Obesidade e saúde mental: entenda de vez essa relação

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Tratamento contra obesidade vai além de cirurgia; também é preciso curar o emocional do paciente

Ao chegar ao consultório em busca da cirurgia bariátrica, muitas vezes o paciente não traz apenas uma história relacionada ao peso. Depois de anos convivendo com a obesidade, é comum que também carregue frustrações, tentativas anteriores de emagrecimento, julgamentos, baixa autoestima e desgaste emocional. A ideia de que basta “fechar a boca e fazer exercícios” para perder peso ainda faz parte do imaginário de muitas pessoas, mas a obesidade é uma doença crônica e complexa, influenciada por fatores genéticos, comportamentais e ambientais.

Pessoas acima do peso convivem há anos com frustrações e julgamentos: psicologia aprofunda compreensão dessa condição (Foto: Magnific)

Segundo projeções do Atlas Mundial da Obesidade para 2026, estima-se que aproximadamente 20% da população adulta global viva com a condição. No cenário brasileiro, a tendência de crescimento é ainda maior: dados recentes indicam que cerca de 25% dos adultos já apresentam obesidade.

Saúde mental

É nesse contexto que a saúde mental passa a ocupar um espaço importante no tratamento. Para as psicólogas do Instituto de Medicina Sallet, de São Paulo (SP), cuidar de uma pessoa com obesidade significa também compreender o que existe por trás da relação com o corpo, com a alimentação e consigo mesma.

A obesidade ainda é acompanhada de um forte estigma social. Comentários sobre o corpo, comparações e cobranças podem interferir na maneira como a pessoa se percebe e se relaciona com o mundo. “Muitas pessoas chegam ao tratamento depois de anos ouvindo que não têm força de vontade ou que precisam simplesmente se esforçar mais. Não podemos nos esquecer de que existe uma história por trás daquele corpo, e muitas vezes ela envolve bullying, julgamentos, tentativas frustradas e uma sensação de impotência”, explica a psicóloga Beatriz Pini. Segundo ela, antes de pensar apenas no peso indicado pela balança, é essencial olhar para a pessoa com obesidade e acolher o sofrimento dela.

Prevenção à obesidade

No mês de outubro, que marca o Dia Nacional de Prevenção à Obesidade, a orientação também é para que as pessoas estejam atentas aos sinais de sofrimento emocional e não tenham receio de buscar ajuda. “Precisamos nos lembrar que prevenção também significa criar espaços de escuta e não esperar que alguém chegue ao limite para procurar ajuda. Existe a falsa ideia de que é preciso dar conta de tudo sozinho, mas reconhecer os próprios limites e procurar apoio também é uma forma de cuidado”, destaca a psicóloga Bianca Godoy.

Cirurgia bariátrica

Para o médico José Afonso Sallet, especialista em cirurgias bariátricas, é preciso conduzir o tratamento contra a obesidade de maneira individualizada e com uma equipe preparada para enxergar o paciente de forma ampla.

“A cirurgia bariátrica não é uma solução isolada ou o fim do tratamento. O paciente precisa de acompanhamento antes, durante e depois. Quando existe uma equipe transdisciplinar, conseguimos entender melhor as necessidades daquela pessoa e oferecer o suporte necessário para que ela tenha não apenas perda de peso, mas uma melhora real na qualidade de vida”, afirma ele. Uma equipe transdisciplinar pode reunir médicos, psicólogos e nutricionistas, entre outros profissionais.

De acordo com as psicólogas do Instituto de Medicina Sallet, esse cuidado continua depois da cirurgia e envolve também atenção aos hábitos e à rotina. Dormir bem, alimentar-se de maneira equilibrada, movimentar o corpo e falar sobre sentimentos representa a construção de uma vida mais saudável.

Experiência de transformação

As especialistas pontuam que o paciente que passa por uma cirurgia bariátrica está vivendo uma grande transformação e precisa de suporte para lidar com as mudanças físicas. Mas não só elas: esse paciente também deverá administrar expectativas, emoções, relações e desafios que podem surgir ao longo do processo de emagrecimento.