricas, como circunferência abdominal, além de informações sobre sexo, idade e etnia.

Mas outras classificações ampliam esse olhar. O EOSS, por exemplo, considera não apenas medidas corporais, mas também alterações metabólicas, limitações físicas, aspectos psicológicos e impacto funcional da obesidade. Essa abordagem pode ajudar a definir a intensidade do tratamento de acordo com a gravidade da doença.

A revisão também discute a proposta da Comissão Lancet, que diferencia obesidade pré-clínica e clínica. Embora o modelo amplie a avaliação para além do IMC, os autores chamam a atenção para desafios como a falta de ferramentas padronizadas de rastreamento, possibilidade de diferenças na interpretação diagnóstica e eventual atraso no tratamento de pessoas classificadas com obesidade pré-clínica. “Esse ponto merece atenção principalmente em crianças e adolescentes. Adiar uma intervenção em determinadas situações pode significar aumentar o risco de complicações futuras”, observa Dr. Mancini.

É uma construção

Outro aspecto abordado pelo trabalho é o histórico de peso. Considerar o maior peso atingido ao longo da vida pode ajudar a estabelecer metas terapêuticas mais realistas e reforçar a compreensão da obesidade como uma condição crônica, que exige acompanhamento de longo prazo. Para o endocrinologista, a principal mensagem é que nenhum sistema, isoladamente, consegue representar toda a complexidade da doença.

“O IMC continua tendo valor, mas precisa ser interpretado dentro de um contexto clínico mais amplo. É importante considerar composição corporal, alterações metabólicas, funcionalidade, saúde psicológica e histórico de peso. Quanto mais completa for essa avaliação, maior a possibilidade de definir um tratamento realmente individualizado e centrado no paciente”, conclui.